Black Lips / Sizo
Porto Rio, Porto
21 Abr 2008
Noutras realidades pode ser difícil entender, mas por vezes o rock ‘n’ roll tem estranhas formas de se manifestar. Não é sempre politicamente correcto, não é limpo, não é bem aceite por todos, não é bem comportado. E os Black Lips não são nenhuma das anteriores. São quatro norte-americanos com caras de traquinas, com uma série de discos editados e com uma paixão pelo garage punk que transpira – e de que maneira – para os concertos. Pode-se afirmar assim: os Black Lips são uma banda de concertos. Os seus discos não são maus, mas é em cima de um palco que os norte-americanos dão realmente provas do seu valor. A fama, essa, persegue-os: os relatos da loucura nos concertos dos Black Lips são muitos e envolvem quase sempre todo o tipo de secreções.

Good Bad Not Evil é o ultimo disco com assinatura dos Black Lips e a tradição diz que é por aí que a coisa deve andar. Dito, feito. “I saw a Ghost (Lean)” lançou o caos pela primeira vez e deu ao barco Gandufe ar de rock. A surreal “O Katrina” (dona e senhora de letra que não lembra a ninguém), logo a seguir, foi como um beliscão para lembrar que aquilo estava a mesmo a acontecer e para provar que os Black Lips, ao vivo, são donos de uma força admirável. Apesar da conjugação entre o álcool e a falta de técnica (um argumento forte e fértil para certas bandas), os Black Lips levam as canções até ao fim com bastante sucesso. São improváveis, sim, e alimentam-se muitas vezes de substancias mais ou menos legais cedidas muitas vezes pelo público. A cerveja saltou alegremente de mão em mão, garrafas de vinho seguiram-lhe o caminho – e o fumo não faltou.

Os excessos foram-se seguindo – e as canções também, deste último e de outros discos. As personagens Black Lips, em delírio crescente, foram transmitindo ao público a sensação de que tudo era possível. E tudo foi mesmo possível. Depois de algumas invasões em palco e muita confusão no mosh pit, o concerto havia de acabar em cenas de pancadaria. Nada de trágico – bateria, guitarras e material danificado, alguns danos físicos e pelo menos uma visita ao hospital mais próximo. Coisas do rock ‘n’ roll. No final tornava-se visível o quanto valeu ver passar pelo Rio Douro o furacão Black Lips.

Na primeira parte actuaram os portuenses Sizo, banda a quem coube aquecer a noite no barco mais rockeiro do Porto. Numa actuação intensa, a banda do Porto mostrou energia mas nem sempre se mostrou interessante. Os teclados e a bateria distribuem a base, uma guitarra agitada apimenta as coisas e a voz de João Guedes (muitas vezes mergulhada em efeitos) fecha a coisa. Se em canções como “Big Three” o sucesso é garantido (também o é quando lembram os Suicide), noutras como “The Slang is Dead” não se pode dizer o mesmo (apesar da energia). Faltará aos Sizo (que até foram prejudicados pela qualidade e volume demasiado alto) conseguir apresentar em palco um conjunto menos “compacto” e mais diferenciado de canções.
· 21 Abr 2008 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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