Out.Fest 09
Barreiro
22-23 Mai 2009
O Santo Graal pode realmente estar escondido algures no Barreiro, como revelou Manuel João Vieira na sua candidatura de 2001. Atentos a isso, a boa gente que organiza o Out.Fest vai já no sexto ano de escavações dedicadas à descoberta de música inconformada, compreendendo a importância de revisitar algumas vias subterrâneas (Whitehouse) e a necessidade de sondar as que se encontram adiante (os Loosers ainda carregam o candeio que alumia duas vezes). Durante duas noites, uma primeira no AMAC e a segunda no castiço espaço “Os Franceses”, o Bodyspace matou a sede com água out do Barreiro.

Textos Miguel Arsénio (excepto onde assinalado) e Helder Gomes (HG).
Fotografias Vera Marmelo

Cian Nugent

Dependendo apenas de uma guitarra acústica de seis cordas, Cian Nugent aproveita a óptima acústica do AMAC do Barreiro para detalhar a senda que o leva pelos blues e respectivas ramificações. O jovem irlandês (20 aninhos!) começa por se apresentar, sem que o sistema de som estivesse ligado, e depois desenrola as suas histórias, como que movido por um fluxo semelhante ao de Bashovia, determinante disco do igualmente influente Robbie Basho. Sem evitar alguns momentos mais desinteressantes, conclui a sua presença com “Sixes and Sevens” (se não estou em erro). Cá fora, alguém tentava impingir a mentira que dava Cian como neto de Ted Nugent (rei do rock bimbalhão com alguns temas apreciáveis). Dêem tempo ao rapaz.

Cian Nugent © Vera Marmelo


Sei Miguel Metal Music 4

Ensanduichada entre uma volta de aquecimento excessivamente morna e um soporífero servido a desoras, a apresentação de Sei Miguel Metal Music 4 adivinhava-se (e confirmou-se) como o melhor da noite. Com Sei Miguel no trompete, Pedro Gomes na guitarra, e, como habitualmente, Fala Mariam no trombone e César Burago na percussão, apresentou-se “Coração de Oiro”, uma “peça programática” adaptada para quarteto. Assim é em Portugal, país “francamente nojento” (palavras do trompetista e arranjador): tem que se fazer muito com poucos. E o que o quarteto fez foram 40 minutos de uma peça que constantemente procura novas soluções e promove uma interessante conversa entre os instrumentos. Sei Miguel tem, além de uma língua afiada, notáveis qualidades de performer. Encheu o palco com simplicidade, ora caminhando como um andarilho, ora sentando-se a fumar, de costas para a audiência. Numa palavra: impressionante. HG

Sei Miguel Metal Music 4 © Vera Marmelo


William Basinski

A partir daqui, ninguém subestimará o aspecto mais inegociável do minimalismo de William Basinski. Se a progressão subtil dos loops em disco serve como prevenção, então dito e feito no Barreiro, pois a hora foi preenchida pela repetição de um trecho de 6/8 segundos – armazenado em fita - e pela imagem de uma nuvem em brandíssima movimentação. Olhando para o relógio, que marcava a uma da manhã (indecente…), torna-se inevitável a desintegração da capacidade de ficar acordado. O loop-base até convidava a que os sentidos se deixassem embalar. Não é todos os dias que se tem a oportunidade de dormir durante um voo fretado pela Basinski Airlines. Uma vez mais o feitiço do tempo influencia a experiência Basinski e foi mesmo a hora de inicio que fez o concerto. Sonho bonito, ainda assim.

William Basinski © Vera Marmelo
· 27 Mai 2009 · 00:45 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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