Panda Bear
Teatro Maria Matos, Lisboa
11- Mar 2015
Panda Bear regressou à "sua" Lisboa com o estatuto de rockstar: concerto esgotadíssimo desde o momento em que foi anunciado, um parolo com um gorro de panda na fila da frente e gente que chegou a pagar vinte euros por um bilhete, o quádruplo daquilo que custava para menores de trinta anos. Exagero, ou culto verdadeiro? É verdade que o seu trabalho além dos Animal Collective sempre deteve um certo estatuto - discos como Person Pitch ou Tomboy hão-de ter salvo a vida a muita gente, que encontrou na sua pop psicadélica, à falta de descrição melhor, um alívio para os problemas diários da vida suburbana. A vontade, ao escutá-los, e de erguer as mãos e correr nu pelo campo.

© Luís Martins

Contudo, Panda Bear Meets The Grim Reaper veio abalar essa estrutura de felicidade. É um álbum mais denso, e mais pesado, tematicamente falando; a morte está presente em larga escala, e o noise súbito que se escuta mal o concerto se inicia, após um breve boa noite, serviu para consciencializar a audiência de que o Panda Bear de hoje é diferente do Panda Bear de 2007 e 2011, além de que há-de ter pregado alguns sustos. O problema de ...Meets The Grim Reaper - um bom disco, atenção - é faltar-lhe aquilo que nos faz gostar dele (e dos Animal Collective): um malhão que se possa entoar a plenos pulmões. Só "Mr Noah" chega aí próximo, mas a faixa, que também deu nome a um EP de antecipação ao novo disco, lançado o ano passado, não tem sido tocada ao vivo.

© Luís Martins

Ainda se vislumbrou um apego pela vida mansa quando a fabulosa "You Can Count On Me" abre o concerto em modo-exaltação divina. Noah Lennox, sozinho em palco, atrás de um computador e sintetizador e iluminado pelos visuais que acompanham a sua música, parece um tipo munido de uma guitarra a tocar para amigos próximos junto de uma fogueira. Esse registo intimista, contudo, foi sol de pouca dura; logo de seguida começa "Boys Latin", e começam também os horríveis strobes que tomaram conta de grande parte do concerto, obrigando-nos a desviar o olhar para baixo - ou para dentro. Quereria ele que víssemos a luz, já que o disco versa a morte?

© Luís Martins

Não saberemos sem lhe perguntar, mas há a certeza, pelo menos, de que Panda Bear, num contexto ao vivo, já teve melhores dias. Munido de uma setlist aborrecida (não seria de esperar outra coisa, contudo: esta noite seria sempre de Grim Reaper) e apostando em cegar todos aqueles que esgotaram o teatro para o ver, o músico não conseguiu empolgar verdadeiramente, como os seus discos o fazem - mais Boyd Rice que Beach Boys, portanto. Ainda assim, a legião de fanáticos aplaude "Tropic Of Cancer", com razão visto tratar-se de uma canção belíssima e visto que aqui se apresentou muito mais sofrida, e esquece a dor de cabeça provocada pelas luzes intermitentes às primeiras notas de "Surfer's Hymn", aqui muito mais acelerada - não era preciso, nós não íamos a lado nenhum.
· 12 Mar 2015 · 15:27 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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