Vodafone Paredes de Coura
Paredes de Coura
16-19 Set 2017
Parabéns a BadBadNotGood, Benjamin Clementine, Lightning Bolt, King Krule, Ho99o9 e At The Drive In pelos pedaços de eternidade que entregaram nos ouvidos e almas de todos quantos se apresentaram nas margens do Taboão Nesta Data Querida em que o Vodafone Paredes de Coura celebrava, com as (muitas) Felicidades, os seus vinte cinco anos e se lançava para Muitos mais de Vida. Tudo começou na quarta-feira dia 16 de Agosto com os “aniversariantes” (Mutantes S.21 a também celebrar 25 anos) de Mão Morta a espetarem a todo o vapor com Budapeste no Alto Minho abrindo caminho para um “alfa pendular ” de alto débito pela máquina de spoken word pontuado por trip pop e hip hop rude da britânica Kate Tempest fechar a primeira noite de festival.

Hoje, 17 de Agosto, é dia de festa no anfiteatro natural de PdC. À languidez de um jazz na relva regado a banhos, barcos (cada vez mais; o estreito do Bósforo tem aqui concorrência de peso),poesia e um rapaz de Guimarães que é Capitão mas não tem navio, seguiu-se a primeira leva de História que o festival deste ano nos legou. Na pauta afirmava-se Nick Murphy e At the Drive In como as figuras máximas. Os segundos foram-no, o primeiro nem por isso. Antes porém, enquanto ainda se cortava a cebola do refogado do arroz com tudo num campismo “ardente”, os Nothing davam um ar da sua graça no palco Vodafone FM. O nome da banda não poderia definir melhor o que se passou… Custa ouvir um vocalista desafinado, três é dose. No que sobrou da actuação a memória pouco alcança e os Nothing ainda menos. Foi preciso descansar e o palco principal poderia ser o local ideal. No seu dorso, o do palco, levitavam quatro moços chamados Car Seat Headrest. Lo-fi limpinho como só ele sabe ser, embalado pelo álbum Teens Of Style a anteceder, sem grande excitação, o momento de subir a ladeira para jantar (rápido numa zona de restauração pequena e pouco variada), café, cigarro e King Krule. Temos uma espécie de “mineiro britânico” saído de uma greve contra Thatcher em cima do palco. Guitarra amarrada ao peito da mesma forma que ao peito se amarra a liberdade enquanto se canta pedaços de vida dura e destroços de amor. Como o trabalhador que é o verdadeiro rei da vida, este ruivo e franzino britânico (Archy Ivan Marshall de seu nome), que não presta vassalagem a sua majestade, construiu uma actuação de encher o “bandulho musical” e deixar todos a chorar por mais assente numa vasta e lúdica cornucópia de géneros, que do jazz (aquelesaxofone…) ao funk passando pelo pop-rock que lhe serve de base se atirou ao Olimpo e por lá ficou da primeira à última música. “A Lizzard State” (6 Feet Beneath the Moon, 2013) ou “Buffed Sky” (A New Place 2 Drown, 2015) foram porta-estandarte das suas “reivindicações”. Estava encontrado o concerto do festival e um daqueles que ficará para a História de PdC, mas ficaríamos por aqui?

Os HO99O9 não pareciam muito convencidos com esta potencial conclusão. A ferro, fogo, hip-hop e punk-hardcore rebentaram com o palco secundário enquanto se digeria a actuação gourmet de Krule. De fazer corar os mais fervorosos adeptos do “catenaccio”, o trio de ataque atirou-se ao “futebol total” com a vontade de quem quer ser campeão do mundo o mais rapidamente possível. Sem descanso e sem misericórdia (excepto umas quantas transições regadas a dubstep), os “quitados” HO99O9 deixaram no “chão” os milhares que enchiam o recinto. A tática marcava Death Bodies in the Lake (mixtape de 2015) e United States of HO99O9 (2017) com TheOGM e Eaddy (frontmens) a atormentar a defensiva contrária (isto é, o público) e o que se assistiu durante 50 minutos foi massacre total. Descarga gore que virou tudo e todos ao contrário. Charles Manson não o faria melhor e a “laranja mecânica” de 78’ muito menos. Blood everywhere…

Se estes hip-hoppers quitados a nitroglicerina rebentaram tudo, foram os regressados das cinzas At The Drive-In em jeito de um “pulp fictioniano” Harvey Keitel que limparam a coisa com barba e cabelo sem piedade. Mais uma banda directamente de Coura para o Olimpo. Macacão azul, mais gordinho mas com uma propensão inata para ser frontman Cedric Cedric Bixler-Zavala pôs, dispôs mas não lhe sobrou tempo. “Soterrado” por um amplificador de baixo, eléctrico como nem cem centrais hidroeléctricas o são capazes de ser, Bixler fez, ao longo de todo a actuação, corar de vergonha os mais experientes acrobatas do Cirque du Soleil no que ao domínio do microfone em todas as suas vertentes diz respeito, enorme. Separados em 2001, regressados em 2011 para nova separação em 2012 e um novo retorno aos palcos como banda em 2015, os At The Drive-In espalharam na redescoberta de álbuns tão marcantes como In/Casino/Out (1998) ou Relationship of Command (2000) sem esquecer o disco que marca o seu segundo regresso, in-ter-a-li-a (2017), a potente capacidade vocal de Bixler a que se junta o virtuosismo do guitarrista Omar Rodriguez fizeram de temas como “One Armed Scissor”, “Arcarsenal” ou “Napoleon Solo” o recreio desta guerrilha do rock lutando entre as sombras do capitalismo pop (Nick Murphy viria a seguir). Perto do fim, uma frase…”lembrem-se que só podemos continuar a fazer isto se nos amarmos e aceitarmos uns aos outros", atirou o tufão texano Bixler…

A 23 de Junho de 1988 nascia em Melbourne, Austrália, um rapaz a quem os pais deram o nome de Nicholas James Murphy. Por este nome o chamou a mãe para vir para a mesa, por este nome o pai lhe deu os “parabéns” por mais um aniversário. Tudo isto e o que mais houver para contar até que lhe cresceu a barba e o gosto pela Música e Murphy foi bugiar para paragens onde Chet Faker lhe pareceu assentar melhor. Foi estrondoso sucesso com Ep’s como Thinking Textures (2012), Lockjaw (2013) ou o longa-duração Built on Glass (2014). Daqui surgiram canções intemporais com “No Diggity” à cabeça ou as “courenses” “Talk Is Cheap", "1998" e "Gold", temas que abrilhantaram um concerto regado a pacatez e expectativa (nunca concretizada) de uma actuação de sonho. “Clean” como parece ser tudo hoje em dia (asséptico até ao vomito), o artista enterrou Faker numa valeta e entregou-se à autenticidade do nome que os pais lhe deram, Nick Murphy. E foi Murphy com um pé na discografia em Faker que se apresentou no anfiteatro de Coura. Pop fofinha abrilhantada por um r&b que não compromete com rasgos de pertinência experimental electrónica aqui e ali, este concerto mais não foi que isso: bonitinho mas sem faísca. A despedida fez-se com “Stop Me (Stop You)”, single retirado ao primeiro trabalho como Nick Murphy, Missing Link (2017), EP que carrega no nome a “estranheza” nesta nova relação com o público. Música confortável a que parece faltar algo, cantou bem mas não alegrou. Actuação tão competente quanto insípida. Dia longo, cerveja curta, a carteira a pedir descanso mas com tempo para um vislumbre de world music pelas mãos dos sul-coreanos Jambinai. “Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera” foi filme em 2003 pela mão de Kim Ki-Duk, em 2017 com os Jambinai ao leme ganhou uma nova banda sonora. Uma bela viagem aos sentidos para terminar uma noite de frenesi.

Dia 18 de Agosto

Nasce o dia e com ele a canícula que o marcará. Quente, quente, quente como não o foi o concerto dos Young Fathers. Meio tudo, hip-hop e r&b que mais não serviram de ponto de passagem para Moon Duo. O psicadelismo é bom e recomenda-se. Estávamos em Paredes de Coura mas bem podia ser uma qualquer floresta de coníferas à entrada de São Francisco no final da década de 60’. Este jeito de “viajar” sem sair do lugar transportados pela nave de garage-rock /space-rock da dupla composta pelo barbudo “Saruman” Erik Johnson e pela bela Sanae Yamada isso nos proporcionaram entre um jantar apressado e a bomba sonora que se lhes seguiu. É fácil viajar no som desta dupla lunar. Sentimos, não raras vezes, que Tamada e baterista de backup estavam ali para servir e fazer brilhar Johnson. Aliás, foi assim todoo concerto. Sendo de duas faces, esta “Lua” apenas parece ter uma, efeito que dá acentua a ideia de que parece despropositado existir mais alguém para além de Erik Johnson na banda. Apesar desta consideração, somada a de um festivaleiro que, embalado pelo psych-rock dos californianos ou não, perguntava a “parentes” de ocasião de já tinham ido a “banhos turcos”, os Moon Duo embalaram o espírito para uma luz ao fundo do túnel chamada BadBadNotGood.

Cantam as nossas almas em surdina enquanto o corpo vagueia pelo caleidoscópico som dos canadianos BBNG. Quando entrevemos autenticidade é difícil à alma não se deixar emocionar. Alexander Sowinski (baterista e porta-voz do quarteto) deu o mote. As palavras saiam-lhe soltas, leves, tão leves e soltas quanto o que se assistiu durante uma hora de concerto. Nem Charlotte Day Wilson, nem Sam Herring ou Colin Stetson emprestaram a voz a este momento transformado monumento ao virtuosismo e bom gosto dos quatro rapazes de Toronto. Entrevia-se na voz que Sowinski estava feliz de ali estar. Percebeu-se que nada havia a tratar que não pudesse esperar pelo fim do concerto e o público percebeu. De corpo e alma. Tudo no mesmo sítio à mesma hora. A banda certa, ainda que não evidente, no palco certo com o público certo. Foram hip-hop de bom gosto, electrónicos quando e como se pedia, deambularam pelo jazz de nascimento e pelo rock de adopção do momento com a delicadeza e grandeza de quem não ansiando por um lugar na História o conquista com a naturalidade de quem nasceu para a fazer. Foi História o que fizeram e para a História ficaram como uma dos melhores concertos que Coura já viu em 25 anos de festival. Se a música, que levou as mais de 20 mil almas que se perfilavam na encosta à mais profunda comoção, não chegasse, o que dizer do bailado improvisado a meio de um dos temas entre Sowinski e o saxofonista, belo ternurento. Espontâneo dizemos nós porque se não o foi em muito se assemelhou. “This is so beautiful. Are we gonna float?", perguntava Sowinski, se não aconteceu podemos jurar que, por momentos, foi isso que se passou. Se a genialidade não tivesse bastado, eis-nos agora no final não desejado. Para tudo e o “porta-voz” do bem-estar geral pede para que todos se baixem. O público obedece. Com o bombo a marcar o tempo e tarola a registar o aumento da cadência, a mole humana vai-se levantando a compasso certo até à explosão de energia final consagrada em salto e mosh (linhas da frente) como dificilmente um concerto de jazz alguma vez vira. Os corpos flutuaram, os quatro em palco flutuaram, Coura flutuou e a História nasceu. Venham, quantas vezes quiserem, mas venham o mais depressa possível. A partir deste dia os BadBadNotGood são, também nossos.

Quem por cá já andou este ano e repetiu a dose no Vodafone Paredes de Coura foram os dois Japandroids. Ingrata tarefa a dois destes jovens, armados de guitarra e bateria, a de suceder aos seus conterrâneos BBNG. Tão ingrata foi que ingrata foi a tarefa de os ouvir novamente. Não porque sejam maus, não o são de todo, mas porque no final da segunda música já sabemos o que nos espera até ao final do concerto (pior quando o alinhamento e até mesmo as frases são exactamente as mesmas que utilizaram no concerto de Junho no NOS Primavera Sound). Near to the Wild Heart of Life, álbum editado em Janeiro deste ano, e o single “North East South West”, videoclip gravado no Porto (já o tinham dito no Primavera) foram o mote para muito mosh nas filas da frente e pouco mais do quem bocejo nas de trás. Noise/garage rock quase de trazer por casa e sem grande (boa) imprevisibilidade, competentes e tão só competentes. Competência que os Beach House não souberam ou não quiseram ter. Meia-hora (trinta e cinco minutos se quisermos ser exactos) inexplicável de atraso e um concerto nas sombras, mas que ainda assim não fizeram a debandada da maior parte do público presente, foram um mote para um concerto que se percebeu que podia ter sido mágico não fosse a “ausência” a que Victoria Legrand e Alex Scally (plus baterista) se votaram em palco. Nem toda a teatralidade e pertença etereadade tirada a “Um sonho de uma noite de Verão”, nem "Silver Soul", "Take Care" ou “Walk in the Park”, nem a fidelíssima crença no duo que os milhares que se aguentaram anfiteatro abaixo conseguiram criar a magia pretendida. Foram sempre pouco com medo de ser por inteiro e não deixaram marca, talvez fruto da sua grandeza que os levou aquele palco aquela hora, ser-nos-á difícil saber.

O que sabemos é quer Roosevelt quer os Red Axes acabaram por fazer cumprir o que restava da noite em grande estilo. Se a libidinosa ideia techno-synth pop do primeiro (projecto do alemão Marius Lauber) assente no seu primeiro LP a solo (Roosevelt, 2016)criou o ambiente perfeito para um after-hours positivamente atormentado, os segundos fizeram da futura cama um lugar oscilante onde o pé ainda batia quando amanheceu em Coura.

Dia 19 de Agosto

Manhã de um dia quente, quente como prometia e cumpriu ser o palco principal do Vodafone Paredes de Coura, infernal (como já dava para perceber pelo sound-check matinal) como palco secundário ocupado por um raio que os partiu a todos havia de ser.

Tocam os sinos na torre da igreja, não havia rosmaninho nem alecrim (não, não era alecrim…) pelo chão, nesta pequena grande aldeia que os deuses da música protegem vai começar a procissão…. O primeiro andor dá pelo nome de Cruz, Manel. Homem sem grandes ornatos, trono nu e febre na voz. Assim apareceu Manel Cruz à multidão que sempre o soube acarinhar e a quem, ele, sempre soube agradecer sem desafeto ou paternalismo. Assim ele foi, com a sua equipa “de serviço” dar uma “extensão” daquilo em que ele é mesmo bom a ser, ele próprio. Desta “Borboleta” ao novo “Ainda Não Acabei” (que marca o regresso com o projecto Extensão de Serviço em que se faz rodear da formação que o acompanhou em Estação de Serviço: Nico Tricot na guitarra, Eduardo Silva no baixo, António Serginho na bateria), Manel ora apoiado no banjo ora nas guitarras acústica e eléctrica deixou que lhe chamassem maluco (“Aldeia do Maluco”, por esta e por outras Manel Cruz se apresenta como um dos mais atentos e prolíficos letristas nacionais, esta merece um Nobel) perdeu a “Missa” e reinventou a tarde (“A Invenção da Tarde”). Pôr Cavaco ansiando por um elefante, cantar os parabéns a PdC em fast-forword lembrando que “o festival tem mais anos de vida que o seu patrocinador” e que “Deus não sabe nada” porque a “verdade é uma cadela” não é para qualquer um. Manel não é qualquer um e esta nova vida, a que pontuou por momentos Foge Foge Bandido, serão dignos de livro de Saramago ou Cardoso Pires, são o Nobel imaterial de um povo que, afinal, ainda sabe sorrir.

Sorrir e vociferar merda a toda a velocidade parece ser o modus operandi do vocalista e prima donna Sam France, dono e senhor do microfone nos Foxygen. Dificuldades geográficas à parte (afinal de contas, Portugal é pequeno e o Porto sempre aqui ao pé), o duo France-Rado que se mostrou á frente de uma big band de nove elementos destilou uma actuação difícil de definir. Se o burlesco e a sátira fazem parte do papel que France, sempre ele, parece encarnar em palco para desenrolar um repertório onde cabem os tiques rock n’ rol de Jagger e uma parafernália de sons a transportar-nos para umas décadas atrás (“Follow the Leader" e "Avalon á cabeça) não é menos verdade que a pele que veste lhe parece assentar “bem demais”, quase verdadeira diríamos…”vamos falar de que como eu sou fantástico?”, afirma por entre mudas de roupa à lá diva. Não, não vamos até porque não és. Aparte bons toques no seu álbum supra-sumo We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, o concerto foi pouco mais do que limpinho sem sombra de saudade, tão limpinho como o cérebro de France ou como a cena musical onde se insere parece pretender ser. Estética para inglês e pouco sumo que se beba uma vez espremidas as laranjas. Esta ideia fica presente quando o frontman que quer ser de tudo um pouco simultaneamente, e que acaba por não ser coisíssima nenhuma, se cala e deixa a banda, que com acopla em palco, toma as rédeas da coisa. Assim foi na última música da actuação, “No Destruction”, um malhão que valeu por quase todos os restantes temas da setlist (aparte “Rise Up”).

Cantam as nossas almas (repetimo-lo porque o que a seguir virá o mereceu em toda a linha, a Ésquilo faltariam as palavras que à Música de Clementine nunca faltou) em uníssono com Benjamin Clementine, razão (não única, cremos) para no dia 19 de Agosto todos os bilhetes terem esgotado (27800, novo recorde em Coura). Se isto dos bilhetes é material, matéria mortal e contingente, aquilo a que se assistiu naquele início de noite foi divino, intemporal, um concerto fora do tempo e do espaço. Um deus de Ébano desceu do Olimpo (mais acompanhado depois deste festival) e com ele trouxe um coro clássico para contar as venturas e desventuras de uma Humanidade à procura dela própria no meio do caos e da desunião. Apesar disto, este deus de pés descalços estava feliz. Sorria, acenava e não se cansava de o referir. Ao piano como a mais bela e autêntica tragédia merece ser contada, Clementine deixou muitos a chorar, a outros arrepiou como dificilmente essas pessoas se deixam arrepiar, a todos (perdoem-nos as generalizações) tocou como nos toca o primeiro vislumbre de um grande amor, o nascimento de um filho ou a morte de um ente querido. Foi absoluto como a vida, vida atormentada que carrega na voz desde o subterrâneo metro que o viu cantar na cidade das luzes que “enterrou” no subsolo e ironicamente lhe medrou a semente do sucesso. Voz celestial, altivez no porte, candura no trato. Coura apaixonou-se vezes sem conta enquanto aquele deus de Ébano desfolhava At Least for Now e o EP Cornerstone. Com os ataques em Barcelona presentes como nunca, Clementine fez da audiência coro e desse coro a arma contra o medo. Luzes apagadas, olhos fechados, o Homem em palco fez silêncio dos Homens na plateia. Silêncio (por momentos somos transportados para o Club Silencio de Mulholland Drive)! Só brisa, só paz. Nesse silêncio Clementine e o público cozinham o refrão de “Condolence”, condolências que após a deixa deixam a voz subterrânea de cada ser para irromperem clamorosas e unificadas ao vento, às trevas, ao medo… “I'm sending my condolence/I'm sending my condolence to fear/I'm sending my condolence/I'm sending my condolence to insecurities”… Antes do final deste manifesto de Humanidade, tempo ainda para a bela “I Won’t Complain” (novo vendaval de sorrisos e unidade vocal), para o brutal “Phantom of Alepoville”, primeiro single do novo e experimental álbum I Tell a Fly (Outubro de 2017) e para um “Adios” que no término nos acordou deste sonho lindo em que a “Cornerstone” não foi avistada e ninguém reclamou tal o momento que se acabava de viver…lembra-me um sonho lindo que foi real…

Tão real e divinal como Thor revisitado pela bateria e baixo travestido de guitarra da dupla Lightning Bolt. Se dos livres diretos do lateral-esquerdo Roberto Carlos que embatiam na barra se dizia que passados dias a trave da baliza ainda tremia, a brutalidade do noise rock de Brian Chippendale e Brian Gibson ainda devem ecoar pelo vale do Coura tal o alvoroço que causaram. Máscara retirada ao filme “Massacre no Texas” na cabeça e baquetas que mais pareciam martelos pneumáticos nas mãos, Chippendale metralhou de forma tão clara e certa a bateria e com ela a multidão que juraríamos, se numa batalha estivéssemos, que nenhuma bala se teria perdido. Atingiu tudo e todos (inclusive alguém no público que o Brian baterista se lembrava de ter visto no primeiro concerto da banda em Portugal, Lisboa 2008) com tal precisão que é difícil não nos interrogarmos como é que foi àquele homem não cair para o lado após os primeiros vinte minutos de concerto. Não caiu e ainda bem para bem da nossa insanidade. E o que dizer de Gibson, o dono e senhor de um baixo (que travestia de guitarra com a ajuda dos pedais) a quem dedilhava de dedos nus (sem palheta) com uma velocidade, cadência e claridade que envergonhariam muitos perfeccionistas metaleiros. Foi difícil regressar a Valhalla mas a vitória foi deles. Raios os partam se eles não vos partirem primeiro…

Desta vórtex sonoro e ainda a encontrar as peças de sanidade perdidas algures entre a emoção de Clementine e bestialidade de Lightning Bolt entrevemos Ty Segall entre o pó que já dançava no ar. Sem grandes rendilhados mas com enorme eficiência, Ty Segall descarregou, de um camião que já conta dez reboques na sua história, rock em barda sobre um palco principal ainda a chorar a perda de Clementine. “Feel” (único tema tocado de Manipulator), “Candy Sam” mais o punho do público que se fechou e levantou no seu refrão (exceptuando o crowd surfing, este foi o momento de maior aproximação entre público e banda) e “Girlfriend” que começou com a promessa de que seria a última vez que a tocariam (permitam-nos duvidar neste ponto) foram pontos altos de uma hora bem passada junto da família do rock. O festival aproximava-se do seu “pôr-do-sol”. No público ia-se notando sinais de cansaço mas também muitos outros de ansiedade relacionados com a banda de Yannis Philippakis, os britânicos Foals. Donos e senhores de “Spanish Sahara” que, neste concerto, fizeram encadear com “Red Socks Puggie” e que foram pontuadas por inspiradas projecções vídeo que faziam navegar por mares nunca antes navegados (interiores diga-se), os Foals trouxeram a Coura um manancial ecléctico (entre o dançável e o indie/post rock) que encontrou umpúblico devoto e com vontade de fechar com chave de ouro quatro dias de festival. Sem deixar de parte o mais frenético final de concerto e respectivo encore, o que atirou o concerto para a hora e meia de duração), fazemos finca pé na extraordinária “Heavy Water” (Antidotes), uma torrente de música inteligente para deixar o cérebro a dançar (e a pensar) ao sabor das ondas do mar. Sem a faísca de outros nomes que por Coura passaram (BBNG, Clementine ou Krule à cabeça), os Foals deram aos milhares que os acarinhavam a potência que, a título de exemplo, faltou ao festival do ano passado (terminou com uns insípidos Chvrches), apostando nas incontornáveis e orelhudas “Electric Bloom” (hora de Yannis fazer-se brilhar) e “Inhaler” e já para final de festa enrolados numa bandeira portuguesa (cliché desnecessário) deixando "What Went Down" e "Two Steps, Twice". Com um penetra de serviço e muito surf sobre as cabeças da linha da frente pelo meio lá se fez a festa que não acabou sem que a organização fizesse brindar os presentes com uns “Parabéns” cantados do palco e uma chuva de confetis e bolas ao som de “All My Friends” dos LCD Soundsystem.

Ainda uma última palavra para os Throes+The Shine, a quem coube fechar a festa no palco secundário, e para algo que trouxeram com a sua actuação: os sorrisos das multivivências que co-habitaram em Coura durante quatro (ou mais) dias. Aquilo que foi sendo aflorado durante a quase totalidade dos concertos fica latente, na prática, em Throes+The Shine. Não interessa a origem, etnia ou “tribo social”, a música toca-nos a todos. É bom, não foi?

Para a/o menina/o Vodafone Paredes de Coura, uma enorme salva de palmas
· 06 Set 2017 · 10:56 ·
Fernando Gonçalves
f.guimaraesgoncalves@gmail.com

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