Angel Olsen
Teatro da Trindade
14- Mai 2018
Não é de agora o amor do público português por Angel Olsen. Começou há algum tempo, aquando do lançamento de My Woman, álbum com uma notável sensibilidade rock e pelo menos um single daqueles gigantes: "Shut Up Kiss Me". Mas talvez tenha começado ainda mais cedo, quando Burn Your Fire For No Witness nos mostrava uma folkie amarga, a tocar canções eléctricas junto a uma lareira definhando. Ou, até, no início da década, quando se juntou a Bonnie "Prince" Billy para gravar três álbuns. Na verdade, pouco importa como começou esse amor. Importa que ele existe e que bate tão forte como da primeira vez que a escutámos.

Na magnífica e acolhedora sala do Teatro da Trindade, a norte-americana deu o segundo de dois concertos há muito esgotados e patrocinados pela ZdB em registo puramente solo, isto é: sem banda. Há quem diga que Olsen é melhor quando acompanhada, porque lhe permite atirar-se, sem reservas, para esse lado mais sujo e agressivo das suas canções. Mas, mesmo sem colaboradores ao lado, essas mesmas canções continuam a ser algo de temível, como o comprovou "Since You Broke My Heart", logo a abrir e após um simples "olá!".

Num concerto em que mostrou «material novo, material antigo e material que não sei o que é», Angel Olsen permitiu-nos a todos uma fuga rumo ao lado mais aconchegante da tristeza - e ele existe, e ela não tem que ser depressão. Pode ser uma tristeza benevolente, uma que limpa. Pode ser os versos de "Unfucktheworld": I quit my dreamin' the moment that I found you / I started dancin' just to be around you, que são lamentos, mas ao mesmo tempo lembranças felizes de romances outros.

Entre canções sobre bebedeiras (algo que havia de experimentar depois do concerto, avisou), temas retirados ao primeiro EP ("If It's Alive, It Will") e o final, assombroso (com a chama de um "White Fire" a aquecer-nos durante quase dez minutos), Angel Olsen mostrou a simpatia e alegria do costume, ao mesmo tempo que cantava temas de amor sem género - não há pronomes identificativos, logo, poderemos adaptá-los a quem quisermos. Talvez resida aí o seu maior feito e o motivo para tantos a apreciarem. Mas, fora os versos e as canções, está uma artista sem medo de se abrir ao mundo, dona de uma voz notável e mestre na conjugação da folk mais confessional com a energia do rock. Que ela cumpra aos fãs portugueses a promessa que deixou: «para a próxima dou sete concertos» de seguida.
· 29 Mai 2018 · 23:13 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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