Vodafone Paredes de Coura
15-18 Ago 2018
Nunca foi pouco com medo de ser inteiro, como o Belarmino que nesta edição acomodou, mas andou longe do brilho e da fartura que outras colheitas trouxeram. O banquete de Dionísio nas margens do Coura foi, este ano, um pouco menos luxuriante. Ao olhar-se o cartaz do Vodafone Paredes de Coura 2018 percebia-se que a fé de um repasto bem regado residia nos semi-deuses canadianos Arcade Fire. Por eles, sobretudo por eles (como a enchente do último dia comprovaria) se fez a profissão de fé dos milhares que se deslocaram à praia fluvial do Taboão. Podemos dizer que a 15 de Agosto se iniciava um festival movido a expectativa, uma expectativa que se prolongaria até 18, altura em que se tiraria a limpo se a razão que comandava toda a emoção seria suficiente para fazer esquecer o 2005 de todas as paixões. O cartaz, repleto de segundas e terceiras linhas, e apesar de actuações mais ou menos conseguidas, nunca se elevou ao Olimpo onde moram os concertos que dilaceram a alma e confirmam a nossa existência. Houve quem ainda tentasse, casos de King Gizzard & The Lizard Wizard, Kevin Morby,The Legendary Tigerman, Jungle, Imarhan e Arcade Fire, mas foi pouco sol numa eira que nos habituou a melhores e mais fartas colheitas. Como a Natureza que lhe serve de pano de fundo, Paredes de Coura, com ou sem Vodafone, reinventar-se-á e medrará novamente. Épica sim, parece ser a infinita capacidade de muitos não se conseguirem calar, cinco minutos vá, enquanto assistem a um concerto. Épicas, também, as filas para a alimentação (apesar da organização ter dotado o recinto de mais áreas de restauração) que deram para que muitas pessoas não vissem concertos. Neste ponto, e sem ninguém nos pedir, deixamos uma pequena proposta: porque não entregar a restauração aos comerciantes de Paredes de Coura e concelhos limítrofes e deixar de fora toda a parafernália de street food cara e mal-amanhada ? Sinais dos tempos poderão responder-nos. Terão a sua razão, mais ou menos argumentável, mas sente-se, em alguns pontos, que o festival se parece cada vez mais com a feira de vaidades de um Primavera ou de um Alive onde, para uma larga fatia, o que menos interessa é a Música. Vai-se porque sim, vai-se porque há uma fotografia para tirar, vai-se para mostrar que se está. Chegar ao Paraíso não é, nem nunca foi, um exercício de conforto. A esse idílio, cremos, falta o cheiro a frango churrasco e o caldo verde nocturno em que se acomodavam tempos menos pretensiosos…e não estamos só a falar de alimentação…

Dia 15 de Agosto

No dia da Senhora da Assunção, feriado religioso que marca a transição de quinzena, uma outra santa é alvo de louvores numa catedral do indie algures no Alto Minho. A 26ª edição do Vodafone Paredes de Coura arranca com algumas novidades estruturais e menu de onde constam Grandftaher’s House, Marlon Williams, Linda Martini, King Gizzard & The Lizard Wizard, The Blaze, Conan Osiris e Nuno Lopes. Tal como um imigrante que parece sempre condenado a chegar tarde onde as raízes o esperam, também nós, a caminho das nossas raízes festivaleiras deixamos que as horas nos ultrapassassem deixando-nos órfãos de alguns dos primeiros concertos do primeiro dia de festival. Foi tarde mas ainda a tempo de vermos os Linda Martini finalmente num horário nocturno. Há muito que reclamavam a noite como algo seu por direito e de direito o mereceram carburando ao ritmo alucinante de quem se tem de manter em exaltação constante para não perecer. Não há “puta da gravidade” que mantenha os pés no chão quando se solta um “Amor Combate”, um “Unicórnio de Sta. Engrácia”, um “Panteão” e muito menos, agora já em levitação extrema, a canção que é deles mas que também pertence de algum modo ao altar de Coura: “Cem Metros Sereia”. A uma só voz, sem embargo a não ser aquele que enovela a alma para falar do desaparecimento de Phil Mendrix.

A torrente eléctrica que que invadiu a encosta prosseguiu em boa jarda com os “guiness book of records” King Gizzard & The Lizard Wizard. Cinco álbuns num só ano não é para todos, assim como não é para todos cavalgar com tal eficiência uma série de géneros de pé a fundo e fé na grades que sustêm um público com gosto pelo abismo australiano. Dois anos depois de implodir Paredes de Coura com Nonagon Infinity voltaram mais concretos e indefenidos como uma bela equipa de demolição em estado de psicopatia deve ser. Ora se rebenta ali com “Murder of the Universe”, ora se rebenta acolá com “Robot Knife” e “Gamma Knife”. Rock, psicadelismo e uma gama infinita de outras paisagens sonoras que, envoltos numa bola de ferro destruidora, unem Ocidente e Oriente em Flying Microtonal Banana como nunca a ONU chegou a sonhar ser possível. Tal como uma bomba atómica, os sete australianos pegam numa quantidade relativamente pequena de matéria (instrumentos) para gerarem uma torrente imparável de energia (música) que se multiplica aniquilando qualquer resquício de sanidade à sua passagem.

De Mad Max passamos para um passeio no parque com gin na mão, que é como quem diz The Blaze. Jonathan e Guillaume Auric, primos na vida e irmãos na carreira, o duo francês trouxe calmantes em forma de house lavadinha e ambient que evitou enfartes do miocárdio em quem vinha com as pulsações a mil do outback australiano. Demasiada contemplação para tais horas da noite. Quem está mais à vontade nas nocturnas horas é o português fetiche do momento Conan Osiris. Qual animal transumante, este aprendiz de António Variações pastoreia-se por universos tão díspares como o synth pop e o malhão na sua túnica de Star Wars. Fruto de uma época em que se procura criar algo novo à força toda com o maior fogo-de-artifício e excentricidade possíveis, Conan “o rapaz do futuro” é mestre pasteleiro nesta confeitaria chamada 2018, ainda que, na boca de um anónimo conhecido que por lá andava, este homem seja descrito como “a música portuguesa a ir ao cu a ela própria”. Uma gráfica imagem que nos fecha a noite e nos envia para paragens mais silenciosas.

Dia 16 de Agosto

Um calor tenro, lasso, tecido quase de propósito para que a jinga se apoderasse dos corpos, atacou em toda a sua sensualidade o segundo dia do festival. As entradas foram servidas ao som dos californianos de nascimento e nova-iorquinos de adopção The Mistery Lights. Dentro da mesma linha do que nos foi servida no ano passado com os Moon Duo, a banda de psych-garage nascida pela mão de Mike Brandon e Luís “L.A.” Solano trouxe aquele cálido arremedo de L.A. Women e indian summer que embala os corpos e entorpece as mentes. Apesar das reminiscências de um passado recente, não nos lembramos de melhores sonoridades para fazer a ponte entre o final de tarde e um início de noite que entraria de rompante com a genica dos britânicos Shame que, sem qualquer tipo de pudor, ameaçaram pegar fogo ao anfiteatro natural de Coura. Com apenas um álbum na algibeira, Sonsg of Praise, e algumas músicas novas que o palco viria a testar, a banda liderada por um menos anafado e bem mais diplomático Boris Johnson sob o alias de Charlie Steen entrou a toda a brita com “Dust on Trial” a ameaçar um anti-Brexit que se viria a concretizar a espaços. Entre apelos de calma dirigidos à linha da frente de um público que entrevia a hipótese de dar asas à imaginação de um crowdsurfing, Steen lá foi largando fúria, e t-shirt, durante os primeiros temas do alinhamento. Foi sol de pouca dura. A intensidade baixou, Steen foi-se retraindo (apesar do pedido formulado para que os fãs se aproximassem) e a resposta ao Brexit anunciado foi-se perdendo por entre os vales do Alto Minho. Podem não voltar tão cedo, como ameaçava o carente frontmen mas que existe potencial para que, em anos vindouros, os Shame possam partir Coura ao meio, isso é inegável. Esta a impressão de um concerto que prometeu mas que, não desiludindo, se ficou apenas pela carta de intenções.

Fosse Paulo Furtado primeiro-ministro de Inglaterra e a União Europeia ficaria a ver indemnizações por um canudo. Se da parte dos Shame houve intenção, The Legendary Tigerman passou das palavras aos actos. Se a sós lutava contra a garrafa de wishkey, o nosso puro tigre de branco vestido, agora em versão bando (Paulo Segadães –bateria; João Cabrita – saxofone; e Filipe Rocha - baixo), continua a fazer gato-sapato das convenções e riu-se de quem faz vida a anunciar a morte do rock. “Alguém está a precisar de rock and roll aí?”, com estas palavras Furtado entregou os coveiros ao redentor enviando-lhes a alma para o “Black Hole” do último Misfit (2018). Electricidade, desafio e tensão que se materializaram em temas como “Fixo f Rock n´Roll”, Light Me Up Twice”, “Motorcycle Boy” ou o regresso ao ventre com a intemporal “Naked Blues” mas que também marcou a atitude efervescente deste tigre enquanto, ironizava, sob os progressos da humanidade que, apesar de fantásticos, ainda não conseguiram fazer com que os seus microfones se aguentassem do princípio ao fim de um concerto. Se o microfone deu de si ainda a noite gatinhava, o que dizer dos dentes e do saxofone de Cabrita a quem um duelo com a guitarra de Furtado parecia ser desafio grande demais de ultrapassar? Foi-o, sem espinhas e com uma pujança só ao alcance dos predestinados para esta arte. Se o sax se aguentou a guitarra ainda tinha muito para dar. Como resposta ao feedback, Furtado fê-la gemer à inventiva de um “vou vos mostrar como é que se faz um feedback!”. Ganiu a bem ganir durante uns bons dois minutos sem saber que as mãos sedentas de rock de um público exultante a iriam ter em mãos, mas não sem que antes se dela desprendessem os acordes de “These Boots Are Made For Walking” (cover de Nancy Sinatra). Pináculo da exaltação, sai guitarra disparada para a multidão seguida do tigre despido de “cria” e roupa quando a quilométrica “21st Century Rock n’ Roll” (20 minutos que fecharam a actuação) se começou a ouvir. “Amor e Rock n’ Roll” gritava um apaixonado Furtado enquanto a sua guitarra vagabundeava no mar de gente que não tardaria em ter, também, um tigre nos seus braços. “Venha a guitarra, já!!!”, assim regressaram, autoritários, Furtado e guitarra ao habitat natural do palco deixando votados à solidão quem, instantes antes, a um e outro teve nos braços. Apesar do tesouro fugidio, The Legendary Tigerman teve Coura no regaço e Coura no regaço o teve mostrando que o “envelhecer juntos” prometidos em 2015 se vai confirmando. “Vocês são o mais bonito público do mundo, obrigado!”, atira Furtado ao mesmo tempo que quase juramos ter ouvido esse bonito público lhe responder na mesma moeda.

Desligada a tomada, arrumada a guitarra errante, eis que novos predadores assaltam a reserva natural da Música. Nos restos da carnificina, um bando de raposas tenta encontrar o alimento que lhes permita saírem vivas do palco principal de Coura. Apenas um problema, estas raposas não são bem aquilo a que se possa chamar de animal noctívago. A country-folk fofinha dos Fleet Foxes serviria apenas o embalo se a outras horas fosse servida. Foi um terno concerto, bem servido é certo, mas sem a chama que o horário impunha. Perderam eles, perdemos nós, perderam todos. A harmonia de “White Winter Hymnal” ou “Blue Ridge Mountain” criaram beleza e bem-estar mas esbarraram num muro de pessoas, que sentindo-a, pareciam mais ansiosas em ouvir o que a soul/funk dos britânicos Jungle lhes tinha a dizer, quase como alguém apaixonado pela pessoa errada atira ternuras ao oblívio. Tivemos os animais, cada um com as suas idiossincrasias, faltava-nos a selva da soul servida por Josh Lloyd-Watson e Tom McFarland com cheirinho à desaparecida mas nunca esquecida Aretha Franklin. Exercício de sedução conduzido ao som do homónimo Jungle (2014) e do vindouro For Ever (Setembro de 2018), a coquetterie começou com o single “Platoon” que tornou lassos os duros corpos de quem se tinha estoicamente aguentado em pé durante Fleet Foxes. Se a vida sem música seria um erro, como reflectia Nietzsche, sem dança tornar-se-ia um Inferno. Transportados para uma cálida noite de Verão num suadouro que cedo se tornou exaltado, o público rendeu-se aos poderes xamânicos de uma groove saída de décadas anteriores mas que sabe, com a certeza de um Oráculo de Delfos, como encantar o mais empedernido dos corpos. O que é doce nunca amargou… “não conseguíamos imaginar um sítio mais bonito que este, com pessoas tão bonitas, para dançar esta noite”, atiram os mentores do projecto Jungle enquanto as duas vozes femininas compunham os falsetes do chorrilho de singles como “Happy Man”,”House in LA”, “Heavy California” ou o escaldante “The Heat”. Aretha Franklin estava, por certo, orgulhosa do que se ia passando naquela encosta ondulante e mais orgulhosa ficou quando, com toda a alma que um corpo pode comportar, os Jungle desataram o nó com a homenagem “Lemonade Lake” e atentaram á imortalidade secular com “Busy Earnin” e “Time”, duas magníficas obras de arte que lançaram a banda para o estrelato há quatro anos e que, desta feita, encerraram as quase duas horas de fama (merecida) que por Paredes de Coura conquistaram. E foi ainda com o diabo no corpo que o público se encontrou cara a cara com a indie-pop extravagante dos australianos Confidence Man que nos pôs a reflectir sobre o porquê de minutos antes, uma banda nos ter posto a dançar cantando e outra dançando (sobretudo) nos fazer querer dar corda aos sapatos…dali para fora! Para espectáculo de cheerleaders não esteve mal mas para concerto a coisa deixou muito a desejar.

Dia 17 de Agosto

Ainda com o techno de Young Marco a ribombar nos nossos ouvidos levantamo-nos para um dia de canícula que encerrava em si mais dúvidas do que certezas. Seria Skepta capaz de se aguentar o seu hip-hop nas canetas longe dos guetos de Londres? Seriam os Slowdive nocturnos banda suficiente para não nos adormecer antes de tempo? E o que esperar das Pussy Riot longe dos campos de batalha do Kremlin? Abrindo caminho por unicórnios de borracha e fauna análoga, chegamos aos campos de petróleo argelinos. Bom, não propriamente. No espaço que a dita civilização ocidental armada com as suas geringonças maltrapilhas tenta ocupar à força de subornos mais ou menos explícitos há um povo que resiste. À semelhança de 2017, ano em que os coreanos Jambinai nos vieram dar um ar do seu post-rock em flor de cerejeira, a organização trouxe-nos uma delicatessen de rock dito tuaregue proveniente da Argélia sob o nome de Imarhan (aquele que cuida de mim, em português). Sem tempestades de areia mas com muita eficiência, a banda liderada pelo “Jimi Hendrix tuaregue” aka Iyad Moussa Ben Abderahmane cuidou de todos aqueles que tiraram algum do seu tempo para ver e ouvir um rock do deserto carregado de influências jazz e blues. Esta tempestade de areia deu corpo a dois álbuns (Imarhan e Temet), álbuns-manifestos antropológicos onde a preservação do modo ancestral de vida tuaregue alberga uma visão mais ampla de solidariedade entre povos do deserto que vivem ameaçados por um fundamentalismo islâmico que lhes amputa sonhos. Não somos tuaregues mas sentimos o abraço deste oásis vindo do deserto. Venham quando quiserem, a porta está aberta.

Ao deixarmos um excelente concerto para trás encontramos uma das melhores actuações de todo o festival. O obreiro? O homem que se mandou para as montanhas do Big Sur, Califórnia, e de lá saiu a saber tocar piano e com um fantástico Singing Saw (2016) na algibeira. Kevin Morby, 30 anos, muito mais vivo do que morto e um amor incomensurável pelo nosso país e, em particular, pela cidade do Porto (não levou a camisola do F.C.Porto que anunciou no Intagram) foi o que de melhor passou pelo anfiteatro natural de Coura. Ladeado por Meg Duffy, Cyrus Gengras e um novo baterista, Morby foi, simultaneamente, a voz segura que tranquiliza espíritos assombrados e a mão que arranca o náufrago das garras do monstro oceânico e, tudo isso, apenas com as suas canções de homem triste à procura de uma felicidade que se entrevê mas que não se agarra. É um paradoxo, mas um paradoxo do qual damos vivas por existir. Como? De que modo poderiam ter nascido “Harlem River” ou “City Music”, singles que emprestam, respectivamente, nome ao primeiro e último álbum da discografia de Morby? Sem empréstimos ou artifícios espalhafatosos mas com muito sentir será a resposta. Na critica a Singing Saw comparamo-lo a Zaratustra. Um homem que percorre um caminho feito de largas e profundas reflexões sobre as convicções do “eu” e do mundo onde se insere, um mundo repleto de baixezas de espírito e futilidades várias que culminam com um profeta que o não quer ser no topo da montanha onde o vento corta e o ar rareia. É, porém, nesse mundo lunar que a mensagem adquire clarividência e deixa a descoberto a aurora da Humanidade. Daqui brota a tristeza que nos alegra da extraordinária “I’ve Been to the Mountain” ou a “Dorothy” de todas as paixões que nasceu num bar do Porto enquanto Morby observava o ritual nocturno dos pescadores de ocasião. Kevin Morby cantou em Coura as nossas inquietudes e a vastidão da nossa alma elevando-se e elevando-nos ao que de melhor este festival pode ser.

Das viagens ao centro do Ser de Morby passamos às trips mais famosas dos DIIV e do seu mentor “Kurt Cobain wannabe” Zachary Cole Smith. Se recuperado está da adição a Sky Ferreira, leia-se heroína, não se notou muito. O homem que imaginou o projecto (nascido DIVE em homenagem a uma música dos Nirvana) num quarto sem acesso à Internet pareceu-se muito com essa mesma ligação inexistente dos primórdios. Visivelmente debilitado e um tanto ou quanto monocórdico, Smith esforçou-se por procurar uma ligação com o público que o observava paciente enquanto o tempo passava e as paragens para afinação da guitarra se tornavam uma constante. Por isso, ou também por isso, a coisa teimava em não sair do bloco de partida. Música, paragem, música, paragem assim se passaram longos minutos até que o cardápio de shoegaze/post-punk proveniente dos álbuns Oshin (2012) e Is the Is Are (2016) finalmente desaguasse sem interferências de maior. Entre os temas que corriam relaxados num leito de imagens mais ou menos desengonçadas e “tumblerianas” onde o que parece interessar é a forma e não o conteúdo, destaque para a sequência que libertou “Follow”-“Dopamine”-Under the Sun” e “Doused”, esta última rebaptizada de Vodafone numa clara alusão ao facto deste tema ter sido utilizado num spot publicitário da MEO. Nesta maré vaza de entusiasmo, ainda sobrou tempo para a confissão de nervosismo de Smith perante tal plateia (nunca tinha tocado para tanta gente, afirmou), louvores a Slowdive que viriam a seguir e a estreia de um tema novo que, para primeiro ensaio, não correu mal. Tal como um mergulho em águas profundas, depois de os ouvir, ficamos com a certeza de que, neste momento, os DIIV estão…apenas estão. Olvido ou redenção, só o tempo o dirá.

Quem esteve e parece querer ficar são os regressados Slowdive. A banda de Rachell Goswell e Neil Halstead, reunida em 2014 após 19 anos de hiato, trouxe até ao festival courense a subtileza e a magia que nos fez recordar a bela viagem dos sentidos proporcionada pelos Mogwai sete anos antes. Diferentes no género, mas em tudo similares no sentido de deixarem a música falar por si, os Slowdive percorreram, em dez temas, os seus quatro álbuns de estúdio com as honras de abertura a caberem a “Slomo”, primeiro tema do mais recente Slowdive (2017). “Catch the Breeze”, “Crazy for You”, “When the Sun Hits” e o final com a cover a “Golden Hair” de Syd Barrett fecharam uma hora de guitarras encantatórias e vozes angélicas que fizeram, quase juramos, as estrelas brilharem mais intensamente no firmamento. Bem-vindos à Herdade da Casa Branca! Não foi, mas bem que passava por tal.

Depois do embalo de Slowdive chegou o momento “MEO Sudoeste” de Paredes de Coura com Skepta. Temido por muitos e ansiado por outros, a presença de uma figura do hip-hop em horário nobre causou foi alimento de difícil digestão para todos aqueles que entendem que Skepta no cartaz e em tal momento do alinhamento diário é uma clara e inaceitável cedência aos interesses comerciais do momento. Para outros, como em tudo na vida existe um outro lado, a presença do hip-hop foi uma bênção. Senhor das ruas londrinas e bad boy por divina graça, nada o preparou, porém, para o cenário de guerra aberta que encontrou em Coura. No dito “Couraíso” voaram copos de plástico, voaram lâmpadas promocionais, voaram, até, sapatilhas até ao palco onde Skepta e o DJ Maximum ordenavam que se saltasse (normalmente a coisa deve ser espontânea mas o que é que nós sabemos?) causando o caos e a destruição. A tragédia, o horror, uma destruição sem precedentes acometeu uma vila até então tranquila. Trancas nas portas, janelas fechadas extemporaneamente e o cheiro a chulé no ar que nauseava os incautos. Bem, talvez tenhamos exagerado um pouquinho mas o que aconteceu é inaceitável. Na verdade, o lançamento de tão contundentes objectos fez com que Skepta abandonasse o palco (depois de já ter pedido que tais lançamentos cessassem) e obrigasse a que a organização viesse avisar que “ou param de atirar coisas ou o concerto não pode prosseguir”. O aviso surtiu efeito e o homem lá prosseguiu com tentativas de fazer as pazes com o público, o que não deixa de ser estranho uma vez que quem atirou os ditos objectos foram fãs do rapper… Vá se lá perceber o universo. Bling, bling esquecemo-nos da música. Na verdade, na verdade é melhor continuar esquecida.

À aridez musical e hipocrisia lírica de Skepta seguia-se um momento que muitos esperavam ser de guerrilha, musical entenda-se. Batendo Navalny aos pontos em termos de visibilidade pública no que à oposição ao nepotista regime de Putin diz respeito (a coisa andará ela por ela em termos de detenções), as Pussy Riot lideradas por uma Nadezhda Tolokonnikova em greve de fome encontraram um palco secundário a rebentar de curiosidade pelas costuras. Tudo começou com uma voz computorizada a elencar 25 pontos críticos na administração política russa que se iam vislumbrando numa tela colocada no fundo do palco. Findo o extenso rosário de extorsões, negociatas obscuras, ganância, abuso de poder e corrupção, o palco ficou livre para a incursão das encapuzadas activistas russas (Nadezhda e o Dj de serviço mostraram a cara). Tudo preparado para punk rock guerrilheiro, era o que muitos iam confessando esperar da actuação, quando começa uma espécie de hard-techno arraçado de Vengaboys com Aqua que deu cabo de todo e qualquer manifesto político que pudesse surgir. Casos como os da jovem Anna Pavlikova, presa por ter criticado o regime de Putin num McDonalds, ou o do cineasta ucraniano Oleg Sentsov, condenado a 20 anos de prisão sob acusação de conspiração terrorista aquando da anexação da Crimeia pela Rússia, foram atiradas para canto pela estridência e esquizofrenia cacofónica da música produzida. A luta continuará, sem qualquer dúvida, mas esta música não a serve convenientemente. Mensagem e som não batem certo, são dissonantes em toda a sua natureza, tão dissonantes que cremos que qualquer elemento do público estaria ao lado das Pusst Riot num qualquer comício mas não se atreveria a ouvi-las em concerto uma vez mais.

Dia 18 de Agosto

Há palavras que se calam no fundo de nós, palavras que se guardam pequeninas a um canto para que, ganhando força na escuridão, cresçam e se metamorfoseiem numa vaga imparável de vida quando atiradas, finalmente, ao vento. Em Paredes de Coura 2018, existiam duas que se uniam em nome próprio: Arcade Fire. Um desejo que impeliu os corpos ao longo de quatro dias e que finalmente encontrava o Paraíso onde se entregar à luxúria. É amor, antigo mas nunca esquecido, e foi com amor que o lusco-fusco da edição 2018 se foi cozendo com a soul de Myles Sanko. A espaços perguntava se havia amor por estas paragens, havia, claro que havia como que pode perceber com a aterragem de “Just Being Me”, “My Inspiration”, “High on You” ou das orelhudas “Move on up” de Curtis Mayfield e “Forever Dreaming”, nos corações de uma plateia rendida ao groove do britânico de origem ganesa. Se o objectivo era enternecer a audiência que se ia acumulando na encosta, a missão começava a querer afirmar-se como ganha com o soul de há minutos a vir juntar-se ao r&b/rock de Curtis Harding que agora assomava ao palco. Apesar de tudo, como amor casmurro, ainda demorou. Menos jingona do que a soul de Sanko, a sonoridade trazida pelo músico do Michigan, fruto dos álbuns Soul Power e Face Your Fear, só numa recta final recheada com “Keep on Shinning” e o tema bandeira “Need Your Love” descolou de uma certa modorra em que ia caindo. Cantou-se “I need your love” e o amor voltou.

Entre Harding e os Dead Combo, que serviriam de passadeira vermelha aos Arcade Fire, interpuseram-se os concertos de Silva (com quem o Bodyspace gravou uma belíssima “12 de Maio” em Espinho), Big Thief e Yasmine Hamdan, actuações que não pudemos apreciar porquanto íamos tentando sobreviver ao mar de gente esfomeada que, então, inundava o recinto. A hora da fome, poderíamos dizê-lo sem muito nos enganarmos. Fome no corpo (a restauração e as suas filas intermináveis) e fome no espírito (a hora do reencontro com os Arcade Fire aproximava-se inexoravelmente). Mais ou menos mitigada a primeira, a segunda começava a mostrar as garras da impaciência quando as guitarras de Pedro Gonçalves e Tó Trips começaram a preparar o repasto. Com Odeon Hotel (mais recente álbum de originais dos Dead Combo) nos ecrãs e nas palhetas, os Dead Combo nascidos dupla mas multiplicados por três com a adição de Gui e Gonçalo Prazeres (sopros), António Quintino (contrabaixo) e do cinquentenário aniversariante Alexandre Frazão (bateria) foram lavrando as searas da nossa alma com temas do novo disco e hinos de outros tempo como “Lisboa Mulata”, “Lusitânia Playboys”, “A Bunch of Meninos” ou a pungente e bela “Cuba 1970”. Tal como a nostalgia dessa Cuba perdida na década de todos os sonhos e de todas as lutas, em palco entrou um homem que tem na voz a dor de um passado que se materializa em saudade. Espesso, negro assim é Mark Lanegan e o instrumento que utiliza para “transformar qualquer canção num clássico instantâneo” como escrevia há alguns anos um cronista brasileiro. Convidado de honra do concerto e do último trabalho dos Dead Combo, Lanegan subiu ao palco para dar voz a três temas onde estava incluída “I Know, I Alone” (com o seu poema de Fernando Pessoa pelo meio) dando razão á ideia de que, como almas gémeas separadas á nascença que Odeon Hotel uniu, Dead Combo e Mark Lanegan formam uma massa sólida de bom gosto e mestria que merecia um pouco mais de atenção de quem os ouvia.

Quem os ouvia, porém, já se encontrava a meia hora de distância no Futuro dentro de um carro alado que ia onde os mais terráqueos automóveis não vão: Arcade Fire. Dez minutos depois do previsto, eis que a palavra, calada fundo durante quatro dias, encontrou as bocas que lhe dariam liberdade. Eles, os canadianos ansiados desde aquele final de tarde nos idos de 2005, voltavam ao ventre da materna Coura. “Este foi um dos primeiros palcos europeus que pisámos e, após o concerto que demos aqui, ficámos entusiasmados com aquilo que poderíamos viver pela Europa. Obrigada Portugal!”, estava dado o mote. Com “Everything Now/Tudo Agora” como cabeçalho neón, a banda de Win Butler e Régine Chassagne entra em palco para um concerto que começa com o tema que dá nome ao álbum que mais dividiu os fãs de Arcade Fire desde o seu nascimento: “Everything Now”. Experiência social, gesto activista contra a imediatez da contemporaneidade ou simples ato falhado musical? Everything Now é um pouco de tudo isso e, neste concerto, deixou pistas interessantes que valerão apena analisar mais à frente. Deixando-o para trás, o ato dominical madrugador entrava em Funeral com “Neighborhood #3 (Power Out)" e “Rebellion (Lies)” tendo em “No Cars Go” de Neon Bible a força segura de um fio de Ariadne que unia, em comunhão solene, público sedento e banda maná dos céus. Ninguém verteu lágrimas como em Benjamin Clementine no ano anterior, tanto o que nos foi dado observar, mas a emoção/comoção profundas davam para cortar à faca como para cortar à faca dava a saudade que a banda sentia pelo desaparecimento de Aretha Franklin. Homenagem pensada, homenagem realizada, a conversa entre estes amantes que há muito não se viam continuou com mais duas incursões em Everything Now que desaguaram numa nunca gravada em estúdio “Cars and Telephones” (2001) e numa “Intervention” transformada em arma de arremesso a Trump. Com The Suburbs e Reflektor ainda sobrantes na estante, os Arcade Fire não foram de modas e lançaram-se ao primeiro com a faixa-título, “Ready to Start” (cantada quase em uníssono por uma plateia que já superou muito desgosto amoroso ao som do tema) e “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)” e, ao segundo, com “Reflektor” e “Aferlife”, tema que o mar de suor Win Butler fez intercalar com trechos da enorme “Temptation” dos New Order e “All My Friends” dos LCD Soundsystem. Ânsias e fomes quase saciadas, os Arcade Fire arrumaram com “Creature Comfort” de EN e desapareceram por breves momentos. A fazer fé nas mais recentes setlists dos Arcade Fire, a seguir entraria a continuação de “Everything Now”. Assim foi mas com o cabeçalho luminoso a pedir (ordenar?,) qual Big Brother saído de 1984, que as lanternas dos telemóveis se ligassem. A ordem foi acatada pela maioria. Lembremo-nos que Everything Now é uma critica ao imediatismo, à ditadura do ecrã, à mais ignóbil forma de indigência: a aceitação acrítica de tudo o que um mundo consumista e artificial nos quer impingir. Poucos devem ter percebido aquele pedido no ecrã… Percebido para que serve Everything Now (se musicalmente deixa muito a desejar quando em comparação com a restante discografia), os Arcade Fire atentaram à memória e à saudade de quem ainda se lembra de 2005 resgatando a “Wake Up” (até parece de propósito levando em conta o que se passou na música anterior) que abriu o concerto de há treze anos e atribuindo-lhe o ponto quase final de um concerto que ainda navegou por Lou Reed e “Walk on the Wild Side”, tema que fechou uma trindade que vai mais além do que uma simples análise desatenta fazem crer. A fechar a contenda de 2018 ainda se deu pela presença dos Ermo, cujo concerto atropelou o som dos Arcade Fire nas últimas músicas, e dos italianos Ninos du Brasil, pálida imagem do que a cultura musical brasileira tem para oferecer com a electrónica histriónica a atropelar qualquer bateria de samba que pretendam plasmar.

Com estas e outras histórias se deu por encerrada a 26ª edição do Vodafone Paredes de Coura. Sem superações ou concertos de que possamos dizer que foram épicos, o festival deste ano fica pautado por uma certa modorra que atravessou os festivaleiros e que em muito se deve, entre outras razões, a um cartaz que não entusiasmou, à experiência falhada do hip-hop e por um Godot de quem se esperava salvador mas que foi “apenas” muito bom. Melhores dias virão, outros cartazes, a grandeza de Coura uma vez mais resgatada. A vida é feita destes altos e baixos. Em 2017, Badbadnotgood, B. Clementine e King Krule ficaram para a história, em 2018 nem da passagem dos Arcade Fire se escreverá, no Futuro, grande história. A maior, aquela que avança e nos devolve a esperança voltará a ser escrita pela 27ª vez nos dias 14, 15, 16 e 17 de Agosto de 2019.
· 06 Set 2018 · 12:48 ·
Fernando Gonçalves
f.guimaraesgoncalves@gmail.com

Parceiros