Swans
Lisboa Ao Vivo
9- Out 2017
É sempre difícil dizer adeus. Especialmente quando o alvo da nossa despedida já se viu obrigado a partir no passado, para fazer a revolução noutras partes do mundo - ou, simplesmente, para se auto-descobrir, para crescer, para renascer com um fulgor que anteriormente não detinha. Quase vinte anos após a sua primeira morte, os Swans, liderados pelo eternamente carismático Michael Gira, colocaram um novo ponto final na sua história. Ou quase.

É que esta não era tanto a despedida dos Swans como a despedida de todos aqueles que, nesta década e após o algo inesperado regresso com My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky (2010), ajudaram Michael Gira a inspirar, uma vez mais, o pânico generalizado pela menção do nome Swans. É a despedida de Norman Westberg, de Christoph Hahn, de Phil Puleo, de Christopher Pravdica, de Paul Wallfisch. Não é a despedida de Gira, que já anunciou que os Swans continuarão - com outros actores, com outras roupagens, com outras formas de fazer desabar o mundo, seja através do som ou da palavra.

Ao vivo, os Swans fazem-no recorrendo a ambos. Há uma muralha que desaba sobre os presentes, esmagando-os e asfixiando-os, inquebrável e imutável; um riff simples ecoa de forma hipnótica, aumentando progressivamente de peso, antes do vocalista-orador anunciar a chegada do fogo e do enxofre, do dragão e da prostituta. Há que recorrer à Bíblia porque não há banda no mundo que a consiga transformar, e aos seus versículos, em música tão bem quanto os Swans. Deus é inspiração, mas sem a bondade que muitos lhe atribuem: o Deus de Gira é vingativo e psicótico e ensurdecedor e não deseja menos que o nosso genocídio. E, no entanto, cremos nele.

Ao longo de duas horas e meia de concerto, aquilo a que se assistiu no Lisboa Ao Vivo, sala que beneficiaria de uma rede de transportes, de uma cerveja não-cara e de melhor organização na altura de sair para fumar, não divergiu em muito do que já havíamos presenciado meses antes, no NOS Primavera Sound. O alinhamento, aliás, foi o mesmo, com duas canções inéditas, "The Knot" e "The Man Who Refused To Be Unhappy", esta última dotada de uma garbosa motorika, e três retiradas aos dois álbuns anteriores, "Screen Shot" (To Be Kind, 2014) e "Cloud Of Unknowing" e "The Glowing Man" (The Glowing Man, 2016).

No final, para além dos ouvidos a zumbir, ficou apenas a catarse e a ideia de que todos os que ali estiveram presentes predispuseram-se a ser castigados por um crime que não sabem bem se cometeram. Mas pouco importa. Encarar os Swans de frente não é possível sem uma dose mínima de sado-masoquismo. O mesmo que impele alguém a dizer "adeus" de sorriso na cara sabendo que posteriormente chegará a saudade. Os Swans estão mortos. Uma vez mais. Mas voltarão. E, nessa altura, não haverá expiação que chegue para os nossos pecados.
· 24 Out 2017 · 23:50 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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