Stellar Om Source / Mark McGuire / Steve Hauschildt
Galeria ZDB, Lisboa
07 Nov 2009
Se o termo Hypnagogic Pop criada por David Keenan se parece demasiado com uma tentativa forçada para agrupar alguns dos nomes mais sonantes da actual música de teor sonhador/exploratório enquanto resquícios fractais dos anos 80, não deixa de ser verdade que a noite do passado dia sete se fez de uma certa definição de memória presente nesse artigo da Wire. Formalmente inócua e difusa, a definição pode, no entanto, ter uma razão de ser óbvia no modo como os três projectos presentes nessa noite acabam, apesar das suas diferenças, de habitar nesse estado entre o sonho e a realidade que presidiu à criação do termo. Terminologias à parte, o Aquário da ZDB recebeu a visita de três dos nomes mais prementes do aqui e agora que interessa a todos aqueles para quem as visões de Terry Riley podem perfeitamente coabitar com as imagens em VHS de Tremors.

Steve Hauschildt © Carlos Nascimento

Sem recurso à multiplicidade de efeitos características dos seus pares, Steve Hauschildt serviu-se de um sintetizador Prophet 8 para três contemplativas peças. Com alguns pontos de contacto com os resquícios finais de interesse da IDM mais psicadélica e, acto contínuo, com a nostalgia pós-Endless Summer, Hauschildt mergulha nos sons da kösmiche (o calor do teclado de Klaus Schultze) para os consubstanciar em algo menos identificável. Jogando com as potencialidades sincréticas do multifacetado sintetizador, potencializando as suas capacidades até um ponto onde as comparações com as melodias difusas de Ekkehard Ehlers não se esgotam nos seus trâmites formais, para habitarem na estética DIY do noise (sem ruído) de Ohio. Permaneceu a nostalgia, particularmente patente na melodia da segunda maravilhosa faixa, que escorreu para o final em polaroid degradada da infância. A envolvência da memória.

Mark McGuire © Carlos Nascimento

Armado de um arsenal de efeitos, Mark McGuire utilizou a sua guitarra enquanto veículo para a exploração sensorial em duas longas faixas. O primeiro andamento iniciou-se com aquele ritmo típico de quem aprendeu agora mesmo a tocar guitarra, que fez de On Fire um clássico para o dotar de camdas sucessivas que levaram o pôr-do-sol pós-adolescente até o espaço sideral. De pés na terra, sobrepondo camadas sucessivas de melodias submersas em delay. O segundo tema mergulhou mais fundo nos anos 80 da cabeça de David Keenan, com a guitarra de McGuire a emular aquilo que The Edge faria se liberto de uma banda inócua. O quase ritmo a deixar-se invadir por diversas melodias reminiscentes de alguns dos melhores solos dessa década, de encontro a uma melancolia subliminar de quem sonha com um passado nem sempre vivido na sua plenitude. Mais directa, a actuação de Mark McGuire sofreu com o seu próprio MO, demasiado preso a uma estrutura linear em crescendo, que embora se mostre eficaz, falha no factor de risco que permeia alguns dos melhores momentos dos seus pares.

Stellar Om Source © Carlos Nascimento

Enquanto os concertos dos dois Emeralds se pautaram por uma dimensão essencialmente mental/imaginética, Stellar Om Source trouxe para o palco da ZDB um lado mais visceral. Demonstrando um virtuosismo espacial sem com isso resvalar para a esterilidade técnica, Christelle Gualdi, foi manuseando dois teclados com o aprumo de quem se serve da sua formação técnica para a deixar habitar num plano puramente sensorial. Como se Yngwie Malmsteen se deixasse encantar pela harpa de Alice Coltrane em pleno espaço sideral. Uma inspiração guitar hero sem masculinidade hair metal, plena de sensibilidade. Sem nunca enviesar por um crescendo, efectuou voos rasantes constantes sobre o seu work-in-progress naquela que foi a melhor actuação da senhora já presenciada por este escriba. O que a torna, por conseguinte, na melhor actuação de uma noite já por si só plena de fascínio.
· 18 Nov 2009 · 20:52 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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