PAUS
Lux, Lisboa
27 Out 2011
No início do mês os PAUS anunciavam no seu facebook que já sabiam tocar mais de metade do disco novo. E o Lux seria o local indicado para comprovar o progresso dos últimos ensaios, festejando a aguardada edição do homónimo LP de estreia, sucessor dum EP que agitou águas e cinturas. A longa fila formada antes de as portas da discoteca de Santa Apolónia se abrirem reflectia o entusiasmo hoje existente em redor da banda da “bateria siamesa”, que aos sacos e t-shirts juntou um mikado como original objecto de merchandise.

© João Nunes

Já é normal Hélio Morais e Joaquim Albergaria tocarem frente-a-frente, em jeito de despique rítmico que é o primeiro pilar da banda; hoje Makoto Yagyu e João “Shela” posicionam-se um pouco atrás dos colegas, mas o som que o baixo e os teclados produzem atingem-nos como se estivessem colados a nós. Após uma intro que dá o mote para um set intenso começa a escutar-se uma língua franca, feita de um baixo denso e teclados que serpenteiam entre as baterias, a meio da música reforçadas por palmas a compasso. «Hoje à noite estamos juntos», como nota Albergaria – são os PAUS e muito mais gente que faz Hélio levantar-se e repetir bem alto que “Vamos Para o Que Vier / O Fim É Um Princípio Qualquer”, numa das músicas que mostra que a banda já não se limita aos tais cânticos pós-hooliganistas. Valorizam-se os silêncios e as palavras ganham outro peso. Enquanto se dança o “Malhão” (que contém uma das mais belas declarações de amor ouvidas nos últimos tempos) nota-se que estas músicas estão a ser tocadas ao vivo pela primeira vez – têm potencial para se desenvolverem e voarem ainda mais alto.

Os temas de É Uma Água (“Mudo e Surdo”; “Pelo Pulso”; e “Mete As Mão À Boca”, já em jeito de encore) trazem uma rodagem que lhes permite explodir doutra forma, numa abordagem que transpira fluidez e potência; e quando explodem, o Lux explode com eles, numa comunhão que salta do palco para a plateia, na forma de stage diving ou aproximações a slam dance.

“Deixa-me Ser” faz muita gente levantar os braços e bater palmas, antes de Hélio solicitar que as duas filas da frente não fumem porque ele é asmático e receia não se aguentar até ao fim; logo o parceiro de baquetas comenta: Fumem, mas guardem para vocês; ou então ponham-se em tronco nu. É, pois, semi-despidos que ficamos nos minutos seguintes, intercalando momentos de ritmos circulares com tareias sonoras, retomadas após uma pausa para hidratar o organismo e preparar o espírito para outra viagem incatalogável. Albergaria encaminha-nos por um mantra psicadélico, as teclas soam como sirenes em colapso e a sala assume tonalidades outonais, de um ocre tempestuoso que nos persegue como fantasmas vindos do passado. Se “Ouve Só” mantém os níveis de adrenalina bem altos, com os tambores a convocarem um batalhão de aliados para a batalha com a distorção do baixo e a base elecrónica, “Pelo Pulso” termina a 3000 km/hora, antes de Makoto abrir os braços e percorrer a sala de pé, sobre as cabeças de quem teve o privilégio de partilhar com a banda o fim de um concerto que prenuncia muita paulada nos cornos.
· 29 Out 2011 · 01:52 ·
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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