Colleen
Café Concerto Rivoli, Porto
28 Abr 2005
Colleen é na verdade Cécile Schott. Nasceu em Paris, começou – como quase todos – a tocar rock no liceu mas foi com o lançamento de Babies na francesa Active Suspension em 2002 que acabou por chamar a atenção. Daí até à gravação de Everyone Alive Wants Answers, editado pela Leaf, foi um passo. Aí, e com a ajuda de samples, desenvolveu um belíssimo trabalho que acabou por ser classificado – por falta de maiores referências – de música electrónica. Talvez como resposta a essa classificação errónea, e por achar que não seria capaz de executar Everyone Alive Wants Answers ao vivo, Colleen surge em 2005 com The Golden Morning Breaks (título retirado de um tema de John Dowland), um disco onde troca a electrónica por instrumentos reais, e é precisamente com esta nova abordagem da música que Colleen se apresentou ao público portuense, poucos dias após o concerto na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. O local, então, parece perfeito como sempre: Colleen, chá e velas é uma excelente forma de acabar a noite. Com efeito, Colleen surgiu e manteve-se sozinha em palco até ao final do concerto, acompanhada por uma guitarra acústica, pelo seu violoncelo, por caixas de música e outros instrumentos (Colleen aprendeu até a tocar novos instrumentos a pensar em The Golden Morning Breaks).

Tudo começou com uma espécie de faixa ilustrativa de um quarto onde algumas caixas de música comunicam entre si, e, desde logo, a simplicidade e delicadeza incrustaram-se no momento. A partir daí, Colleen apropriou-se dos ensinamentos obtidos para, fosse com que instrumento fosse, criar peças onde ia sobrepondo camadas sobre camadas – suspensas em loops – criando ambiências de uma imensa ternura e inocência. A música de Colleen é frágil, suspensa no ar, delicada como as gotas de orvalho que descem as folhas, como paisagens vazias. Cabe numa caixa pequena, na palma de uma mão mas propaga-se por longas distâncias. Vê-se-lhe o gosto por espremer todas as possibilidades de um instrumento, aprender com e por ele, fazer grande música com poucos meios. Quando o fez com violoncelo, às tantas, parecia que um trio ou um quarteto de cordas a acompanhava, tal a complexidade da composição. Nota-se-lhe a vontade de pisar novas texturas, um novo chão, independentemente de ser aparentemente seguro ou não. E é precisamente dessa sensação orgânica de composição que emana a beleza da sua música. Isso e a forma quase infantil com que a aborda.

A música de Colleen respeita o silêncio, as variações, os temperos e tudo aquilo que possa sofrer metamorfose. E respeita tanto o silêncio que, sabe-se, é facilmente incomodada por qualquer barulho inesperado na sua actuação. Mas as únicas situações em que Colleen expressou sentimentos ou emoções foram precisamente aquelas em que sorria quase timidamente após o final de cada peça, para agradecer à pessoa responsável pela sua visita a Portugal e ao técnico de som que, embora fora de cena, a socorria. A certa altura Colleen esclareceu até que algumas coisas poderiam correr mal, mas tal não se sucedeu. Antes pelo contrário. Colleen mostrou que simplicidade não é sinónimo de vazio, inocência não é sinónimo de insuficiência. A sua música fala por si mesma, e as suas paisagens são de imensa beleza.
· 28 Abr 2005 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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