Dead Combo / Wray Gunn
Santiago Alquimista, Lisboa
01 Dez 2005
Como é que se decide o que ir ver numa véspera de feriado? De um lado, na ZDB, havia a dobradinha Mouthus/Loosers, do outro, no Santiago Alquimista, a dobradinha Dead Combo/Wraygunn (curiosamente, esta primeira é uma banda ZDB, até ensaia na Galeria). Pode-se ir a um dos sítios pelo preço [1. do bilhete (ZDB 1 - SA 0); 2. das bebidas (ZDB 1 - SA 0)], pela companhia [(ZDB 1 - SA 1)], pela simpatia pelo sítio [1. devido ao espaço (ZDB 1 - SA 2) 2. devido à relevância e à forma como são feitas as coisas lá (ZDB 1 - SA 0)], ou pelas bandas. Neste último campo, no primeiro caso tínhamos duas bandas, um duo de Brooklyn e um trio lisboeta, ambas sintomáticas da nova vaga de música exploratória dos seus locais respectivos, enquanto no segundo tínhamos um duo lisboeta cuja estética destrona o fado como música de guitarras de Lisboa por excelência e uma banda conimbricense de rock'n'roll puro e duro à antiga (se bem que com uns piscares de olhos à soul, ao gospel e ao hip-hop). Em termos da relevância dentro das novas tendências da música actual, o primeiro ia para a ZDB. Mas às vezes precisamos de um concerto de rock'n'roll à antiga, daqueles totalmente previsíveis.

Assim, e com o barulho das pessoas sentadas nas mesas do andar de cima, os Dead Combo começaram a tocar. Tó Trips e Pedro Gonçalves lançaram Vol. 1 no ano passado e continuam a fazer alguma das mais bonita música de guitarras (às vezes duas, outras guitarra e contrabaixo) que Lisboa já ouviu. As paisagens eléctricas criadas pela guitarra quase possuída (como ele próprio) de Tó Trips tanto podem remeter para o fado como para os spaghetti-westerns (e a banda sonora mais recente de Neil Young para Dead Man de Jim Jarmusch vem à cabeça) e são acompanhadas ora pela guitarra rítmica de Pedro Gonçalves ou pelo seu contrabaixo (com arco ou sem arco, com groove ou sem groove). São muito mais interessantes ao vivo do que em disco, com as suas figuras de personagens misteriosas, com um aspecto impecável (Tó Trips usa uma cartola) e todo um lado burlesco nocturno e solitário. Tocam “Temptation”, de Tom Waits, em que Pedro Gonçalves toca contrabaixo e kazoo ao mesmo tempo, para transpor a melodia vocal da canção (é bom ver que Tó Trips, que outrora cantou com uma voz rouca remotamente parecida com a de Waits nos Lulu Blind, esqueceu isso por completo). Dá um efeito interessante, só é pena que as pessoas conversem tanto e tanto enquanto eles tocam, ainda por cima o bilhete era caro, as bebidas eram caras, a vida está cara, o país está em crise, porque é que as pessoas não apareceram mais tarde, já que não queriam ver a primeira banda?

Os Wraygunn são das melhores bandas de rock’n’roll portuguesas, especialmente em cima de um palco. Regressaram ao Santiago Alquimista depois de uma sucessão concertos pela Europa, venderam 8500 cópias de Eclesiastes 1:11 em França, têm sido extremamente bem recebidos e elogiados pela crítica, e estiveram no final de Outubro em Londres para o festival Atlantic Waves. Posto isto, as únicas surpresas que podem vir de um concerto dos Wraygunn têm a ver com a recepção do público, porque a entrega, a energia e especialmente a pose são sempre as mesmas e sempre boas. O que não quer dizer que no início de uma canção Paulo Furtado, vocalista-guitarrista, não se possa pôr de joelhos e começar a solar. Ou mesmo que não possa abandonar o palco para saltar para cima do Balcão e dizer: “Um Jack Daniel’s, por favor”, depois de perguntar a membros do público se são felizes e o que é que é preciso para se ser feliz. Ou logo a seguir dizer que isso não é difícil de fazer, que o que é realmente difícil é viver num ano em que morreram Link Wray, RL Burnside, entre outros, dizendo mais ou menos o que tinha dito horas antes em entrevista ao Bodyspace. Felizmente, o ano está quase no fim.

Temos as canções de Eclesiastes 1:11 e covers de Who (“My Generation”) e de Kinks (“You Really Got Me”), que ganham imenso com as vozes de Raquel Ralha e Selma Uamasse, belíssimas, doces, graciosas e talentosas cantoras que são das visões mais bonitas que podem estar em cima de um palco. Mas temos também um público morno, tirando dois ou três pastilhados que quando a banda convida o público a aproximar-se dos artistas se passam totalmente, que não reage da forma certa aos riffs de Paulo Furtado ou ao cowbell de Raquel Ralha (a sério, de que é que se precisa mais para ser feliz?). Isto fez com que o concerto não fosse dos melhores para a banda, sendo apenas mediano para o que costuma acontecer com eles. Alie-se o público estático ao chato delírio percussivo de João Doce lá para o final, o percussionista que costuma estar bem, que mais parecia os execráveis Safri Duo ou os friques irritantes que costumam estar na rua ou nos festivais de verão a “tocar” (só que bem tocado). Há um encore e pronto. Ou seja, eles saltam, eles suam, eles dançam (especialmente Raquel Ralha, que não pára – e bem – quieta), o público não. Logo em frente de quem entra no Santiago Alquimista há um quadro na parede que explicita as condições do café-teatro. É um documento cheio de erros ortográficos que não passariam pela cabeça de ninguém com mais do que a quarta classe, que a certa altura adverte as pessoas para o facto de os donos poderem expulsar quem desnudar alguma parte do corpo. Tanto Tó Trips como João Doce tiraram a parte de cima (Paulo Furtado, curiosamente, não o fez), desnudando o peito. Será que deviam ter sido expulsos?

Às vezes há escolhas que se devem fazer. Ora optamos bem, ora optamos mal. Fomos pelo rock’n’roll puro e duro, mas podíamos ter ido por outra via. Não fomos. A julgar por alguns relatos, ainda bem, a julgar por outros, menos bem. É assim a vida. Não devemos dar-lhe demasiada importância, nem à vida nem à música. Ou então devemos dar-lhes toda a importância. Porque a vida é a música e a música é a vida. Ou talvez não seja. De qualquer forma, a vida é feita de escolhas e essas coisas que se dizem. Ou outra coisa qualquer.
· 01 Dez 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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