Acid Mothers Temple / Raccoo-oo-oon
Galeria Zé dos Bois
3 Nov 2007
Invocar, numa só noite e até ao mesmo palco, duas entidades de maturidade sónica diferente faz com que a ocasião ocorrida na Zé dos Bois muito se tivesse assemelhado a uma batalha sucedida à imagem daquelas que conhecemos às produções muito práticas dos lendários estúdios japoneses de Toho. Sabe-se, através do convívio mínimo com esse peculiar domínio do cinema japonês, que podem intervir na redução de uma cidade aos seus escombros os mais diversos protagonistas exercendo as mais diversas práticas destrutivas: enquanto pai de todos os monstros, Godzilla (Gojira em japonês) exibe travo clássico ao devastar urbanizações e monumentos com a força da sua cauda ou com um bafo incendiário que é pura retaliação pós-guerra. Já Mothra, a coisa situada entre a larva e a borboleta, é mais atípica nos seus engenhos de combate, se bem que de imenso valor psicadélico nos feixes de luz que projecta. A capacidade ilimitada de se reciclar a si mesma, fez também com que a entidade Toho tornasse, entre os fãs da pancadaria titânica, aceitável o facto de uma criatura como Godzilla ter um filho capaz de replicar os dotes herdados, um arqui-rival mecânico, uma ilha só para ele e tudo o resto que merece um personagem central. Esse conjunto de correspondências e laços de familiaridade é um pouco essencial à distinção dos portes evidenciados pelas duas bandas encarregues de semear o caos no palco da ZDB, espaço por uma só noite promovido a campo de testes atómicos.

Raccoo-oo-oon © Andreia Roque

A solução mais prática para contornar a impraticabilidade do nome Raccoo-oo-oon passa por, a partir de agora, substitui-lo por Bebé Godzilla – progénito acidentalmente parido pela América que, na floresta escura, vendeu a alma ao arrojo e que desse negócio trouxe um fundamento estranhamente flexível para a canção. Bebé Godzilla demonstra-se precocemente balanceado para exibir a sua jovialidade na extorsão sincronizada de tribalismos a dois kits de precursão (um mais normal que o outro), além de aparentar estar condenado a ser um junkie analógico à medida que descobre a melhor forma de fazer conviver esse hábito obscuro com outra faceta rock mais heróica – essa que foi por demais sentida ao ecoar guerreiro do uivo debitado sobre o microfone. Apesar da incerteza que paira sobre o futuro que espera a pequena criatura, a mesma já conta com um habitat favorável ao seu anómalo crescimento: folclore acessório nos subaproveitados metais apropriados à música Javanesa, um teclado Roland alimentado por uma corrente eléctrica fantasmagórica, indícios de que, bem perto do fim do momento junior, também uns tons blues se misturaram entre a névoa. Apesar de tudo, fieis e cépticos terão de aguardar por sequelas para completar o relatório referente ao bicho.

Acid Mothers Temple © Andreia Roque

Também o título assumido pelos Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. merece uma simplificação que diminua consideravelmente a quantidade de caracteres empregues por aqui: tratemo-los por Mega-Gojira, ser de características gargantuescas absolutamente formadas e apuradas, orgulhoso da naturalidade nipónica que o estabelece como prestigiado herdeiro dos secretistas Les Rallizes Denudes ou dos mais expostos Flower Travellin’ Band. Concentrando em si o esforço dos quatro membros que o movem por vias alternativas à conhecida por Láctea, Mega-Gojira prova que é feito de musicalidade maciça dos pés até à ponta da barba: elevando até ao mais criminoso estado de êxtase um repetido riff entre Satori (dos Flower Travellin’Band) e um Iommi fora de si mesmo, libertando fumo pelas condutas respiratórias enquanto reflecte sobre os despojos de um dia de trabalho (divagando pela absolutamente radiante “Pink Lady Lemonade”, que conheceu direito a um reprise em modo de variante), entoando cânticos intemporais pela boca de um Supremo Baixista que a seu favor até tem algumas semelhanças fisionómicas mantidas com a lenda Charles Bronson. Mega-Gojira não tem nada a provar e, mesmo assim, dá a provar à sensibilidade mental todo o tipo de experiências raras. Mais rasgados são os sorrisos quando, já em encore, se percebe que o monstro tem capacidades cómicas, além das mais salientes cósmicas, que se revelam numa breve incursão por “O Pastor”, o mundialmente famoso tema dos Madredeus. Apetece implorar a que Gojira volte até cá para demolir mais vezes o barraco. Conviver de perto – pelo menos uma vez - com esta besta é alínea de acrescento obrigatório na lista de deveres rabiscada por qualquer ávido de rock pesado que se preze.
· 03 Nov 2007 · 07:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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