Summercase 2007
Boadilla del Monte, Madrid
13-14 Jul 2007
Se no seu primeiro ano de vida o festival Summercase se tornou instantaneamente num dos maiores festivais de verão ibéricos, na sua segunda edição confirmou esse estatuto invejável. E fê-lo com um cartaz de luxo. Um cartaz que, à partida, agradava a gostos variados; um cartaz com grandes nomes em áreas distintas; uma lista de nomes que obrigava a uma escolha in loco de programa na mão. Tal como em 2006, Summercase, que acontece simultaneamente em Madrid e em Barcelona, significa escolher entre quatro palcos curiosamente apelidados de terminais: O, E, S e N. E nem o calor que se fazia sentir um pouco por toda a Espanha afastou o público de Boadilla del Monte em Madrid e do Parc del Fórum em Barcelona. Não tenhamos dúvidas: estes eram dois dos locais onde os amantes da música queriam estar durante o fim-de-semana.

CALMA NA TENDA, EUFORIA AO SOL

Um dos primeiros nomes que chamava a atenção em Madrid era o de Perry Blake na tenda gigante (terminal S), apesar de um certo regresso ao anonimato do irlandês. Percurso curioso o daquele que agora assina Canyon Songs: foi ganhando algum destaque durante alguns anos até ao luminoso California e depois disso começou o caminho descendente e desapareceu de certa forma das “luzes da ribalta”. Apesar de Canyon Songs ser o último motivo lançado por Perry Blake para os palcos, o irlandês também foi visitar o passado - fê-lo em canções como “Genevieve”. Mas cedo se percebeu que o local e o alinhamento não eram os ideais para a correcta apreciação de um concerto de Perry Blake. As canções do irlandês pedem outras condições, outro intimismo.

James © Angela Costa

No terminal O, banhado a sol, sentia-se os nervos daqueles que esperavam ver os James após 6 anos de paragem forçada. Tim Booth e os seus pupilos reuniram-se em 2007 e prometeram inclusive disco novo para breve. Entretanto, em Madrid, James fizeram desfilar uma série de êxitos que, desculpem o lugar comum, levaram o público a um estado perto da loucura. Os culpados? Canções como “Sometimes”, “Tomorrow”, “Laid”, “Sit Down”, “She's a star”, “Say Something” e “Born of frustration”, tendo cabido a esta última a responsabilidade de abrir o concerto – para felicidade de tantos.

James © Angela Costa

É difícil resistir ao riff “Born of frustration”, à frontalidade de “Laid” (”This bed is on fire / With passion and love / The neighbours complain about the noises above / But she only cums when she's on top”), à doçura e nostalgia de “Sometimes”. Não deixa de ser incrível a quantidade de canções de sucesso que os James conseguiram em mais de 25 anos de carreira. E após todo este tempo, e os seis anos de pausa, os James continuam de boa saúde e conseguiram um concerto revivalista com bastante sucesso. Logo ali ao lado, Badly Drawn Boy, o senhor da banda sonora de About a Boy e do excelente The Hour of Bewilderbeast (de 2000) oferecia um concerto seguro aproveitando temas do passado recente e do presente.

O FUTURO CHEGA ANTES DO PASSADO

Um homem em cima do palco. Três ecrãs (um no centro e dois dos lados). DJ Shadow (na verdade Josh Davis) prepara-se para fazer magia, para uma sessão de corta e cola, para misturar tudo aquilo que mostrou ao mundo desde 1996 (em disco) e voltar a distribuir em proporções sempre surpreendentes. Ele que fez a questão de sublinhar que tudo aquilo que foi era possível ouvir durante a sua actuação foi cozinhado por si (antecipando-se assim às criticas que os DJs costumam ouvir), brilhou especialmente ao dar vida a alguns dos melhores momentos do seminal Endtroducing... e do não menos obrigatório The Private Press.

Com toda a perfeição à volta do tratamento da matéria prima rica dos dois primeiros discos, até foi possível esquecer a desilusão que foi The Outsider. Impossível resistir à fabulosa sessão que DJ Shadow ofereceu. Ele que primou pela surpresa; que lançava para a mesa excertos de um tema para logo de seguida entrar em outro. Ele que consegue com “Organ Donor” por a casa inteira em êxtase – afirmando nos ecrãs que já o consegue fazer há imensos anos. Ele que conseguiu logo ali uma das melhores actuações do festival, merecedora dos mais rasgados elogios.

Saltando no tempo e em tudo o resto, encontrávamos os Jesus and Mary Chain no palco do lado, de volta ao activo num acho cheio de regressos (alguns com sucesso, outros menos). Mas há que dar uma espreitadela a quem assinou um disco como Psychocandy. Foi possível confirmar logo ali que, com mais ou menos fidelidade ao passado, com mais ou menos semelhanças com os Jesus and Mary Chain de há mais de 20 anos atrás, não se pode dizer que foi um regresso em vão. Muito menos quando se termina com uma canção como “Reverence”. Um revivalismo aqui e ali não faz mal a ninguém.

The Jesus and Mary Chain © Angela Costa

Na tenda mais pequena (terminal N), destinada às bandas menos conhecidas, actuavam as Electrelane, explosão feminina em forma de guitarras furiosas, teclados e bateria. Krautrock com fartura, Sonic Youth em doses moderadas e constantes detonações sónicas de apreciação francamente superior. Um pouco longe dali actuavam os Air, os franceses que têm fama de dar maus concertos (algo comprovado numa nada memorável actuação no Festival Sudoeste há uns anos atrás). Talvez tenha sido o último disco a servir como inspiração (Pocket Symphony é bastante superior a Walkie Talkie), mas parece que os Air estavam em noite sim, mesmo quando foram a temas de discos mais “antigos”. Talvez estes sejam uns Air mais inspirados desde o consagrado Moon Safari.

UM FURACÃO BATE SEMPRE TRÊS VEZES

Quem já tomou contacto com a fera, sabe que os !!! (chk chk chk para os amigos) nunca desiludem ao vivo. E para algo tão fisicamente exigente, há quem se prepare de formas distintas: uns colocam-se mesmo na frente para sentir o suor que se libertará em palco, outros limpam o pó em espelhos com canudos, outros sentam-se no chão para ganhar energias. Quando os !!! entram em palco já não há volta atrás. Atacam as guitarras e a percussão, preparam-se os motores para que Louden Up Now e Myth Takes possam explodir com toda a sua força.

!!! © Angela Costa

Dentro dos !!!, na mecânica explosiva da banda, há alguém que comanda as coisas como se não existisse amanhã: ele é Nic Offer, o homem mais sensual do universo, capaz dos movimentos mais eróticos imagináveis. É ele que se passeia pelo palco de calções exibindo coreografias impossíveis. Não foi por isso surpresa alguma quando, a certa altura, uma fã mais impaciente atirou as cuecas na sua direcção. Nic Offer cheirou-as e colocou-as logo de seguida junto do seu microfone. No meio de tanto entusiasmo, Nic Offer chegou mesmo a beijar uma fã mais tresloucada e disponível.

!!! © Angela Costa

Na apresentação de Myth Takes surpreendeu especialmente a presença de uma voz negra (distinção feita para se perceber a profundidade da voz) que veio trazer a palco a carga soul que se faz sentir no último disco dos !!!. A tal vocalista teve desempenho superior quando os !!! mostraram a fabulosa “Heart of Hearts”, o melhor tema de Myth Takes. “Must Be The Moon” foi outro momento alto, também do último disco dos !!!. Curiosamente, Louden Up Now esteve bastante distante do palco. De qualquer das formas, a maneira como os !!! foram engatando uns temas nos outros fez com que a actuação, em alguns momentos, se tornasse numa espécie de rave. Pela madrugada dentro, nem sequer as deficiências em termos de som tiraram o brilhantismo ao concerto daquela que é actualmente a melhor banda ao vivo do universo.
· 13 Jul 2007 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net
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