American Music Club
Santiago Alquimista, Lisboa
23 Mai 2005
Na hora da autocomiseração farsola, balão de ensaio de seus afectos, Mark Eitzel é ventríloquo de si, caricatura de si, espasmo sedutor da ridicularização de nós, assistida sempre por uma humildade só percebida depois do esgar ou da gargalhada. Sala arranjadinha em baixo, com algumas (muito poucas) clareiras, a varanda superior do Santiago Alquimista a um terço da sua capacidade. E Eitzel ali, o palhacito, de chapéu à avozinho, roupa casual e ténis.

Sempre no seu tom miserabilista delicioso, pediu desculpas por só tocar canções de amor. Pediu desculpas por ser tão lamechas. Quase se desculpou por existir, mas a isso estamos nós habituados. Nada que não esperássemos da figura-mor dos American Music Club, outra vez nas bocas do mundo, dobrada uma década desde a implosão. Em boa verdade, eles nunca estiveram arredados das esferas opinativas, seja por ordem da grandeza dos trabalhos a solo de Eitzel e pela necessária menção na árvore genealógica, seja porque American Music Club é sinónimo de Mark Eitzel. E toda a gente sabe isso.

Foi com o tema que abre o disco novo, Love Songs for Patriots, que inauguraram a noite num arrastado “Ladies and Gentlemen”, depois “Only Love Can Set You Free” e “Patriot’s Heart”, este sobre um “gay strip club” lá do sítio, palavras de Eitzel. Quando ele se dirige à plateia, conta invariavelmente conversas de bares, reais ou inventadas. Como aquela em que um tipo se lhe dirige, muito entusiástico, e pergunta o que ele faz da vida. Que era bibliotecário, respondeu Mark. Não deve ser muito “fulfilling”, diz o outro, e continua a melgar: “Eu sou DJ, faço psychedelic house.” “Fuck off!” foi a resposta. E isso arrancou uma gargalhada à sala lisboeta.

Mark Eitzel é diferente de muitas das vozes da nova geração. Primeiro porque começou mais cedo. Segundo porque leva anos de experiências, vícios, cristianismo de lapela, uma solidão interior muito grande e uma auto-ironia acutilante, como demonstrou em conversa telefónica há um par de anos. Terceiro porque não faz parte de qualquer vaga de redescoberta do hedonismo patente num gajo e numa guitarra. O que fez foi a pulso e o que fez foi muito. É um old–school crooner, se assim lhe podemos chamar. E pertence à casta geracional de outros dois Marks, Lanegan e Kozelek, que, sendo muito diferentes, caminham na mesma estrada de loucos, sozinhos e avessos ao mundo.

Depois de uma hora em que deu para partir uma corda da guitarra, sai com a banda para regressar logo a seguir, debaixo de aplausos. Regressa sozinho com um copo de cerveja a agradecer e sai. Volta com a banda, apresenta-a e juntos tocam um par de temas mais uplifting. Depois, é só ele, acompanhado da guitarra, numa rendição de “Heart and Soul” dos Joy Division. Antes disso, voltou-se de costas para quase todo o auditório para dedicar uma canção às poucas pessoas que estavam em cima, sobre o palco.

No total, tocaram cerca de hora e vinte, fizeram a rotação necessária ao disco que marca o regresso e reafirmaram a genialidade de Mark Eitzel. Genialidade que não se mostra, que não se impõe mas que se vai revelando aos poucos, em cima do palco ou em disco. Há coisas que não se explicam para não se faltar à verdade das experiências. Na recorrência das piadas autopunitivas, na fluidez daquele olhar alcoólico, na efervescência dos sons tirados à guitarra (e ao baixo, à bateria e às teclas) mora uma figura imensa.
· 23 Mai 2005 · 08:00 ·
Helder Gomes
hefgomes@gmail.com

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