CAVEIRA / Ghost
Lux, Lisboa
03 Mai 2007
Foram situações opostas aquelas que encontraram os dois nomes alinhados para a noite de passada quinta-feira no Lux, em Lisboa, numa iniciativa que organizou a Filho Único na sua segunda residência mensal naquele espaço nocturno. Os CAVEIRA, sinónimo de imprevisibilidade rock e ardor de estômago, encontravam-se obrigados a atrair até à sala os fantasmas quando, na maior parte das ocasiões, estão habituados a espantá-los com avultado violência (deci)bélica. Por outro lado, estreavam-se em formação duo por imposição da partida da guitarrista Rita Vozone (que não tem deixado de se manter activa noutros projectos). Ou seja, terreno novo e estranheza pela frente de uns CAVEIRA que, nos três movimentos prestados, partiram à descoberta de uma dinâmica que agora é muito mais do um diz mata, o outro diz esfola, alternada entre a guitarra epiléptica e radioactiva de Pedro Gomes e a inesgotável Pandora rítmica nas mãos de um marujo quebra-ossos chamado Joaquim Albergaria (que relembra a raiz hardcore num par de arremessos). Nos momentos de maior eficácia, os dois membros parecem aguardar mutuamente pelo que rabisca a agulha do sismógrafo instrumental de cada um, para, a partir daí, baralhar e contra-atacar com um padrão que pode ser naipe na “sueca” do improviso (o timing do baterista Joaquim Albergaria é sempre determinante nesse jogo). Engrossada a perturbada via telepática do trio que agora é duo, sente-se a falta de alguma mediação e coágulo que oferecia a guitarra mais enciclopédica de Rita Vozone. O mais memorável concerto de CAVEIRA há-de ser aquele que ninguém conseguirá racionalizar em palavras no dia seguinte.

Apesar de se julgar à partida que pudessem vir a sentir-se deslocados num espaço de glamour e luzes muitas como é o Lux, a instituição japonesa Ghost, polivalentes como poucos na abordagem ao rock que se assume multiplamente, encontrou, afinal, familiaridade ao espaço, se atendermos a dois factores improváveis: a banda de Masaki Batoh tem por hábito tocar em ruínas e deu por si numa zona de diversão nocturna convenientemente propícia ao arruinar de cabeças; os autores do excelente In Stormy Nights são também célebres pelas actuações em templos semi-desertos e a triste verdade é que o público que os recebeu não excedia a meia-centena de pessoas (e os Ghost mereciam bem mais que isso). Porém, cedo se percebe que não são os Ghost dos amplos espaços espirituais aqueles que subiram ao palco e o alinhamento escolhido para a noite – à excepção de um primeiro momento mais experimental – incide numa vertente mais assumidamente rock (às vezes, demasiado nostálgico). Quase como se esse tivesse resultado de uma votação levada a cabo pelos telespectadores do canal VH-1 tendo por base todo o catálogo disponível na venerável Drag City. Isso não é necessariamente mau quando se percebe com igual segurança que os Ghost serão incapazes de um concerto fraco, tal como se denota aos momentos mais explosivos do colectivo e à firmeza que oferece à guitarra o braço direito de um imenso Masaki Batoh que parece sinceramente empenhado em fazer da hora de concerto uma festa intimista (dada a escassez de pessoas no recinto). Fica a sensação de que o concerto dos Ghost assentou essencialmente no rock mais assimilável do reportório (“Motherly Bluster” e “Grissaile”, do mais recente disco, conheceram execuções muito favoráveis), suprimindo, dessa forma, o experimentalismo mais transcendental se descobre ao disco ao vivo Temple Stone ou algo de tão abismal como “Hemicyclic Anthelion” (que deve ser de pasmar ao vivo). Pode até ter sido esta a solução inevitável de uns Ghost limitados em termos de instrumentos em palco (imagine-se percorrer a Europa com aquilo tudo) e condicionados pela ausência de um sexto elemento que, ao que se sabe, amplificava o espectro musical da banda. Ausência que, aliás, foi o sentimento omnipresente da noite.
· 03 Mai 2007 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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