NOS Alive
Passeio Maritimo de Alges
12-14 Out 2018
Ainda que nos últimos anos se tenha tornado “fixe” e da “cena” odiá-lo e falar mal dele nas redes sociais e nas conversas de café desta vida, não conseguimos deixar de olhar com grande carinho e ternura para o NOS Alive. Afinal de contas, é o grande festival da zona de Lisboa, o festival que vimos crescer ao longo dos últimos anos e o evento onde algumas das nossas maiores bebedeiras foram apanhadas, algumas das nossas melhores (e mais embaraçosas) memórias foram criadas, algumas das nossas mais fortes amizades foram forjadas ou cimentadas e, como não podia deixar de ser, alguns dos nossos concertos favoritos tiveram lugar. E é por tudo isso que regressar ao Passeio Marítimo de Algés acaba sempre por ser, certa forma, um regresso a casa. Perdoem-nos o sentimentalismo, mas já tínhamos saudades.

Coisa que, lamentavelmente, nunca poderemos dizer do concerto de Vermú com que fomos brindados à chegada ao recinto. A banda, oriunda de Albacete e vencedora da versão espanhola do concurso EDP Live Bands, trouxe ao (agora chamado) Palco Sagres a sua folk pop melosa e de travo ibérico, numa prestação tão inócua que o único adjectivo minimamente lisonjeiro que lhe conseguimos arranjar foi “competente”. Ainda assim, palmas para eles por terem conseguido animar um pequeno (mas admirável) contingente de fãs seus compatriotas; quanto a nós, confessamos que teríamos ficado mais animados com um ou dois copinhos da bebida a que o grupo foi buscar o nome.

Do lado oposto do espectro da memorabilidade esteve a prestação de Juana Molina, que em cerca de uma hora conseguiu refutar não uma mas duas máximas antigas: a de que velhos são os trapos e de que um bom público faz um bom espectáculo. Surgindo no palco secundário do NOS Alive para enfrentar uma plateia que, convenhamos, na maioria dos casos só ali estava pelo refúgio das altas temperaturas concedido pela sombra da tenda, a argentina de 56 anos em nada se deixou afectar pela relativa (e em muitos casos completa) indiferença com que foi recebida, dando aquele foi o primeiro dos “concertos do caralho para quase ninguém ver” do festival. Para os poucos que sabiam ao que iam, foi um espectáculo a todos os níveis excepcional, com um alinhamento bastante apoiado nas canções de Halo (2017), e onde Molina demonstrou na perfeição o seu jogo de cintura, guinando de forma sublime entre o rock mais efervescente e a pop mais experimental (e digna de abanar a anca). E mesmo não tendo sido o melhor concerto do primeiro dia, podemos sem dúvida dizer que tivemos ali uma bela brisa fresca para nos ajudar a aguentar o fim de uma tarde de Verão particularmente abafada.

E por falar em frescura, como descrever a passagem de Jain pelo Palco Sagres sem recorrer a esse mesmo termo ad nauseum? Naquele que terá sido um dos concertos mais animados do primeiro dia do certame, a francesa provou que não precisa muito para fazer a festa; dêem-lhe um microfone, a sua minúscula mesa de mistura e um bom espectáculo de luzes e ela, com a sua airosa e cativante postura (muito próxima da intersecção dum diagrama de Venn que tenha como conjuntos “diva pop dos alternos”, “professora de ginástica futurista” e “assistente de bordo a dar nos speeds”) faz o resto.

Ainda assim, e apesar de termos vibrado com o infeccioso apelo à dança de temas como “Dynabeat, “Alright” e “Come” (esse singlezão de excelêcncia), depressa nos vimos forçados a sair daquele festim para ver se ainda apanhávamos um pouco da nostalgia que Bryan Ferry espalhava à mesma hora pelo palco principal. Decisão que, em retrospectiva, ainda nos traz algum arrependimento; afinal de contas, à excepção de uma “Slave to Love” particularmente emotiva e de uma prestação acima de tudo profissional, não tirámos dali nada que compensasse o facto de termos perdido a oportunidade de partir chão ao som de “Makeba”.

Na mesma categoria de “gente que deu concertos sobre os quais não há muito para dizer” estão os Wolf Alice, que, apesar enérgica presença de palco de Ellie Rowsell e da pujança do trio de canções com que abriram o alinhamento (a ver, “Your Loves Whore”, “Yuk Foo” e “You’re a Germ”), pouco conseguiram fazer para nos prender no palco secundário. A culpa, no entanto, dificilmente poderá ser apontada aos londrinos; a bem da verdade, os gritantes problemas de som (que “afogaram” quase tudo o que saía dos microfones e das guitarras do grupo), a proximidade do concerto de Nine Inch Nails e a sagrada hora de jantar foram os verdadeiros responsáveis pelo nosso abandono no final da quarta canção do set, “Lisbon”. Se os deuses quiserem, pode ser que tenhamos oportunidade de os apanhar num contexto mais favorável para ambas as partes num futuro não muito distante.

Saciada a fome com a comida para o corpo, só fazia sentido procurarmos um pouco de comida para a alma, coisa que nos foi prontamente servida pelas mãos de Trent Reznor e dos seus Nine Inch Nails. Naquele que foi sem dúvida o concerto mais “pesado” do primeiro dia do festival (e a quantidade de “veteranos” com t-shirts do metal e de mano cornuta erguidas só corroboraram esta nossa linha de pensamento), a trupe decidiu não perder muito tempo a visitar o seu passado recente (passando apenas duas vezes, a meio do alinhamento, pelas canções de um Bad Witch que ainda cheira a novo), preferindo dedicar cerca de metade do show ao negrume e à sujidade de The Downward Spiral (1994) e de outros registos clássicos.

O resultado? Um espectáculo cru e musculado, com um ambiente de se cortar à faca sublinhado pelas imagens a preto e branco que se iam vendo nos ecrãs do palco, e no qual pudemos ver essa formidável fábrica musical que são os NIN a debitar, praticamente sem esforço, alguns dos mais belos sons industriais do século passado. E se é verdade que a intensidade de temas como “Closer” (uma das mais ternas canções de amor de sempre), “Copy of A”, “The Hand that Feeds”, “Head Like a Hole” ou “Hurt” (a fechar de forma perfeita a actuação) nos ia tirando o fôlego, também o é que, para Reznor e companhia, aquela passagem pelo palco principal não foi mais do que uma hora de trabalho.

Ainda atordoados pelo rolo compressor dos NIN, seguimos em direcção ao Palco Sagres, não só para tentar apanhar um pouco do espectáculo dos Friendly Fires, mas também para fugir dos Snow Patrol e, quiçá, descansar um pouco as pernas tendo o concerto de Khalid como música de fundo. E se dos primeiros não há muito para contar, visto que chegámos já na recta final (mas ainda a tempo de apanharmos “Hawaiian Air” e sentirmos raiva por esta banda que não lança nada de substancial desde Pala, lançado há mais de meia década), do norte-americano conseguimos arrancar uma série de apontamentos: a) o fenómeno à volta do artista passa-nos completamente ao lado; b) as canções, não sendo ofensivamente más, também não vão além da típica música de rádio; c) teria sido mais ajuizado pô-lo no palco principal, tendo em conta a enchente e o histerismo palpável que ali se sentia.

Quanto aos Arctic Monkeys, temos que dar a mão à palmatória e dizer que, apesar das nossas baixas expectativas (nascidas de experiências menos boas em 2011 e 2014 e da nossa opinião algo morna em relação a Tranquility Base Hotel & Casino), os britânicos souberam dar show e provar que, de facto, à terceira é mesmo de vez. Com uma abertura que atirou, assim de repente, “Four Out of Five”, “Brianstorm” e “Don't Sit Down 'Cause I've Moved Your Chair”, o grupo mostrou logo à partida as suas intenções: ziguezaguear pelas suas várias encarnações duma maneira que, apesar de errática, conseguiu conjugar de forma satisfatória os seus mais recentes lançamentos com os temas do baú pré-AM que nos transportam de imediato para uma adolescência repleta de borbulhas, hormonas e crises existenciais que, ainda assim, já consegue despertar em nós alguma nostalgia.

Se a isso juntarmos uma prestação que, longe da postura mecânica e algo desinteressada do passado, nos mostrou uma banda capaz de tocar com gosto e empenho, o resultado acaba por ser bastante positivo. E mesmo que, aqui e ali, tenhamos sentido que o grupo esteja perigosamente próximo de se tornar em algo a que facilmente poderíamos chamar de “Alex Turner & the Arctic Monkeys”, a verdade é que a nova persona do frontman, bem próxima de um meio termo entre uma estrela rock de tempos idos e uma má caricatura de um artista residente de um cruzeiro (ou, lá está, dum casino de reputação duvidosa), ajudou a dar cor a um concerto que, bem vistas coisas, esteve muito perto de atingir as quatro estrelas em cinco.

Ainda mais próximo da excelência esteve Sampha, que de tudo fez para nos convencer de que naquele momento o Palco Sagres não era uma tenda, mas sim uma sala fechada e repleta de intimismo. Num concerto pautado pelas simples e vividas cores que iam sendo exibidas enorme ecrã que servia como pano de fundo dos artistas, o britânico e a sua banda puxaram (e de que maneira) pelas emoções patentes nos temas de Process, o que se traduziu numa actuação sentida e capaz de pôr de rastos até os corações mais empedernidos. E depois duma sequência final de luxo, composta por “(No One Knows Me) Like the Piano” e “Blood On Me”, temos de confessar que, mais do que continuar a ver concertos, a nossa vontade era estar naquele momento nas nossas camas, em posição fetal, a chorar copiosamente.

No entanto, não podíamos regressar a casa sem antes passarmos pelo Clubbing para ver o que Sophie tinha para nós. E a verdade é que, para os mais resistentes e apreciadores do lado mais exploratório da música electrónica, a produtora ofereceu uma generosa recompensa. Em formato dj set, a escocesa apresentou-se com uma postura distante e robótica que, apesar de fria, casou na perfeição com os temas ali apresentados (em grande parte retirados de Oil of Every Pearl's Un-Insides, um dos grandes discos deste 2018), numa actuação dividida em duas partes (separadas por uma breve saída de palco) que serviu para mostrar os dois lados de Sophie: a primeira mais dançável e aprazível ao ouvido, e a segunda em modo fritaria levada ao extremo, não aconselhável às sensibilidades mais frágeis mas perfeita para derreter os nossos cérebros e fazer da viagem de comboio que se seguiu uma experiência irrepetível.
· 16 Jul 2018 · 01:00 ·
Jo„o Morais
joao.mvds.morais@outlook.com

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