Josephine Foster / Remate
Cafe La Palma, Madrid
13 Jan 2007
Paz. Essa era a palavra de ordem do dia. Depois do ataque da ETA ao aeroporto de Barajas que tirou a vida a dois cidadãos equatorianos (e que colocou ponto final ao cessar-fogo anunciado pela banda terrorista há nove meses atrás), milhares de pessoas manifestavam-se nas ruas de Madrid com o lema “Por la paz, contra el terrorismo”. De acordo com alguns meios noticiosos, mais de 200 mil pessoas terão feito o percurso entre a Plaza de Colón e a Puerta de Alcalá. “ETA, escucha, así es como se lucha” e “Dónde están, no se ven, los obispos del PP?” foram alguns dos slogans mais repetidos, o último dos quais num sinal claro do desagrado da população pela ausência do PP, o partido mais importante da oposição. Mas nem o lado mais político da manifestação desviou as atenções do motivo principal: um pedido pela paz, algo que Josephine Foster certamente subscreveria se tivesse tido a oportunidade.

Josephine Foster © Ângela Costa

Horas depois Josephine Foster estava em cima do palco do Café La Palma a apresentar as suas canções de certa forma alusivas a um estado de concórdia. Começou sozinha na guitarra eléctrica (a libertar um som profundo e arrastado) e a encher a sala com a sua voz de tons operáticos. Mais tarde mudou-se para a harpa e recebeu um convidado (algo anónimo, aparentemente espanhol) que iria acompanhá-la nas guitarras. Se Josephine Foster mostrou dotes impressionantes na harpa em todas as ocasiões, o mesmo já não se pode dizer do convidado que na guitarra eléctrica andou entre o oportuno e o espalhafatoso. Tudo somado fez com que a actuação de Josephine Foster se tenha desenvolvido entre o mágico e o desastroso.

Josephine Foster © Ângela Costa

Se não lhe fez completamente bem a colaboração com o guitarrista, menos lhe terá feito a Josephine Foster a subida a palco de outras pessoas amigas ou conhecidas (para a harpa, para a guitarra eléctrica e para a percussão), que produziram momentos algo embaraçosos e caóticos. Os sentimentos comunais não renderam a Josephine Foster grande proveito musical, pelo que a actuação a solo não teria sido uma má escolha. No entanto, no que apenas a Josephine Foster diz respeito, urge registar o bom momento interpretativo em que se encontra.

Ao contrário daquilo que se poderia esperar, Remate foi o responsável pelo fecho da noite. O madrileno Fernando Martínez, um dos filhos da também madrilena Acuarela (a apresentar No Land Recordings, disco a ser editado em breve), mostrou canções seguras com riffs de guitarra eléctrica com solo seguro nos Estados Unidos, que ficam no ouvido. Nos primeiros momentos torna-se desde logo certo que é um dos projectos mais interessantes Made in Spain. Um cruzamento estável entre Bob Dylan e Sparklehorse, com alguns momentos bastante prazenteiros. Com banda ou sozinho, com a guitarra eléctrica, Fernando Martínez deixou boas indicações para um disco novo que está aí a chegar não tarda nada.

Remate © Ângela Costa
· 13 Jan 2007 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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