Festival de Músicas do Mundo de Sines
Sines
28-30 Jul 2005

Os friques, a música e o mundo

O 7.º Festival de Músicas do Mundo de Sines possibilitou 3 dias de concertos, conversas, mas toda uma gama de actividades paralelas como exposições. Veio gente de todos os lados de Portugal, para um festival com um cartaz ecléctico e irresistível, que se destaca de todos os outros pelo ambiente ou pelo preço estupidamente baixo. Os concertos decorreram todos no concelho de Sines, de Porto Covo até à cidade mesmo, no Castelo, na Capela e na Avenida da Praia. Só os concertos no Castelo, três por noite (havia cinco concertos ao todo por dia), eram pagos. E eram 5 euros por dia.
O festival difere dos outros festivais de verão não só por ser mais barato, mas também por ser como que a Meca dos friques. “Frique” é a adaptação portuguesa da palavra inglesa “freak”. Os friques são aqueles jovens, ou mesmo velhos, que gostam muito do contacto da natureza, tanto que acabam por ser hidrófobos, ou seja, acabam por ter medo da água. Não temos absolutamente nada contra eles, mas o problema é que muitos deles são donos de djambés e julgam-se virtuosos desse instrumento de percussão. Se aliarmos isso ao provérbio inventado agora: “A tua capacidade de manter um ritmo é directamente proporcional às vezes que tomas banho por semana”, temos um problema. Até porque não são só os cães que andam por todo o festival que aborrecem, é o facto de muitos dos tocadores de djambé acharem, por alma de alguém, que podem tocar ao mesmo tempo que alguém no palco toca. E acabam por estar, quase sempre, fora do tempo, e estragar a música para todos os outros.

Facadas, ciganadas e cegos – o primeiro dia

Os destaques do primeiro foram os óbvios, desde a ciganada festiva da Mostar Sevdah Reunion Band e da Mahala Raï Banda, passando pelo fado-que-não-é-fado de Cristina Branco e por todos os estilos do ecléctico duo cego Amadou & Mariam. No público do Castelo, um homem destacou-se dos demais. Já tinha alguma idade, não muita, trazia um cabelo não muito diferente daquele a que Marco Paulo nos habituou durante o final dos anos 80 e o final dos anos 90, uma <i>T-shirt</i> demasiado curta que dizia “MANGO ADDICT” e dançava, alheio a qualquer tipo de noção do ridículo ou à troça que dele faziam. Era alguém que sentia toda a música, que dançava toda a música, sem qualquer tipo de preconceitos e vergonha.

34 Puñaladas


Os argentinos 34 Puñaladas arrancaram o festival em Porto Covo. O seu concerto, pautado por barulhos exteriores à banda, como badaladas dos sinos da igreja, carrinhos motorizados de crianças ou palmas irritantes dos jovens friques. Quatro guitarras, todas elas iguais, com um vocalista que contava as histórias por detrás das canções, dos tangos. Prostitutas, bailarinos, clubes nocturnos, toda a má vida, eram representados nas canções. Não é um concerto para um contexto ao ar livre, de entrada livre, e os músicos não conseguiram arrancar muitas reacções da plateia, que, morna, ainda acabou por sair mais cedo. Quatro guitarras a tocar quase sempre a mesma coisa nunca conseguem evitar ser aborrecidas.

Cristina Branco + Brigada Victor Jara + Segue-me À Capela

Cristina Branco, cantora habitualmente conotada com o fado, abriu definitiva e oficialmente o festival no Castelo de Sines. Com direito a um longo discurso do presidente da câmara, esta abertura fez-se com o coro feminino Segue-me À Capela e a Brigada Victor Jara. A voz belíssima de Cristina inicia o alinhamento com "Embalo", acompanhada apenas por um piano. A sua banda entra em palco e com, para além do piano, uma guitarra portuguesa, um baixo e uma guitarra clássica, Cristina vai cantando e mostrando os seus dotes vocais. Dá-nos as boas vindas a toda esta viagem. Logo depois chama ao palco o coro feminino Segue-me À Capela, em registo falado de pergunta-resposta. Segue-se a Brigada Victor Jara, que recupera as raízes da música tradicional portuguesa. Falam de como o festival representa a verdadeira globalização e dizem mal dos políticos. Parecem concertos individuais, até que no fim tudo se funde e bem, apesar de um arranque fraco. Os dois últimos temas, “Meu amor é marinheiro” e “Marião”, tiveram direito a um trompetista e aquilo já nem era fado, nem música tradicional portuguesa, era, sim, uma salganhada que acabou por compensar.

Mostar Sevdah Reunion Band + Ljiljana Buttler

Mostar Sevdah Reunion, com a voz de Ljiljana Buttler, fizeram a festa cigana no Festival de Sines. Friques que chegaram a essa condição através dos filmes e da música de Emir Kusturica rejubilaram com o concerto. Um baixista que tocava baixo acústico na vertical (e usava por vezes um slap insuportável, devido tanto à qualidade das cordas como à qualidade do som), duas guitarras, uma rítmica e outra solante (que abusava por vezes dos solos, se bem que competentemente), uma voz masculina (por vezes até duas) e uma feminina, um acordeão, um violino e uma bateria foram os componentes. Ljiljana Buttler é uma cigana muito entroncada, roça-se no violinista e dança orgulhosamente. Os ritmos tornam-se cada e cada vez mais rápidos, por vezes dentro do mesmo tema. O concerto só pecou pelo mau som, especialmente do baixo, e pelas palmas do público.

Amadou & Mariam

O duo cego Amadou & Mariam, uma das sensações da música do mundo deste ano, capa de revistas e afins, trouxe-nos música vinda do Mali que não é necessariamente do Mali. <i>Funk</i>, <i>rock</i>, <i>blues</i>, tudo cabe na guitarra eléctrica de Amadou. Um percussionista, um baterista, a voz de Mariam, um teclista e outro guitarrista acústico. Duas pessoas, unidas pela música e pelo amor (é assim que os vendem), estão em cima do palco. Quais Ray Charles, de óculos de sol, com um bom gosto irrepreensível, fazem o melhor momento do primeiro dia do festival. Em tom festivo, foi o mais próximo que o festival recebeu de um concerto <i>pop-rock</i>. Refrães, canções, tudo com letras cantaroláveis numa língua que não entendemos.

Amadou & Mariam © Cameraman Metálico (CMS)

Mahala Raï Banda

Mahala Raï Banda foi a segunda parte da festa cigana de dia 28. Mas, desta feita, o destaque eram os instrumentos de sopro e o palco não era o Castelo, mas sim a Avenida da Praia. Dois trompetes, uma tuba, um clarinete, um baterista, um percussionista e um vocalista. Toda a gente, sem excepções, dançava. Mahala Raï Banda quer dizer, em romeno, "Banda Nobre do Ghetto". Algo como uma Fanfare Ciocarlia menos criativa, mas não menos divertida.

Luís Rei + Raquel Bulha (DJ set)

Os DJs Luís Rei e Raquel Bulha fecharam a noite numa festa feita de músicas tradicionais de todo o lado, do folk aos blues, do Brasil à Finlândia, do Mali a Portugal.

· 28 Jul 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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