The Jesus & Mary Chain
Coliseu dos Recreios, Lisboa
28- Mai 2018
Longe vão os tempos em que ir a um concerto dos irmãos Reid e companhia tinha o mesmo apelo que uma ida ao circo para ver um domador de leões e em que comprar um bilhete para ver os The Jesus & Mary Chain não era, por si só, garantia de que os iríamos ver a actuar, de que sairíamos de lá ilesos ou de que não veríamos os manos a chegar a vias de facto. A idade trouxe-lhes, tudo indica, alguma sensatez e permitiu uma reaproximação, e mesmo que em palco não se consigam vislumbrar grandes amizades entre Jim e Will, a verdade é que tudo aponta para a durabilidade deste pacto de não agressão entre os dois.

Pacto esse que, a julgar pelos decibéis debitados pelos amplificadores, não se estendeu aos ouvidos da plateia, que durante cerca de hora e meia se limitarem a ser alvo de um ligeiro bombardeamento de feedback, distorção e paredes de som. E dizemos “ligeiro” porque sabemos que apanhámos os J&MC já numa fase calminha (lá está, a idade não perdoa) e que nenhum fã da velha guarda (que compareceu no Coliseu em peso) nos perdoaria se não fizéssemos a ressalva de que antigamente a violência sónica teria sido muito pior.

Ainda assim, apesar da “fase calminha”, Jim e Will Reid (e restante trupe) sabem bem o que andam a fazer e souberam mostrar o porquê de ainda ser pertinente ver os The Jesus & Mary Chain ao vivo em 2018. A setlist, em pouco divergente daquilo que o grupo tem mostrado por esse mundo fora, conseguiu ser uma mistura bem conseguida do material recente (vindo de Damage and Joy, disco de 2017 que, não sendo transcendente, em nada envergonha o legado dos escoceses) com o extenso catálogo que deu ao grupo o estatuto de banda de topo do noise pop e do rock alternativo saído das ilhas britânicas nos anos 80.

Mas por mais bem conseguida que tenha sido a mistura, não nos deixemos iludir: ninguém rumou ao 96 da Rua das Portas de Santo Antão para ouvir “Amputation” (canção que, ainda assim, abriu as hostilidades de forma mais que competente) nem nenhuma das outras canções do sétimo registo da banda. A prova disso esteve na reacção algo morna da plateia (onde encontrámos mesmo um pouco de tudo, como a já referida “velha guarda”, jovens impressionáveis atraídos pelas belezas ocultas do barulhinho bom e até mesmo petizes como o que adormeceu, para espanto do vocalista, na fila da frente) às cinco passagens pelo novo disco, num enorme contraste com a efusividade com que incursões pelos clássicos foram recebidas.

E que belas incursões: “April Skies”, “Head On” e “Blues From a Gun” todas juntinhas na recta inicial só mesmo para garantir a conquista dos nossos corações logo à partida; “Far Gone and Out” e “Snakedriver” ali pelo meio para nos fazer sentir o perigo do arame farpado tornado canção made in East Kilbride; “Cherry Came Too” para nos adoçar a boca com o lado mais açucarado dos J&MC; “Some Candy Talking” a ameaçar fazer o mesmo para depois nos surpreender com uma secção final digna de um texto dedicado exclusivamente a ela (com um crescendo apoteótico de distorção e ruído que nos fez sentir como se tivessem posto os nossos ouvidos numa misturadora com a velocidade no 11); e, para rematar o corpo principal do alinhamento, o negrume depressivo de “Darklands” e o caos iconoclasta de “Reverence”.

Guardada para o encore ficou, obviamente, a jóia da coroa: “Just Like Honey”, tocada em conjunto com Bernadette Denning, trazendo consigo uma onda de arrepios que varreu o Coliseu e, pelo menos para o autor destes parágrafos, uma lágrima ao canto do olho nascida das memórias daquela que foi, é e para sempre será uma das mais belas (e trágicas) cenas da história do cinema (para os que não estão a perceber a referência, aqui fica uma hiperligação para a cena em questão; cliquem aqui por vossa própria conta e risco).

Seguiram-se “Cracking Up”, “In a Hole”, “War on Peace” e, para a despedida, “I Hate Rock ‘n’ Roll”, irónica escolha para o final de um concerto que foi, acima de tudo, uma ode aquilo que um show de rock deve ser: curto e grosso, praticamente despojado de aparatos cénicos, sem conversas de chacha nem interacções para além das necessárias, com as canções a seguirem-se umas às outras quase sem interrupções e com uma presença de palco a trilhar de forma perfeita aquela fina linha entre a indiferença e a concentração no laborioso ofício de nos fazer vibrar os tímpanos com os temas que marcaram as nossas vidas de melómanos. Em suma, foi uma noite de rock sem merdas, daquelas que deixam a música falar mais alto. E isso, no caso dos The Jesus & Mary Chain, é coisa para gerar um barulho ensurdecedor.
· 15 Jun 2018 · 01:14 ·
Jo„o Morais
joao.mvds.morais@outlook.com

Parceiros