Ölga + Logh
Santiago Alquimista, Lisboa
08 Abr 2005

Bem vistas as coisas, tudo no universo Logh remete para o Sol. Nasceu com o primeiro disco, brilhou efusivamente por altura do segundo e recolhe agora ao horizonte, providenciando a vista panorâmica a que o titulo do mais recente álbum faz referência. Tem sido a alegoria solar aquela que os Logh vêm a explorar e suspeitava-se que, por uma noite, o Santiago Alquimista viesse a servir de Planetário à emoção e melancolia escandinavas. Tal viria a confirmar-se assim que a noite entrou nos carris.

© Hugo Rocha Pereira

Até lá, e muito por causa de algumas adversidades (técnicas e provocadas por quem não estava ali para o concerto), sucedeu-se um jogo de apanhada entre o alcance emocional da banda e a sintonia do público que ali estava para abraçá-lo. Convém esclarecer que o sustento de tão frágil atmosfera depende do silêncio e intimidade (talvez por isso o vocalista apelasse à calmaria do público para um último pacto de cumplicidade, já em encore). Ainda que envolto em alguma instabilidade, logo surgiu “The contractor and the assassin”, como que para provar que uma boa música jamais pode deixar de o ser, independentemente de contextos. E aquele que é um dos melhores argumentos da banda em disco serviu então de volte-face a uma prestação que podia até ter desabado, não fosse o triunfo do brio (comparável à campanha da selecção compatriota no Mundial de 94).

© Hugo Rocha Pereira

Em palco, o quarteto expande a sua formação a seis elementos - adicionados um teclista e um instrumentista polivalente muito discreto. Com isto, arrecada maior dimensão a música dos Logh, que, a bem da verdade, só tem a ganhar com essa dispersão. A banda da Bad Taste ganha asas quando se torna indeterminado o fim da instrumentalização que conduz os seus lamentos outonais. Como seria de esperar, a eminência da prestação ao vivo é em tudo favorável a que os suecos explorem o que de mais desprendido possa ser extraído ao material gravado em estúdio. Nesse aspecto, o recente Sunset Panorama (a predominar a prestação da passada sexta) revela uma banda indecisa entre o malhar no cravo ou optar pela ferradura, ou seja, combinar os três discos em hora e meia amplia esse um-do-li-tá entre a melodia sussurrada e o envolvimento cerebral. Foi isso que aconteceu no Alquimista, permitindo aos presentes (atentos) formarem uma percepção cubista dos Logh: à margem de um som em condições, inflectidos na melodia, empenhados em fazer das suas músicas narrativas abertas, irrepreensíveis no grande momento que foi “City, I’m sorry”.

© Hugo Rocha Pereira

Os Logh são sucedâneos, mas excelentes nesse papel. Daí que tenha feito todo o sentido que alguém no público solicitasse "Lookalike" aquando do regresso da banda ao palco para encore. Nem mais.

Por sua vez, os Ölga deram a provar apetitosa réplica do que o novíssimo What is pode vir a ser palco, assim que estiver calibrado e assente numa base mais personalizada. O cartão de apresentação “Money” é promissor e, para já, serve de pretexto a um magnífico (e muito Boogie nights) teledisco.

· 08 Abr 2005 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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