5ª Festa do Jazz
Teatro São Luiz, Lisboa
11-12 Mai 2007
A quinta edição da Festa do Jazz abriu com o pianista João Paulo. O autor do disco “Memórias de Quem” (edição Clean Feed) apresentou-se a solo e deu um belíssimo espectáculo inaugural. Partindo de temas tradicionais (portugueses e sefarditas), o pianista extraiu-lhes a melodia e reinventou a música em momentos de improvisação brilhante - as interpretações de “Mi Alma”, “Durme”, “Memórias de Quem” ou “Malhão Triste Malhão” foram de uma beleza imensa. Seguiu-se a cantora Maria João que apresentou o seu mais recente disco “João”, que não conta com a participação do habitual pianista Mário Laginha. A festa prosseguiu ainda para lá da meia-noite no Jardim de Inverno com o Zé Maria Quinteto.

João Paulo © Larissa Cuenoud

A big band LUME - Lisbon Underground Music Ensemble – actuou na sala principal às 19h de sábado. Dirigido por Marco Barroso, este ensemble combina o rigor e dinamismo das big bands de Duke Ellington, à criatividade libertária da Sun Ra Arkestra, com o groove do Weather Report. As composições são assombradas pelo espírito louco de Frank Zappa e a interpretação deste grupo, que inclui alguns dos mais notáveis instrumentistas radicados em Portugal (Eduardo Lala, Jorge Reis, José Menezes ou João Moreira), remete para uma ideia de contemporaneidade, poucas vezes explorada.

O Trio de Afonso Pais apresentou o seu novo disco “Subsequências”, ainda a aguardar edição. Acompanhado por dois pesos pesados do jazz nacional, Carlos Barretto no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria, Pais começou o concerto ao piano. Depois passou para o seu instrumento natural, a guitarra eléctrica, e foi apresentando as composições que fazem o seu novo trabalho, integrando algum material improvisado. A cantora Joana Machado surgiu na condição de convidada (a substituir Edu Lobo) e acompanhou o trio em duas canções: “Considerando”, um original de Lobo, e “Roda Dentada”, original de Pais que também faz parte do seu disco “CRUde” da cantora.

Trio de Afonso Pais com Joana Machado © Larissa Cuenoud

Seguiu-se o Quinteto de Nélson Cascais, que apresentou o disco “Nine Stories”. Reunindo alguns dos bons músicos radicados em Portugal, para além do líder contrabaixista, fazem parte do grupo: Pedro Moreira (saxofone tenor e soprano), André Fernandes (guitarra), Jesse Chandler (piano, piano eléctrico e órgão) e Bruno Pedroso (bateria). Com um som cheio e quase sempre orgânico, o grupo mostrou bom entendimento e orientação colectiva. Para além dos temas já conhecidos foram ainda apresentados dois originais. A noite acabou com a actuação do Sexteto de Jazz da ESMAE no ambiente mais descontraído do Jardim de Inverno.

Sexteto de Jazz da ESMAE © Larissa Cuenoud

O Quarteto de Sei Miguel actuou ao fim da tarde de domingo. Esta proposta, altamente contrastante com a maioria dos projectos que passaram pela Festa, terá sido a menos consensual mas foi certamente das mais criativas. Alternando texturas rítmicas (Pedro Lourenço, César Burago) com os fraseados pessoais do pocket trumpet (Miguel) e trombone (Fala Mariam), foram sendo construídos jardins sonoros próximos dos registados no álbum “The Tone Gardens” (Creative Sources, 2006).

A actuação do Quarteto de Carlos Martins com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa foi outro dos pontos mais altos da Festa do Jazz. A óptima interacção entre o quarteto jazz e a orquestra, fruto dos arranjos de Bernardo Sassetti, encorpou luxuosamente as composições de Martins. Se o objectivo parecia à partida demasiado ambicioso – mostrar os pontos comuns entre fado, morna e choro – recorrendo a dois universos distintos (clássica e jazz), a sua execução demonstrou um projecto sólido e “comovente”, para usar a expressão de Rui Vieira Nery.

O Ensemble Festa do Jazz reuniu em septeto alguns dos bons músicos nacionais a interpretar originais de autores lusos e o resultado também foi positivo. Pleno de dinamismo, o septeto mostrou intensidade em cada interpretação. E de entre as diversas composições destacaram-se os temas de Mário Delgado, a homenagem “George Harrison”, e de Carlos Bica, o enérgico “Deixa P’ra Lá”.

O novo Quarteto de André Fernandes encerrou as festividades na Sala Principal e mostrou a sua música que se moveu entre as ambiências paisagísticas do Pat Metheny Group e um balanço mais enérgico. Pelo meio houve a actuação surpresa de Tiago Maia, cantautor a merecer atenção, e ainda pudemos ver Mário Laginha no piano eléctrico Fender Rhodes. Depois de anunciados os vencedores do concurso de escolas, a festa encerrou no Jardim de Inverno com Vânia Fernandes & Júlio Resende Quinteto. Demonstrando diversidade de propostas e abertura estilística, a festa do São Luiz mostrou estar no bom caminho para se estabelecer como o grande ponto de encontro da comunidade jazzística lusa.
· 11 Mai 2007 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
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