Avenida III
Avenidade da Liberdade, 211, Lisboa
18 Jul 2008
A sensivelmente um ano de ter conhecido a sua primeira (e inesquecível) edição, a (terceira) Avenida apresenta os sinais de amadurecimento próprios de um formato invulgar e vencedor que deixará certamente saudades, tal foi a visão da sua estratégia curatorial que atraiu até a um só andar – dividido em várias salas - uma série de músicos unidos pelo critério da qualidade e “palavra a dizer”, mais do que por um só género. As sementes atiradas à terra há um ano colhem agora uma instituição em formato ampliado, mais organizado (após alguns ajustes) e cada vez mais contrastante entre a luz dos corredores de convívio e o escuro das salas onde ocorrem as actuações.

A garantia e sensação de bom fruto out, aclamada de boca em boca desde a primeira Avenida, acabou também por servir como chamariz a uma grossa fatia de público que um sociólogo definiria como in (celebridades e gente gira). Faz isso com que a noite da Terceira Avenida, mais do que as duas anteriores, seja uma ocasião 2 em 1 altamente propícia a medir o pulso à imensa fertilidade musical que agita Lisboa e arredores, assim como à elaboração de um completíssimo relatório visual de todo um rol de potenciais modelos que não estranharíamos encontrar, daqui a uns anos, entre as protegidas das mais reputadas estilistas portuguesas. É, além disso, bonito idealizar que o crítico de cinema Rui Pedro Tendinha (tipo impecável que partilha do meu desdém por determinados filmes espanhóis) possa reservar um cantinho para um cd-r de Frango entre os discos de Red Hot Chili Peppers.

O relógio até iniciou a sua marcha com uma performance artística que encontrou Ana Santos a moldar o perfil do corpo de Pedro Barateiro com papel de prata, quase como em jeito de prenúncio de que os contornos mais salientes do corpo musical da cidade e periferia seriam revelados naquela noite.

Assim foi, logo de seguida, quando PCF Moya, ou Rui Dâmaso dos Frango em modo mais introspectivo e pessoal, conseguiu, com uma guitarra, voz - entregue à dissimulação e eco - e uma série imensa de pedais, condensar num amplificador Marshall todo o sopro lo-fi e vagas salubres de um piquenique partilhado por semi-deuses. Por uma noite só, PCF Moya deu a escutar a Nossa Senhora do Rosário Machine.

Mesmo ao lado, o crooner Bernardo Devlin iniciara entretanto a contagem dos 25 minutos que o separam da forca, enquanto momento de desconforto e embaraço sufocantes, extremamente bem simulados pela lírica misantropa do co-fundador dos Osso Exótico. Contorci-me até para evitar a comparação ao mais recluso Scott Walker recente, mas fracassei nesse esforço.

Kotalume não conseguiu também evitar que a sala de dança, que estreou com bravura, encontrasse, em pouco tempo, os presentes rendidos ao desportivismo e crioulo incendiário do funaná e kizomba (mais favorável a esfregação romântica) a cargo do cabo-verdiano.

Ao fundo do corredor, o quase indescritível sentimento de irmandade e partilha de alma do set espirituoso, que junta o baterista Afonso Simões ao guitarrista Manuel Mota, resulta num momento lindo assim que alguém desliga as luzes de todas as divisões à volta e ambos ficam apenas iluminados pelo sol da meia-noite que sobra aos candeeiros da rua paralela à Avenida. Quase como se esse surgisse por efeito da invocação conseguida por uma precursão que, como a aurora, é sorrateira mas abrangente no seu alcance, ou de um punho firme que malha, a certa altura, contra o corpo da guitarra como se esta fosse um sino ou um gongo. Quando os sentidos estão finalmente afeiçoados ao movimento de Mota e Simões, eis que o dialecto telepático de ambos parte em busca de outra fluência ou código. Ficamos inebriados por esta constante perseguição próxima de um Bullitt sem Steve McQueen.

Os ânimos continuaram em alta quando DJ Marfox sucedeu a Kotalume, como anfitrião da sala de dança, para desfile implacável de um kuduro fracturado e rude no seu minimalismo de curto-circuito. O chão tremia debaixo dos pés num cenário de festa rija capaz de fazer alguém perder a cabeça. Não tardará até que alguém em Cannes diga o nome de Marfox em sotaque francês numa próxima reportagem dedicada ao fenómeno musical angolano que é o kuduro.

A sala que a Avenida reserva habitualmente aos exorcismos conheceu, à meia-noite e meia, a chegada conveniente dos Stellar Om Source e da intensa jam pagã que trouxeram consigo. Impagável é mesmo a expressão facial de um curioso enquanto espreitava o chinfrim vudu da dupla como se estivesse, nesse momento exacto, a descobrir, por entre os cortinados da janela, um mau hábito do vizinho que até aí tinha como pessoa respeitável.

No fim, ler a frase It's all over now., à parte interior do braço de alguém, bem pode ser a melhor forma de começar a “nostalgiar” acerca dos melhores dias vividos na Avenida.
· 18 Jul 2008 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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