Eternal Tapestry + Pedro Gomes e Gabriel Ferrandini
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
4 Nov 2011
Forçando um bocado a barra pela proximidade temporal com que actuaram na ZDB, seria tentador atribuir aos Eternal Tapestry, com todas as diferenças óbvias de grandiosidade entre eles (<<<<), um elemento paralelo aos Bardo Pond numa versão pós-Y2K. Existe no quinteto de Portland um fascínio para com o psicadelismo que nascido do lamaçal de alguma música mais refundida norte americana (editaram pela Not Not Fun pré-chill, por exemplo), acaba por decantar alguma da sujidade mais inusitada de modo a ir chegando a uma estrutura que torna tudo bem previsível, sem grandes preocupações em fazer disso uma canção.

O que, acto contínuo, lhes assegura uma transversalidade capaz de abarcar tanto aquele gajo que lá vai orientando umas cassetes em distros como a Volcanic Tongue ou a Tomentosa, como alguns potheads nascidos nos 90´s deslumbrados com a oferta dos blogues de partilha depois de terem descoberto que era bem mais fixe ficar em casa a ouvir Spacemen 3 do que ir a festas de Trance. Uma linha pouco estrita patente num público entre a descoberta e o conformismo natural de quem ouviu muito.

Para estes últimos, as linhas de baixo stoner sobre as quais são tecidos emaranhados de guitarras assentes em delay e eco instauram uma confortável sensação de dejá vu que não sendo ofensiva ou exageradamente tépida, não deixou de instalar um certo torpor. A metodologia de uma jam band de bom gosto que não descura do profissionalismo mesmo quando transparece estar a curtir daquilo que vai fazendo, e que sem grandes desvios a um esqueleto alicerçado nesse incomensurável legado que é o krautrock lá vai airando ao longo várias décadas. O saxofone filtrava aquele groove que quer ser free do Fun House, mas já todos sabem que o Steve Mackay é um bocado melindroso. E a competência parece ter rendido para aqueles que estavam lá na frente a abanar a cabeça. Nós é que devemos ser pessoas aborrecidas.

Aborrecimento esse que nunca se instalou durante esta estreia do duo de Pedro Gomes e Gabriel Ferrandini no Aquário, embora a espaços o bicho resvalasse para um certo desnorte. Sendo notório que os músicos caminham para um som cada vez mais personalizado, isso não se traduziu numa música continuamente entusiasmante, com uma articulação algo truncada. Por vezes, Ferrandini pareceu algo pesado no modo como abordava a bateria, a que não ajudava um som de guitarra (lindo, note-se) do Pedro Gomes que, sem grande profundidade harmónica, ia tornando a música do duo num ataque cerrado demasiado percutivo, a lembrar alguma No Wave sem a pose confrontacional nem a displicência (o valor dos músicos incontestável nunca iria permitir deslizes desses). Qualidade óbvia que, nos melhores momentos se transformava em algo verdadeiramente grandioso e essencial, num poder de fogo anímico verdadeiramente magnético, de um holding de virtudes inegáveis em tangentes sucessivas sobre aquilo que poderá (e irá) fazer.
· 16 Nov 2011 · 00:43 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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