Jazz Em Agosto 2008
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
01-09 Ago 2008
Se em 2007 o signo do festival de jazz da Gulbenkian foi John Coltrane, a edição 2008 regeu-se pelo tema “extensões”. A inauguração coube à Otomo Yoshihide’s New Jazz Orchestra que, com três convidados de luxo, apresentou uma revisão planante do álbum “Out To Lunch” de Eric Dolphy (concerto já ali analisado pelo Miguel). O primeiro fim-de semana do festival continuou pelo Japão e na segunda noite actuou o grupo Min-Yoh Ensemble, liderado pela pianista Satoko Fujii - acompanhada por Natsuki Tamura (trompete), Curtis Hasselbring (trombone) e Andrea Parkins (acordeão, efeitos) - que, apesar da irreverência formal e pontuais notas de registo (especialmente ao nível do piano), foi das actuações menos interessantes do festival.

Satoko Fujii Min-Yoh Ensemble © Joaquim Mendes / Fundação Calouste Gulbenkian

Na tarde de domingo o trio PAAP voltou a subir a bitola, num registo improvisacional feito de algumas pontas solas e interligações inesperadas. Se o contrabaixo era extremamente intenso, o piano alternava entre o lirismo e a brusquidão e o saxofone apresentava um belo som – e da junção dos instrumentos nascia uma música muito curiosa (era evitável a parte final, cantada, mais próxima do domínio do absurdo). O primeiro fim-de semana de festival encerrou com a dupla John Zorn / Fred Frith, que incendiou o anfiteatro ao ar livre com a sua improvisação original em registo dialogante. Se Frith é um mestre da guitarra, desenvolvendo sempre novas abordagens de forma a criar novos sons/texturas/melodias, Zorn é outro mestre, no sax alto, senhor de uma agilidade quase parkeriana e de uma vibrante imaginação. Juntos, Zorn e Frith fizeram uma brilhante celebração de música improvisada. O habitualmente distante Zorn mostrou uma invulgar simpatia e, podemos jurar, no final até distribuiu autógrafos aos fãs!

John Zorn / Fred Frith © Joaquim Mendes / Fundação Calouste Gulbenkian

O segundo bloco de cocertos do Jazz Em Agosto abriu com o sexteto de Taylor Ho Bynum. O trompetista que em 2006 pisou o palco do anfiteatro a acompanhar o mestre Braxton, apresentou desta vez o seu próprio grupo, numa original junção de referências. A começar, a guitarra de Mary Halvorsen (límpida, fraseante) contrastava em absoluto com os riffs (ascendência rock) de Evan O’Reilly; a linguagem de Jessica Pavone (viola, baixo eléctrico) diferia da percussão forte de Tomas Fujiwara; e o saxofone tenor de Matt Bauder equilibrava com tensão a leveza do líder Ho Bynum; no final o resultado funcionava harmonioso, consumado numa elevada dose de originalidade.

Sylvie Courvoisier “Lonelyville” © Joaquim Mendes / Fundação Calouste Gulbenkian

Na tarde de sexta-feira o trio Memorize The Sky apresentou um concerto de improvisação focada no promenor e no detalhe. Depois dos grandes nomes do cartaz, Matt Bauder, Zach Wallace e Aaron Siegel deram um dos espectáculos mais deliciosos do festival, longe estética do grito, dando espaço ao silêncio. A noite de sexta-feira encerrou com o grupo “Lonelyville” de Sylvie Courvoisier. Fortemente ancorada na composição, a música do quinteto de Courvoisier abre ainda espaço para o talento dos músicos - e Mark Feldman esteve particularmente exuberante.

Peter Brötzmann Chicago Tentet © Joaquim Mendes / Fundação Calouste Gulbenkian

A tarde de sábado acolheu o solo percussão do suíço Fritz Hauser, num interessante exercício de performnce técnica. O duo Pascal Contet/Barre Phillips trabalhou um minucioso diálogo improvisado, onde se evindenciou o impressionante domínio dos instrumentos, adaptados a um formato de comunicação camarística. O encerramento das festividades coube ao grande Peter Brötzmann Chicago Tentet. A banda liderada pelo velho saxofonista alemão é um exemplo de longevidade, coisa rara para um verdadeiro grupo all-star do jazz criativo contemporâneo que reúne Joe McPhee, Ken Vandermark, Mats Gustaffson, Johannes Bauer e Paal Nilssen-Love, entre outros. Do encontro entre a grandiosa libertação “free” e mais pura comunicação herdada da tradição jazz, o decateto (que na verdade junta onze músicos) deu um portentosa lição de música visceral, bruta, pura. Senhores de uma intensidade quase ilimitada, os membros do decateto (seria injusto fazer qualquer destaque individual) mostraram que uma equipa de luxo sabe dar uma exibição de luxo. Foi o encerramento perfeito para mais uma grande edição do Jazz Em Agosto.
· 01 Ago 2008 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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