The Dirty Projectors / Gala Drop
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
06 Jun 2008
Com a mudança de vocalista, que afastou Keith Morris (co-fundador dos Circle Jerks) em prol do mais reconhecível Henry Rollins, a principal mudança sofrida no som dos Black Flag, potentíssima bomba-relógio do hardcore de Los Angeles, terá sido a dilatação imposta pela chegada do segundo, que precisava obviamente de espaço para ventilar a sua paranóia (evidente no clássico “My War”) e esgotar as direcções possíveis para os seus ataques. Gradualmente, e à medida que o catálogo da sagrada SST foi acumulando álbuns de Black Flag, a tal dilatação levou a que a duração das músicas começasse a rondar os cinco minutos em vez de três, a que a vocação mais directa do hardcore desse lugar a um rock mais fixado na centrifugação alongada dos seus próprios motivos. Será provavelmente desnecessário especificar os nomes das bandas hardcore que, na viragem de milénio, rumaram a mais elaborados postos pós-rock e prog, muito por efeito da preciosa lição Black Flag.

The Dirty Projectors © Vera Marmelo

Provavelmente inspirados pelas possibilidades de “mundo novo” proporcionadas por essa permuta um pouco acidental, os Dirty Projectors que chegam à ZDB são também pupilos exemplares da lição que ensina a descobrir refrescamento nos riscos cometidos: desviam a pop da sua auto-estrada fácil, preferindo encaminhá-la pelos mais sinuosos caminhos do exotismo e eloquência. Por sua vez, a admiração dos Dirty Projectors pelos Black Flag encontra-se bem patente no recente disco Rise Above, que aproveita onze das faixas do incontornável Damaged, para, a partir daí, assumir todas as liberdades possíveis na apropriação dos originais. Mas nem só de versões se fez a noite de sexta.

The Dirty Projectors © Vera Marmelo

Em palco, Dave Longstreth é, de facto, a personificação inquieta da variedade de cores que servem para colorir sonhos sem saída como The Getty Address: ele agita o queixo sem paramento (um pouco como Izmailov do Sporting), estica a corda da voz barroca que o aproxima ocasionalmente de Antony (& the Johnsons), idealiza as canções como estância balnear para amantes queer deixando sempre em aberto uma pequena porta para a invasão do rock mais severo (e foram várias os momentos de mudança drástica na ZDB). Para ajudá-lo na instalação desse contraste, Longstreth conta com as harmonias vocais das duas companheiras (Amber Coffman e Angel Deradoorian), combinadas em esgrima e trança, e com a mais pesada presença do baterista nas suas costas, que larga chumbo quando assim é necessário. Os primeiros vinte minutos começam por ser demasiado morninhos, sendo que talvez fosse a intenção de uma banda que muitas vezes é também a flauta de faquir que amansa a cobra, mas tudo se foi compondo até que a versão eufórica e celestial de “Rise Above” dos Black Flag coloca a noite como um arco-íris na eminência de encontrar o seu pote de ouro. Ficou por perto.

Mais perto do cume da sua pirâmide andará o trio Gala Drop, que, na primeira parte, proporcionou trampolim para salto de fé até dimensões acima da terceira, onde o dub e o kraut redescobrem laços e utensílios comuns perdidos com a erosão dos tempos MTV reinados pelas músicas de três minutos e laca no cabelo. Afonso Simões, na bateria ao centro, vai insuflando o padrão rítmico para que este não perca o rasto aos samples repetidos e posteriormente ajustados e corroídos por Nélson Gomes e Tiago Miranda. A generosa prestação deixou fome de mais.
· 06 Jun 2008 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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