Sonic Scope #9
Teatro Maria Matos, Lisboa
25 Out 2009
Depois de nove anos de persistência e espaço criado para revelações várias, torna-se difícil ignorar o Festival Sonic Scope no seu desempenho como pulmão curatorial, que estimula a música experimental portuguesa. O critério do festival associado à Grain of Sound (casa de excelentes discos de David Maranha, @c e Terre Thaemlitz) transcende a mera selecção de nomes, e isso confirma-se na tentativa de conjugar diversos nomes em diálogos inéditos. Depois de outros espaços de Lisboa terem recebido o Sonic Scope, foi a vez do Teatro Maria Matos transformar a sua sala principal para receber o evento.

A intensidade da luz diminui e, com pontualidade, os Osso Exótico entram em palco fazendo alinhar o núcleo formado pelos irmãos David e André Maranha, Patrícia Machás e o membro intermitente Manuel Mota. Confirmando a ideia de que é inútil uma bolsa de apostas, que tente adivinhar a direcção do colectivo, os Osso Exótico coabitam o silêncio com a mais reduzida perturbação e o rigor de quem cumpre um ritual que deve deixar escapar apenas as pistas necessárias. E assim ficaram algures entre a lower-case japonesa e a torch song.

Algures entre um torso de uma mulher e os crescendos, que aspiram ao imenso feminino, ficaram, respectivamente, os laptops de Laetitia Morais (que manipulou vídeo ao vivo) e The Beautiful Schizophonic (rapaz enamorado pelo drone). Enquanto ela fazia um torso dar cambalhotas e acendia labaredas na ponta dos dedos (momento especialmente bonito), ele criava um teatro de música eterna como palco para isso. Quando o romance começou a esmorecer, as composições de Laetitia recordaram, da melhor maneira, as Datamatics do grande Ryoji Ikeda.

The Beautiful Schizophonic © Francesca Savoldi

De seguida, os Gala Drop provaram que pode ser bastante aprazível o sound-check prolongado de uma banda que dificilmente mete as mãos aos instrumentos sem aquecer o sangue africano em cada um. E essa é apenas uma das inevitabilidades verificáveis numa banda que ainda não deixou de assinalar progresso, obtido na nova dimensão facilitada pelo sintetizador Korg do integrante tardio Guilherme Gonçalves, tal como na cooperação que transforma os quatro membros da Drop num mesmo xamã capaz de manda vir chuva de ritmos, quando é hora de apagar o fogo no demónio que é Afonso Simões na bateria. Pela amostra deixada no Sonic Scope, podemos começar já a brindar a um segundo disco.

Gala Drop © Francesca Savoldi

Miguel Arsénio



O trio Oto foi criado propositadamente para o Serralves em Festa 2008, mas entretanto já deixou de ser visto como um mero projecto pontual para se transformar num nome a ter em conta na música nacional menos óbvia. O som deste trio não é fácil de catalogar: a matriz é claramente experimental, as ferramentas de trabalho são essencialmente electrónicas e os músicos trabalham uma improvisação assente num contínuo trabalho de comunicação. Ao vivo no Maria Matos os Oto - Pedro Lopes (gira-discos e electrónica), Mush von Namek (guitarra, saxofone e electrónica) e Pedro Sousa (electrónica) – criam uma massa sonora mutante, que se vai definindo nos contornos à medida que os músicos vão dialogando entre si. Com os Oto os instrumentos são tratados de forma atípica, o seu som nunca é natural, é processado electronicamente para depois entrar na amálgama sonora, que funciona como um puzzle críptico. Apesar de nem sempre ter estado ao mesmo nível, a actuação do trio teve momentos de inegável interesse. Vamos ter de dar atenção a estes tipos nos próximos tempos.

Oto © Francesca Savoldi

A actuação dos Scarp - Nuno Moita, João Silva e Nuno Morão explorando electrónicas e objectos - contou com dois convidados especiais: André Gonçalves (sintetizador analógico) e Gabriel Ferrandini (bateria). Sem que os restantes músicos pudessem ripostar, a energia de Ferrandini abafou desde logo os parceiros, assombrados por uma diabólica orgia rítmica. Embarcando num registo “take no prisoners” ao bom estilo do free jazz, o baterista concentrou facilmente a atenção do público. Apesar de alguns detalhes interessantes por parte dos outros elementos (especialmente Gonçalves), a actuação ficou marcada pela intensa criatividade do baterista, que mais para o final foi amansando.

Scarp © Francesca Savoldi

Para o encerramento do Sonic Scope 2009 ficou guardada a Variable Geometry Orchestra, a orquestra “all-star” da improvisação lusa, liderada e “conduzida” pelo violinista Ernesto Rodrigues. Cada vez mais moderada, mais controlada, a orquestra VGO deixou de ser um bicho selvagem para se tornar num animal parcialmente domesticado. Longe vão os tempos em que as actuações consistiam em erupções enérgicas do tipo “vai-acima-vai-abaixo”. Agora a música obedece às regras bem definidas do maestro Rodrigues: Ernesto controla o ritmo, controla a entrada e saída de cada secção, distribui funções por cada músico, esforça-se por manter o equilíbrio possível num grupo que incorpora técnicas e linguagens muito distintas entre si. Se por um lado se perdeu alguma daquela energia inicial, por outro lado passou a ficar em evidência o trabalho de detalhe de cada músico – e a vintena de músicos que actuou no Maria Matos não poupou nos pormenores individuais. Nesta actuação no Sonic Scope a secção das electrónicas (que contou com o convidado internacional Wade Matthews, de passagem por Lisboa) foi vítima de um volume demasiado elevado, mas de resto a música viveu numa saudável contenção. Numa tentativa de encontrar paralelismos poderíamos invocar as formações “Cobra” de Zorn, as conduções de Butch Morris ou o ensemble electro-acústico de Evan Parker, mas esta VGO distingue-se por uma criar uma atmosfera especial. É difícil explicar, talvez só assistindo a uma actuação ao vivo ou ouvindo o triplo-álbum Stills se consiga perceber (ou sentir) a alquimia desta música.

Nuno Catarino
· 27 Out 2009 · 00:59 ·

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