Dead Combo / Nuno, Nico
Maus Hábitos, Porto
22 Fev 2004
Como fundo para o concerto, uma parede preta furada apenas por duas janelas que davam vista para a cidade do Porto, escurecida pela noite. A ocasião: a festa de lançamento dos números dezoito e dezanove da revista “Bíblia”. Uma sala bem prenchida para receber os Dead Combo e o projecto Nuno, Nico.
Os primeiros a actuar seriam os Dead Combo, que tiveram Tó Trips na guitarra e Pedro Gonçalves no contrabaixo. No chão, junto ao guitarrista, uma garrafa de cerveja e uma garrafa de água. A guitarra descontrolada de Tó Trips, que se apresentava com um chapéu preto, camisa verde e sapatos brancos, abria um caminho onde se juntava o contrabaixo, ora tocado pelo arco ou pela mão hábil de Pedro Gonçalves, que trajava um fato castanho que lhe conferia um certo ar de gangster. Partes houve em que parecia estarmos na presença da banda sonora do último filme de Quentin Tarantino ou mesmo da música de Paris, Texas, filme de Wim Wenders, dado o cariz cinematográfico das peças apresentadas. Imaginamos então algo parecido com um cenário western pintado por Carlos Paredes, munido de uma guitarra eléctrica. Imaginamos a guitarra que acompanha Chris Isaak no clássico Wicked Game, mas apresentada num qualquer palco do Texas e acompanhada de castanholas e palmas. Pairou também no ar o fantasma de John Fahey. As "canções" dos Dead Combo são, como eles próprios dizem, "desajeitadas". Resultam de uma liberdade de processos e de uma criatividade que transforma simples riffs em paisagens melancólicas. O público, esse, e porque passou a maior parte do concerto em falatório desmedido e gargalhadas incontroladas, mereceu um comentário da parte de Tó Trips que, irritado (e com razão) comparou o ambiente com o de um Metro (em hora de ponta, presume-se). E a falta de respeito foi tanta que Pedro Gonçaves, a certo ponto, desliga o contrabaixo da corrente, aproxima-se de Tó Trips e toca para ele ou para aqueles que, atentamente, se encontravam junto do palco. No fim, a garrafa de água mantinha-se intacta e a garrafa de cerveja mostrava claros sinais de necessidade de substituição.
O intervalo (longo) foi pródigo em situações de registo. Toda a gente sabe que o electroclash chegou em força. O Eric Clapton português dançava com os braços no ar junto a um show lésbico que decorria mesmo à sua frente. O DJ passa X-Wife mesmo antes dos The Rapture mas quase ninguém dá pela diferença. O Eric Clapton, sem dar sinais de domínio de qualquer instrumento que seja, continua a dançar, ou na tentativa de o fazer.

Quando acaba a muito animada mini-festa electroclashiana, surgem em palco Nuno Prata (ex-Ornatos Violeta) na guitarra acústica e Nicolas Tricot (membro dos Red Wing Mosquito Stings) que se senta numa bateria apetrechada com uma série de objectos estranhos à configuração habitual do instrumento, incluindo aquilo que parecia ser o tubo de um exaustor e uma enorme placa de metal. Junto ao bombo, uma pedra oval colocada em cima de uma almofada azul. Ambas encostadas, em parte, ao bombo produziam um efeito que os mais desatentos desconhecem. Mas quando a música começa, também o Eric Clapton português – adivinharam – ergue as mãos ao céu, como que agradecendo a alguma entidade divina. A primeira canção seria “Já é Sábado” que, com a ajuda de ritmos de bossa-nova e jogos de palavras em modo Sérgio Godinho, funcionou como aperitivo para o que se seguia. E seguia-se a viciante “Nada é tão mau”, que os mais atentos conhecerão pois tem passado de quando em vez nas rádios. Nuno Prata, aqui, num cantar falado, deixa sair um sem número de verbos, em catadupa, interrompidos apenas por um assobio típico de quem vai na rua, despreocupado. As semelhanças com as canções dos Ornatos Violeta são, por vezes, evidentes: mesmo no tom de voz, num registo normal, Nuno Prata parece idêntico a Manuel Cruz. A guitarra saltitante do ex-Ornatos, em conjunto com o trabalho fantástico de Nicolas Tricot na bateria, que oscilava entre a delicadeza de uma bossa nova e a brutalidade de uma explosão menos contida, resulta em canções leves e simples que facilmente entram no ouvido mais difícil. Seguiram-se “Não, não sou um fantasma” e “Figuras tristes” que acabou por ter dedicatória, mesmo que não propositada. O Eric Clapton tuga continuava a dança tresloucada, agora sustentada em ritmos de samba (por ele criados). Ainda em “Figuras Tristes”, Nicolas Tricot deu uso a um xilofone eficazmente colocado junto da bateria e um kazzo para, em jeito de romaria popular, animar ainda mais as hostes. Em “Volto para casa a pensar na mesma coisa”, Nicolas toca flauta e põe o bombo e o prato de choques a funcionar em andamento rápido e pleno de sintonia. É, pois, a canção mais distinta das que foi apresentada. A certa altura, Nuno Prata troca a guitarra acústica por um baixo, que toca como se ainda não tivesse deixado o instrumento que manejou na primeira parte do concerto. Repete, num refrão de desejo, "eu queria ser como tu, queria crer como tu, dos meus sonhos acorda outro alguém". Para as duas últimas canções, Pedro Gonçalves volta a subir a palco e com ele vem o seu contrabaixo, com o qual iria acompanhar Nuno e Nico. “Não deixes de querer fugir”, a primeira canção da maqueta lançada pela dupla aparece, por fim, em jeito de despedida. Nuno Prata, tímido, reservado e quase em tom confessional diz-nos: "não deixes de querer fugir, porque saber fugir não é mau". E tinha razão. Não havia necessidade de alguém fugir, até porque se previa mais uma sessão de electroclash, e o Eric estava ansioso por mais.
· 22 Fev 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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