Optimus Alive!09
Passeio Marítimo de Algés
9-10-11 Jul 2009
"Cabeleireiras", na linguagem de um amigo meu (nós somos betos), são mulheres que usam roupas de cores vivas, óculos de sol grandes e normalmente variações do clássico modelo Wayfarer da Ray-Ban, skinny jeans e leggings prateadas, douradas ou pretas com brilhantes apertadíssimas. É o que vemos quando vamos ao Lux ver aqueles projectos genéricos tipo Boys Noize ou MSTRKRFT que basicamente gostam de fingir que os Daft Punk eram uma só coisa. E eu até gosto dessas coisas, especialmente com álcool à mistura: há canções boas (mais de quatro seguidas é impossível e ficamos com dor de cabeça, o que não é só do álcool), e há que respeitar alguém que trabalha com o will.i.am em canções boas (Boys Noize em "American Boy" da Estelle) ou faz canções com o Ghostface Killah (MSTRKRFT). Mas não deixa de ser genérico, o que me leva ao problema em questão. É só preciso haver um bocadinho de rock e uma batida dançável e pimba, cabeleireiras na primeira fila. O que às vezes até é agradável à vista – gosto especialmente da combinação camisas grandes aos quadradinhos encarnados ou azuis com skinny jeans (raramente há contextos em que camisas não funcionam, a não ser que estejam estampadas, nesse caso é ridículo) –, mas geralmente não passa de uma pinderiquice –, porque até se soltam mais, mas o problema reside no facto de muitas delas terem nascido depois de 1990 ("Meritíssimo, mas eu pensava que ela era legal!"). Junte-se a isso uma mentalidade por vezes ridícula e, não o neguemos, extremamente assustadora. Ouvia há pouco tempo uma rapariga de vestido e fita no cabelo a comentar que só ouvia bandas que mais ninguém conhecia, só ouvia discos três vezes, e que o desconhecido era o melhor, mencionou também que tinha desistido de Boys Noize e MSTRKRFT e Peaches porque ouvia há dois anos e agora até os betos de Cascais (nem eu nem o meu amigo somos de Cascais, e só vamos a essas coisas porque bebemos) ouviam.

Não dava para topar muitas cabeleireiras no primeiro dia do Alive. O preto era a cor dominante, com gente não saía de casa ou, pelo menos, dos bares mais recônditos do Cais do Sodré desde o último concerto dos Metallica. Que tinha sido há pouquíssimo tempo, mas ainda assim consegue chamar tanta e tanta gente. O palco principal era o do metal, com os Mastodon, os Machine Head ou a aberração que são os Slipknot (o facto de terem sobrevivido ao execrável movimento do nu-metal e de ainda terem fãs é algo que me assusta e me deixa acordado muitas vezes à noite), além dos Metallica. No palco secundário havia algumas cabeleireiras numa de ver bandecas manhosíssimas. O cartaz estava feito com muita, mas muita mestria. Os teus amigos ou tu próprio podem não ter ido ver os TV On The Radio ou a banda qualquer de que gostas ali porque o bilhete era demasiado caro, mas há milhões de putos com dinheiro dos pais que foram ver "aquela" banda que é extremamente importante para eles porque é britânica e os membros são subnutridos como eles. Se fores um desses miúdos subnutridos ou uma cabeleireira, por favor não me leves a sério, eu também não me estou a levar, e – esta parte também é muito importante – não te leves demasiado a sério, ainda és novo/a.

Os TV On The Radio, pois. Será sempre tramado fazer-lhes o som, é preciso um gajo que os conheça e esteja horas com eles a afinar cada pormenor. Isso é praticamente impossível num festival, por isso tirem o cavalo da chuva. O que acontece é que o som, mesmo não sendo o melhor, foi menos mau que o do Super Bock Super Rock há dois anos, e eles também estavam muito mais soltos (e tinham um dos saxofones dos Antibalas, mesmo à Desperate Youth, Bloodthirsty Babes). O Kyp Malone (guitarrista/vocalista) parece estar a cantar melhor ao vivo (o Tunde Adebimpe sempre foi a estrela vocal da banda, apesar da pinta e da barba do Malone). O Dear Science é bem melhor do que tu o pintas e devias ir buscá-lo outra vez, ao vivo também é bom (funciona melhor com os sopros todos da Antibalas). Menos sujo, mais polido, com canções igualmente boas e até algumas novidades. "Dancing Choose", por exemplo, tem lá um bocadinho de rap pelo meio, pela primeira vez na carreira da banda (se alguma vez voltar a ler um texto em que falam de "hip-hop" como um elemento fundador do som da banda, juro que chamo racista a quem o escreveu). Os claros vencedores do festival, também dançavam e faziam dançar bem (vi-me obrigado a usar o meu patenteado jogo de pés incrível, algo que, durante o festival, só voltei a fazer com os Black Eyed Peas, e não, isto não é racismo, mas, por outro lado, se eu tenho de me justificar é porque pensei nisso, fará isso de mim racista?).

Os Klaxons têm uma ou outra canção de que um gajo até se lembra. São únicos na nu-rave, ou lá como é que aquilo se chama, e conseguem ser porreiros ao vivo. Nunca tinha ouvido os Crystal Castles na vida – os putos, pelos vistos adoram-nos – e sinceramente não me consigo lembrar daquilo a que soavam, só pensei que era tudo tão chato e desprovido de sentido.

No segundo dia as cabeleireiras já estavam muito mais evidentes. O que, mais uma vez, é uma faca de dois gumes. Havia muitos óculos como aqueles que o Kanye West usava em 2007, tipo persianas. Mas também havia um caso curioso: o que são os Prodigy senão uma mistura entre rock e dança, tal como todas as outras bandas que passavam pelo palco secundária? Só têm mais história (e lugar na História), melhores discos e melhores canções. Os miúdos percebem isso, e era ver por lá várias t-shirts. Os Eagles of Death Metal, no palco principal, não são nem a pior nem a melhor banda do mundo, mas são uma piada divertida. Rock'n'roll sem qualquer artifício nem pretensão, vindo de um gajo que vive claramente esse estilo de vida ao máximo. Segue-se uma tarde/noite sem nada de muito especial. Impressionantemente, ainda há fãs de Placebo no mundo. Pessoas que sentem cada palavra que sai da boca de Brian Molko (porque é "poesia") e ainda ouvem os seus discos, por muito mais que sejam. Os Prodigy usam samples de reggae para chamar o público e montam um espectáculo competente, mas pouco mais que isso. No palco Optimus Discos, o dedicado às bandas e DJs portugueses, o DJ Ride dá um grande concerto baseado no seu óptimo EP Beat Journey. Com ele há outro DJ e um baterista a quem o Bodyspace chamou, há meses, "o nosso Paal Nilssen-Love". O nome é Gabriel Ferrandini e nem só de jazz e free jazz e improviso vive o menino. É também bem capaz de ser o nosso ?uestlove, funcionando metronomica e monstruosamente a acompanhar o hip-hop, o drum'n'bass (menos irritante nos concertos que nos DJ sets dele) e o dubstep do Ride (que é capaz de ser o nosso DJ Shadow).

Terceiro dia era dia de Chris Cornell (malta que viveu o grunge), Black Eyed Peas (fãs de rádio) e Dave Matthews Band (maioritariamente betos, mas diferentes de mim). À tarde, Boss AC tocou no palco principal com um fato branco. Steve Martin usava um fato branco nos seus espectáculos de stand-up comedy para que as pessoas no fundo do estádio o vissem. O Passeio Marítimo de Algés não é um estádio, nem havia assim tanta gente para vê-lo, e além disso hoje em dia há ecrãs e câmaras que filmam tudo. Muitas das canções dele já passaram do prazo, a banda simplesmente competente não ajuda, e mesmo a malha mais interessante, que vai ser single um dia, é uma mistura entre as produções de Timbaland para Justin Timberlake em 2006 com o R. Kelly de 2003 (mas é boa, a sério). Os Black Eyed Peas eram uma banda de hip-hop alternativo irritante. Depois ganharam público e ficaram uma banda de hip-hop mainstream irritante. Mas o que fazem fazem muito bem (até dancei) e foram precisas para aí seis canções para eu, que nunca ouvi um disco deles mais que uma vez na vida, encontrar uma que não conhecesse. A meio o will.i.am, que merece todo o nosso respeito por ter alegadamente espancado o Perez Hilton, fez um mini-DJ set com a óptima produção dele para a Estelle e o Kanye West e com malhas de Michael Jackson. Os Dave Matthews Band tocaram para aí três horas. São uma banda só para os fãs, que juntam músicos a fãs casuais de música, sem haver muito no meio. Houve algo que me fez muita confusão: ver João Catarré, o Pipo de Morangos com Açúcar, fora da área VIP. Em que mundo é que o protagonista de provavelmente a mais importante história de amor dos nossos tempos (e já lá vão seis anos, pessoal, estamos velhos) não é VIP num festival?

Basicamente, por muito más que sejam algumas destas bandas, a maior parte delas não é assim tão intolerável quanto isso. Na procura do que há de comum entre o rock e a dança, volta-se a fazer as pessoas dançar, o que é importante. Alguém sabe como é que o David Byrne continua a lançar discos bons mesmo tendo mais de 55 anos? É fácil: o propósito da música dele, e a base de tudo, continua a ser a dança. Numa famosa curta metragem do Saturday Night Live, o saudoso John Belushi aparecia velho como as casas a olhar para as campas dos seus colegas do elenco. Tinham morrido todos e só ele tinha sobrevivido. Questionava-se sobre o porquê disso. Porquê ele? Porquê? Ele sabia-o: porque era um dançarino. E começava a dançar. Ironicamente, foi o primeiro membro do elenco original do programa a morrer. Se calhar não dançou o suficiente. Estes putos e estas cabeleireiras devem sabê-la toda: vão viver imenso tempo. Sempre é melhor que ficar de braços cruzados a olhar.
· 15 Jul 2009 · 19:41 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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