David Maranha / Peaking Lights
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
24 Mar 2010
Aquário composto em dia de tempo instável, para a celebração daquilo que de mais relevante tem acontecido em terras lusas ao longo das duas últimas décadas e da vitalidade do subterfúgio norte-americano. No fundo, a ZDB a celebrar o presente. Como tem sido sempre.

Em estreia em território nacional, subiram ao palco os norte-americanos Peaking Lights, duo constituído por Indra Dunnis e Aaron Coyes, a irradiarem boa onda e envoltos num crescente burburinho, muito por força do óptimo Imaginary Falcons lançado pela Not Not Fun no ano transacto. Deste, houve espaço para os resquícios cósmicos da doce “Silver Tongues, Soft Whsipers” e para uma insonsa “Wedding Song” incapaz de levar a melodia circense para planos mais elevados. Foi este, de resto, o único problema da actuação do duo nova-iorquino, toda ela regida numa linha condutora demasiado estanque na sua repetição para que se tornasse tão memorável quanto algo como Two Songs For Ceremony faria antever. Exceptuando as faixas já referidas, foi um concerto assente em temas novos, onde se descortinam fortes influências Dub. As batidas mid-tempo a induzirem um fluxo constante ao qual se acoplaram os inevitáveis ecos, teclados estratosféricos em melodias simples, a voz blasé de Dunnis e pedaços de guitarra em circularidade pós-punk (o que faz todo o sentido histórica e me fez pensar no S.T.R.E.E.T.D.A.D. dos Out Hud). Nunca cedendo ao crescendo óbvio, flutuando sobre esse mesmo work-in-progress, onde apenas faltou aquela centelha que da repetição faz hipnose.

Hipnose por via da repetição que transparece em toda a plenitude nesse magnífico corpo de obra de David Maranha (casos mais recentes em Marches of the New World ou na mítica actuação no Out.fest em 2008). Em apresentação ao novíssimo Antartica e fazendo-se acompanhar por um dream team das músicas mais livres em Portugal, que importa referenciar. Maranha, Bernardo Devlin e Ricardo Wanke nos teclados, Afonso Simões na bateria e Manuel Mota numa surpreendente prestação no baixo (alguém disse que se tornou automaticamente o melhor baixista da actualidade, e não andou muito distante da verdade). Ao início a mistura estava estranha, com a secção rítmica a sobrepor-se aos drones de teclado para um sentimento de incompletude. Ao longo da actuação, o colosso foi-se compondo, com Maranha a conduzir as operações para ligeiros devaneios de um activo Wanke e a maior subtileza de Devlin. Alicerçados na batida ritualista/marcial de Simões e numa nota de baixo incessante em pequenas variações de grande impacto corpóreo. Peça longa, rastejava no éter sem nunca se deter em fórmulas, numa transversalidade entre o minimalismo de La Monte Young ou Terry Riley, o peso do metal mais esotérico ou as viagens cósmicas do Kraut, numa singular identidade Maranha que há muito se lhe reconhece. E reverencia com justiça.
· 26 Mar 2010 · 17:33 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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