Dance Station
Estação do Rossio/Coliseu, Lisboa
12 Jul 2007
O Dancestation foi um festival de um dia só, demasiadas horas dedicadas à música de dança, das sete da tarde quase até às cinco da manhã. Dividido entre o Coliseu dos Recreios e a Estação do Rossio, locais que não são assim tão longe mas também não são assim tão perto um do outro, o seu público podia escolher entre os dois sítios, caso pagasse mais para tal, ou só um, caso pagasse menos. O seu maior problema foi a sua extensão, não podendo os pagantes de apenas bilhete para o Coliseu sair de lá, desde as oito e meia da noite até às quatro e meia da manhã, oito horas, muito mais do que é fisicamente possível aguentar, ainda por cima a dançar. A melhor solução era um passe para os dois sítios, mais caro, mas que possibilitava mais concertos e uma maior mobilidade.

A estação estava bem organizada, com casas-de-banho suficientes para todo o público, colunas tanto junto ao palco quanto cá atrás – uma óptima ideia, aliás -, o que dá um som bem melhor que o do Coliseu, onde os concertos sofreram bastantes vezes por isso. No Coliseu, como sempre, a proibição de fumar não foi respeitada por ninguém, uma das maiores faltas de respeito do público português, que acontece em todo o lado demasiadas vezes e devia parar.

© Francisco Nogueira


!!! (Coliseu)

Nic Offer, vocalista dos !!!, atirou uma vez um piano de cauda para dentro de um rio, com os seus amigos por trás a cantar “What the World Needs Now” de Burt Bacharach. Em palco no Coliseu, Nic Offer não fez nada disso, mas trouxe aquilo que traz sempre: uma voz medíocre mas enérgica e movimentos e passos de dança muito melhores do que pensaríamos pedir a um branco. Calções curtos, t-shirt e cabelo encaracolado quase num afro, Offer era o maestro de uma banda que mistura o funk com as guitarras Sonic Youthianas e dá uma festa extremamente dançável. A expressão "animal de palco" parece ter sido inventada apenas para ele.

Queixou-se por estar a tocar às 8 e meia da noite, algo que, segundo ele, não lembra a ninguém do mundo. O que é estranho, visto ter sido até antes que os !!! se estrearam em Portugal, no festival de Paredes de Coura de 2005. Muito mudou desde aí, têm um culto cada vez maior por cá e, ainda por cima, um novo disco. Myth Takes tem mais e melhores canções que Louden Up Now e !!! e é um disco muito mais consistente. Funciona estupidamente bem ao vivo, especialmente pela adição de um novo elemento: Shannon Funchess. É uma cantora da cena de Brooklyn que já cantou com muitas outras bandas, tendo até participado em Young Liars, o primeiro EP dos TV On The Radio.

Funchess entra em palco como uma dançarina, de calções e top, mas depois começa a cantar. A voz dela funciona bem naquele contexto, às vezes aproximando-se de registos que outras cantoras negras trouxeram aos produtores de alguma da mais manhosa música de dança dos anos 90, só que em versão boa. A banda é sempre boa ao vivo, havendo a espaços quatro percussionistas em palco (Offer incluído), o groove do baixo, a batida constante e a distorção das guitarras são elementos que funcionam muito bem, com ou sem a voz semi-cantada e semi-rappada do vocalista e o complemento melodioso de Funchess. O concerto não chega sequer a uma hora (ficaram dez minutos por preencher, mas Offer confessa depois do concerto que acha que tocam sempre demasiado tempo).

!!! © Francisco Nogueira


Air (Coliseu)

Os Air são dois e lançam álbuns desde o clássico Moon Safari (que aguentou os anos melhor do que devia ter aguentado) de 1996. Têm um disco deste ano, mas ninguém ligou muito a isso. Ao vivo, Nicolas Godin toca guitarra e baixo e canta com um vocoder, enquanto Jean-Benoît Dunckel toca teclados. Têm, a ajudá-los, outro teclista extra e um baixista/guitarrista. A banda é competente, mas isso não impede o aborrecimento geral que é um concerto dos Air. Godin chega a cumprimentar as pessoas com vocoder, algo que é bastante irritante, não chegando a níveis de Peter Frampton a falar com guitarra, mas mesmo assim irritante. Talkie Walkie, disco de 2004, tem várias canções que funcionam bem ao vivo, mas são as partes mais memoráveis do primeiro disco que funcionam melhor e obtêm melhor recepção do público. A linha de baixo de “La Femme D’Argent”, de Moon Safari, é um achado em qualquer lado do mundo, e funciona muito bem ao vivo para fechar um concerto.

Air © Francisco Nogueira


Chemical Brothers (Estação do Rossio)

Os Chemical Brothers podem não ser os maiores fazedores de discos da actualidade. Nem sequer de singles. Nem sequer os melhores produtores de música de dança de qualquer era. Mas o duo, que vivia obcecado pelos Dust Brothers, lendários produtores de obras-primas da pop como Paul’s Boutique (dos Beastie Boys) ou Odelay (de Beck) e que, por isso, roubou-lhes o nome, tendo depois visto que era melhor mudar para Chemical Brothers, faz tudo em grande. As batidas são grandes, altas, incontornáveis, como também o são os samples, a entrada em palco, as imagens que os LEDs atrás dele mostram e a parafernália de máquinas que para pouco ou nada servem para alem de efeitos cénicos que existem atrás dele.

Chemical Brothers © Francisco Nogueira
Depois de uma introdução demasiado longa em que nada se passava, aborrecida como tinha sido a introdução dos Air umas horas antes no Coliseu, entram os hits de “Galvanize”, bem como a batida e a voz samplada do rapper Q-Tip. O público passa-se e a estação de comboios do Rossio, bem composta mas meio vazia – não parecia ser esse o objectivo do festival, nem devia ser, a estação é demasiado grande para estar completamente cheia, o que faria o ar irrespirável -, ilumina-se e é impossível negar o que se passa. Mãos ao ar e gente a dançar. “Golden Path”, talvez a melhor canção de sempre do duo, especialmente por culpa dos Flaming Lips, com quem foi feita, é algo estragada quando uma batida grande lhe é adicionada, o que tira alguma da magia. Mas as passagens e a fluidez com que tudo é feito compensam quaisquer desvios.

O maior trunfo dos Chemical Brothers é a incontornabilidade do seu espectáculo ao vivo. É óptimo, bem pensando, bem feito. A dada altura tudo pára, mas a banda volta para um encore, demorando demasiado tempo. Tudo acabada com um teclado oscilante tocado por um deles que acaba por cima de uma das máquinas que estão atrás do duo. As pessoas aplaudem e saem aos magotes.

Digitalism (Coliseu)

Os Digitalism são mais uns de um género que tem vindo a ganhar proeminência no último ano. Chamam-lhe blog house e é um género que revisita tudo aquilo que os Daft Punk trouxeram ao mundo com o seu Homework em 1996. Nomeadamente o uso de sintetizadores e samples alterados de coisas diferentes como riffs de guitarra rock em temas house. Era isso que os Daft Punk queriam dizer quando chamaram “Rock’n’roll” a uma das faixas do disco. Faz sentido, então, que, num set ao vivo dos Digitalism, eles ponham um pouco de “Da Funk”, clássico desse disco entre as suas faixas.

São um duo alemão que lançou Idealism este ano, num ano pautado também pelos lançamentos dos Justice – que parecem ter mais legitimidade que todos os outros para fazerem o que fazem, visto serem franceses e a sua editora ser do manager dos Daft Punk – ou Simian Mobile Disco. Um faz pouco mais que tocar uma mini bateria electrónica e o outro lança batidas e samples a partir do seu portátil. Há sintetizadores e atrás deles projecções a imitar LCDs cujas letras, quando juntas, perfazem a palavra “Digitalism”.

Digitalism © Francisco Nogueira
Mais ou menos uma hora para fechar um festival de quase nove horas, e é surpreendente como muita gente ainda aguentou tempo suficiente para vê-los e para dançar. O Coliseu não esteve nunca completamente cheio, mas, tal como a Estação do Rossio, estava bem composto, com gente a dançar, até naquela hora tão tardia. Tratar o house como o rock’n’roll pode já ter sido feito há muito tempo, mas continua a fazer sentido em 2007.
· 12 Jul 2007 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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