Summercase 2007
Boadilla del Monte, Madrid
13-14 Jul 2007
NOVO DIA, NOVO SOL - MAS NÃO PARA TODOS

O sol intenso que se fez sentir na tarde de sábado em Madrid encontrou no terminal E um aliado precioso. Ou terá sido ao contrário. Os canadianos Hidden Cameras foram a primeira grande atracção do segundo e último dia do Summercase com a sua pop luminosa com conhecidas conotações gay e religiosas. O motivo da visita ao Summercase é ainda o fantástico Awoo, uma colecção impressionante de canções (uma das melhores de 2006). Joel Gibb é o líder de uma formação que em palco não se limita a apresentar canções; fazem uma verdadeira festa. Empurram-se, pulam e gritam. A ajuda veio pelas mãos de um anónimo com uns calções e uma espécie de burka que em palco desenhava bizarras coreografias.

Mas a música. As canções sonhadoras e libertadoras dos Hidden Cameras. Canções como a deliciosa “Lollipop”, capaz de provocar espasmos vários. Impossível não pensar nos R.E.M. e na mensagem açucarada: “Mouth of salivatng froth / thy stomach does as stomach wants / contagious every single suck / the flavour takes it, takes its time / Lollipop, Lollipop”. Toda a confluência de guitarras, cordas e de letras inteligentes faz das canções dos Hidden Cameras um vício permanente – e ao vivo tudo ganha uma dimensão extra apetecível. Que venha outro disco para aguçar de novo a vontade de ver os Hidden Cameras – felicidade oblige.

Ali ao lado os monges copistas Editors preparavam-se para homenagear os Joy Division via Interpol. Ou seja, se os Interpol foram buscar influências directamente aos Joy Division e aos Chameleons, os Editors fizeram-no directamente com os autores de Turn on the bright lights. Se em disco já fica essa impressão, ao vivo torna-se uma certeza. É impossível assistir a um concerto dos Editors sem a sensação que estamos a ser enganados – ou que preferíamos estar a ver os Interpol. Com os singles tudo se disfarça com mais ou menos facilidade e há até outros riffs decentes no último disco dos Editors, An End has a start). Quer isto dizer que até dá vontade de gostar dos Editors, mas a colagem às influências torna a tarefa complicada. Algo que se complica ainda mais com a pose do vocalista.

MULHERES DE CAUSAS DISTINTAS

Ainda que invisível, parecia residir na actuação de Lily Allen uma carga de expectativas significativa. Não só pela sua personagem (algo peculiar para dizer o mínimo) mas também pelas suas canções que surpreenderam alguns na curva do bom gosto e do gosto duvidoso. Ainda no que diz respeito à sua personalidade, cedo se percebeu quão explosiva pode ser a mistura dos elementos “estrela pop” e “aparente auto estima baixa” (demonstrada por exemplo no vídeo em que Lily Allen se confessa triste e deprimida pelo seu – na sua cabeça – demasiado peso). Quando entrou descalça em palco e artilhada de álcool cedo se percebeu que a actuação de Lily Allen prometia.

Há algo nas canções de Lily Allen que merece a maior das atenções. Talvez seja o cheiro a reggae, talvez seja a lábia ou tudo junto. Ao vivo, canções animadas como “Smile” e “Ldn” explicaram porque é que Lily Allen é alvo da atenção da comunidade indie e funcionaram surpreendentemente bem. Conquistou o público mesmo antes de lhes perguntar se queriam embebedar-se e pedir a um membro do staff que distribuísse uma garrafa de whiskey pelo público. Pediu desculpa por não ter percussão ao vivo e pôs as culpas no cachet reduzido que a obrigou a enfiar meia dúzia de batidas numa máquina. Lily Allen contou “apenas” com a presença de 3 músicos nos sopros e outro no baixo (além do responsávle pelas máquinas), o suficiente por colocar em boa marcha os temas do muito agradável Alright Still. “Everything's Just Wonderful”, do último disco, foi momento prazenteiro, assim como “Not big”, dedicada aos pénis pequenos em geral e ao do seu ex-namorado em particular. Lily Allen dedicou ainda uma canção a uma rapariga que lhe tornava a vida impossível nos tempos da escola, sublinhando que uma agora é uma estrela pop e a outra um Zé-ninguém. Coisas da pop, difíceis de resistir.

Pj Harvey © Angela Costa

A mulher que se seguia era PJ Harvey, em ondas completamente diferentes. Polly Jean assumiu os controlos do terminal S e fê-lo sozinha. Tanto ao piano como na guitarra, com a ajuda ocasional de uma base pré-programada. Com a sua experiência conseguiu segurar um concerto que até tinha tudo para falhar, tendo em conta o barulho que vinha dos outros terminais e que ameaçou sempre destruir a noite a PJ Harvey. A certa altura, Polly Jean, de longo vestido branco e não de saia como seria de esperar, confessou que não se conseguia ouvir e perguntou se o mesmo se passava com o público. Independentemente disso, PJ Harvey, em vésperas de novo disco, conseguiu momentos francamente bons, especialmente em “Rid of Me” (como é possível resistir à força de uma canção assim) e a “Big Exit”: “Baby, baby / Ain't it true / I'm immortal / When I 'm with you / But I want a pistol / In my hand / I wanna go to / A different land”. Que venha o novo disco e um palco merecedor das canções de PJ Harvey.

Pj Harvey © Angela Costa

DOIS MUNDOS DE FANTASIA E ILUSÃO

Todos conhecem os Flaming Lips, quando mais não seja, pela espectacularidade que normalmente está associada aos seus concertos. Cenicamente falando, claro está. Os Flaming Lips dispõem “recentemente” de pelo menos dois óptimos motivos para se partir para um concerto da banda com grandes expectativas: eles são The Soft Bulletin e Yoshimi Battles the Pink Robots. No concerto de Madrid até nem apareceram tantas vezes quanto isso. Mas o lunático Wayne Coyne sabe montar um bom espectáculo. A prova está na forma como entrou em palco: dentro de uma mega bola transparente com a qual saltou para cima do público para ser empurrado durante algum tempo. Um espectáculo digno de se ver. Depois são os aliens e os pais natal que entram em palco, as fitinhas e as luzes que explodem.

Flaming Lips © Angela Costa

Os Flaming Lips souberam entrar bem em palco musicalmente faland. Fizeram-no com a fabulosa “Race For The Prize”, mostra da pop sonhadora dos norte-americanos mas a partir daí são mais os momentos monótonos do que os grandes momentos. Não só por culta de um disco menos inspirado (At War with the Mystics), mas também por alguma conversa politica insistente (contra George W. Bush, claro está), por uma escolha errada de alinhamento e até pelo tratamento desinspirado dado a algumas canções. Uma pena, até porque se sabe perfeitamente que os Flaming Lips são capazes de conseguir grandes concertos. E neste caso, terá de ficar para a próxima, já que nem a fabulosa “Do you Realize” (com uma das melhores letras de sempre) salvaram os Flaming Lips de um concerto abaixo da média.

Flaming Lips © Angela Costa

Dos Arcade Fire esperava-se também muito. Durante o concerto dos Flaming Lips, algum do público presente no recinto do Summercase, provavelmente desiludido com o que estava a ver (ou então iludido com o cenário montado no palco do lado), foi marcar lugar para o concerto dos autores de Funeral. De tal forma que a 20 minutos do inicio do concerto já parecia que os Arcade Fire tocavam há 20 minutos. Quando os autores de Neon Bible subiram ao palco dedicaram bastante tempos aos automóveis. Passo a explicar. Os dois primeiros temas dos Arcade Fire foram “Keep the car running” (em versão superior à do disco) e a fabulosa “No Cars Go”, um dos melhores temas de sempre da banda.

Arcade Fire © Angela Costa

Não vamos estar com rodeios. Neon Bible é francamente inferior a Funeral. Felizmente o concerto conseguiu pegar nas melhores canções do último disco e mistura-las com as de Funeral e o concerto acabou com saldo bastante positivo (apesar das aparentes deficiências do som). Foi sem surpresa alguma que “Rebellion (Lies)” abrilhantou o concerto e “Wake Up, já no encore, tratou do resto. Não são os Arcade Fire em estado de graça como em Paredes de Coura (culpa de Néon Bible) mas continuam a ser uma banda indie com algum interesse. E ao vivo as coisas continuam a funcionar bastante bem.

Arcade Fire © Angela Costa

UM FINAL PERFEITO

Já pela madrugada dentro, perto do final dos concertos e antes do momentos dos DJs, a banda perfeita para celebrar o momento: os LCD Soundsystem, com disco novo lançado em 2007 e com a vontade notória de fazer de qualquer concerto um grande concerto. James Murphy y sus muchachos trouxeram os temas de LCD Soundsystem e de Sound of Silver para uma plateia sedenta de dança tresloucada e batidas desafiantes. E claro, da cowbell que foi sempre recebida de forma entusiástica sempre que se fez ouvir; algo essencial no punk-funk celebratório dos LCD Soundsystem.

A tenda repleta de gente vibrou - e com razão – com temas como “Tribulations” e “Daft Punk is Playing at my house”. Vibrou e com profunda legitimidade com a fabulosa “Get Innocuous!”, um dos melhores temas de Sound of Silver. Vibrou nem que seja assistida por substâncias menos naturais. Por toda a energia investida pela banda e pelo valor acrescentado de alguns temas, os LCD Soundsystem foram a melhor das formas (de outras possíveis) de terminar o festival. Feitas as contas, é impossível deixar de pensar na dimensão que o Summercase ganhou em dois anos e na quantidade de nomes importantes que reuniu mais uma vez em Madrid e em Barcelona – os espanhóis gostam de fazer as coisas em grande. E tudo leva a crer que em 2008 se celebre mais uma vez o Summercase para a alegria de muitos.
· 13 Jul 2007 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net
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