Lisboa Dance Festival
LX Factory, Lisboa
10-11 Mar 2017
É um problema inerente a todos os festivais onde espectáculos se sobrepõem: o que ver? A decisão é ainda mais difícil quando o cartaz apresenta nomes que a nós são desconhecidos, ou quando dois artistas pelo qual nutrimos o mesmo respeito sobem a palcos diferentes, à mesma hora. Posto isto, poderemos fazer uma de duas coisas: picar aqui e ali, sem medos, ou fazer uma pausa na deambulação e aproveitar esse tempo para comer e/ou beber. Ou todas essas coisas. Daí que de Mai Kino tenhamos vislumbrado, apenas, um breve instante no qual interpretou a maravilhosa "Wicked Game", de Chris Isaak, cujo reconhecimento imediato nos deteve, fisicamente, a meio do caminho para a jola.

Seriam os Mount Kimbie a levar-nos ipso facto para o meio da multidão, eles que no Night + Day, em 2013, haviam deixado um sabor amargo de boca (ler: foi uma merda). Aqui, foram desenrolando uma espécie de r&b sobre ruído, sem que se pudesse perceber se era, realmente, essa a ideia ou se a culpa foi do PA. Se ao início a opinião inicial se manteve - são bem melhores em disco do que ao vivo - bastou uma incursão por terrenos mais próximos do krautrock, com a batida metronómica que se exige, para pelo menos captar a nossa atenção. Os Mount Kimbie não são dançáveis per se; mais que abanar o corpo, vão-se apreciando as melodias e o groove da coisa, espécie de sunset contínuo em que mais vale ficar quieto e apreciar o que surge diante dos nossos olhos. Também por isto, ou por sua consequência, foram capazes de nos afagar quase plenamente já perto do final, através de um glorioso momento Cocteau Twins (guitarras esbaforidas, etéreas, e baixo e baterias em linha contínua).

Talvez poucos o esperassem, por força da ausência de Anthony, ou ANOHNI. Mas a verdade é que foi dos Hercules And Love Affair o melhor concerto de todo o festival, eles que se apresentaram em palco com um vocalista travestido e um padre queer (que haveria de ouvir da nossa boca, mais tarde, your show was fucking awesome), e que fizeram da sua hora e meia de concerto um verdadeiro festão. O som? House dos anos 90, só parecendo mesmo ter faltado uma versão da "Show Me Love", de Robin S., para nos transportar até esses agora longínquos tempos de glória pop. "My House" é (foi) o expoente máximo desta ideia retro-Nova Iorque, e "Blind" (que não podia faltar) fechou na perfeição um concerto que foi recebido por um público em constante ebulição. Gigantes, de facto. Não é para todos. Hype é o caraças.

Hunee também fez delirar os muitos que encheram a fábrica, sendo que do outro lado da rua era a Enchufada a partir tudo com tudo o que é som dji gueto: baile funk, kuduro, bass... numa festa suada onde a falta de ar condicionado era o menos. E sala cheia, como que para comprovar o patamar alcançado pela editora nestes últimos dez anos. O fim do festival, esse, ficou nas mãos de George FitzGerald, que mesmo em formato DJ set mostrou porque é um dos grandes nomes da electrónica actual - e mostrou-o tão bem que, no nosso bloquinho, não há uma única nota sobre o gig. Perdoem-nos, estávamos demasiado ocupados a dançar. Era impossível não o fazer, tendo em conta a quantidade de línguas musicais que ele soube falar, tendo em conta a capacidade demonstrada para criar uma atmosfera e, depois, fazê-la rebentar ao som do ritmo 4/4, tendo em conta que em 24 Hour Party People isto é muito melhor explicado: They're applauding the DJ. Not the music, not the musician, not the creator, but the medium. This is it. The birth of rave culture. The beatification of the beat. The dance age...
· 13 Mar 2017 · 23:15 ·
Paulo CecŪlio
pauloandrececilio@gmail.com

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