Vodafone Mexefest
Avenida da Liberdade, Lisboa
25-26 Dez 2016
O Mexefest é, sobretudo, feito de sorte. Existe a sorte de encontrar lugar onde estacionar em Lisboa, por exemplo. A sorte de conseguir entrar numa das salas que albergam os seus espectáculos, orando para que não esteja demasiado cheia. A sorte de não chover e ter de caminhar avenida acima ou abaixo sob as grossas lágrimas do malvado São Pedro. A sorte de encontrar uma das meninas ou meninos a oferecer bolas de berlim ou chocolate quente antes que os brindes acabem...

Mas também há música, como é óbvio. Os sinos começaram a tocar com um set dos Celeste/Mariposa, que julgávamos ser uma banda de afrobeat pronta a partir o terraço do estreado Capitólio mas que, afinal, é apenas uma mostra em formato DJ daquilo que de bom se faz abaixo do paralelo 38º. Por esta hora ainda há pouca gente a acompanhá-los, e entre esses são ainda menos os que se balançam ao som do ritmo.

Concerto propriamente dito foi o de Acid Acid, vulgo Tiago Castro, vulgo "dar tudo!", porque é isso que gritamos sempre que o vemos no meio da rua. Quando Tiago C. toca o mundo parece parar, assomado pelo psicadelismo viajante que emana da sua guitarra, ele que tem disquinho novo - e bom - editado este ano. Novamente, há pouca gente. Mas desta feita ninguém parece ter ficado indiferente à abertura das portas de uma percepção ainda, erm, pouco perceptível a mentes menos sintonizadas. Sai-se do São Jorge e ainda se chega a tempo de apanhar Capicua em palco, enquanto convidada de Mike El Nite e Nerve, merecendo isto o seguinte comentário: "poupem-me".

Jorge Palma foi uma das surpresas anunciadas do certame, tendo-se apresentado em formato acústico perante uma horda de gente que não pôs e provavelmente nunca porá os pés no Mexefest (ou em qualquer outro festival). Apenas meia-hora ou pouco mais de concerto, sendo que a ginjinha ali ao lado parecia infinitamente mais convidativa, e tendo tocado clássicos do cancioneiro nacional como "Encosta-te A Mim", "A Gente Vai Continuar" e "Don't Think Twice, It's All Right", de Bob Dylan, numa homenagem comovente ao novo Nobel da Literatura.

Literatura essa que continuou com Talib Kweli, um "poeta de rua", como lhe chamou Alice Coltrane, mesmo que não se perceba patavina do que ele diz tal é a velocidade com que dispara rimas. Talib Kweli não é de todo o nosso género de hip-hop, mas há que reconhecer o belíssimo espectáculo que deu, resgatando "Eleanor Rigby" aos Beatles (que dedicou aos solteiros ali presentes) e "Is This Love" a Bob Marley (que não dedicou aos casados). A dada altura, pede que se desliguem as luzes, e que se acenda um mar de isqueiros e telemóveis - pedido de imediato correspondido. No final, fica a sensação de que, mais que aplaudir o rapper, o público aplaudia a mestria e escolhas musicais da DJ que o acompanhou. Não deixou de ser um óptimo concerto, que há-de ter deixado bem satisfeita toda a nata do hip-hop nacional, que ali estava presente.

Quando chegamos ao Rossio os Sunflower Bean estão a encarnar o espírito dos saudosos Elastica numa amálgama indie rock com alguma piada, até entrarem por desvarios kraut - algo que tantos fazem hoje em dia, e de forma tão melhor, que já se tornou cliché. Ouvir umas guitarrinhas depois dos beats sabe sempre bem, mas os Sunflower Bean não conseguiram de todo corresponder ao hype que têm vindo a criar ao longo do ano, e que culminou com a NME a considerar Human Ceremony um dos melhores álbuns de 2016. Sim, mas reparem: é a merda da NME. O último lance da noite era dos Jagwar Ma, coisa que só se aguenta durante cinco penosos minutos e já depois de ver Carlão, do qual gostávamos bem mais enquanto Pacman, a recitar um texto erótico "entre Bukowski, Rilke e Luiz Pacheco" e que metia sémen em bocas alheias. Diz que é nutritivo. (Paulo André Cecílio)
· 05 Dez 2016 · 21:49 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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