Linda Martini
Tertúlia Castelense, Maia
11 Nov 2006
Desde o seu primeiro lançamento, um EP homónimo, em 2005, que os Linda Martini foram apontados como uma grande esperança do rock nacional, classificação em grande parte conseguida através do boca a boca e da Internet. A chegada do primeiro álbum, Olhos de Mongol, constitui o primeiro grande teste a este epíteto e é um chamariz com força suficiente para aliciar o já razoável número de simpatizantes da banda aos concertos de apresentação do disco. Depois do Santiago Alquimista, foi a vez do Tertúlia Castelense servir para mostrar o longa-duração ao público do Norte.

Acerca da sonoridade praticada pelos Linda Martini pode-se dizer muita coisa: fazem algo que se pode classificar de rock experimental, que a tempos faz lembrar o jogo de guitarras dos Interpol (mas mais violento e menos melódico), um lado mais progressivo quase Pink Floydiano, e uma vertente mais instrumetal (próxima de bandas como Pelican, Isis ou red Sparowes). Há claras referências aos altos e baixos de filosofia pós-rock, mas as estruturas musicais usadas são mais desconstruídas e próximas da improvisação do que a média das bandas que se abrigam nesse guarda-chuva estilístico. Em certas alturas, os Linda Martini fazem muito barulho, mas não é nada que soe excessivo ou aborrecidamente experimental. Os limites do rock livre, como praticado por bandas nacionais como CAVEIRA, Loosers ou Frango, nunca são atingidos. Para a coesão das canções torna-se decisivo o papel da secção rítmica (guiada por um explosivo Hélio Morais na bateria), que dá solidez aos devaneios das três guitarras do grupo.

Linda Martini © Tertúlia Castelense

Porém, mais importante do que tudo isto é referir a energia catártica e a força indomável que provém dos instrumentos destes cinco músicos, quando em acção. As suas composições “levantam voo” numa fase bem embrionária, mas depois não só não aterram como se mantêm em alta rotação. E ainda para mais, a banda parece divertir-se em palco: são frequentes os duelos entre músicos, nomeadamente entre Pedro Geraldes e André Henriques, o guitarrista-vocalista, chegando a fazer tombar uma coluna de monição. Uma boa parte do reportório dos Linda Martini é completamente instrumental ou perto disso, mas há canções em que a voz (com letras em português) desempenha um papel importante, como em “Estuque”. Há ainda “Partir para ficar”, com um sample de “FMI”, de José Mário Branco (a soar muito a Mão Morta, assim como certas sucessões de acordes), e “O amor é não haver polícia”, declaradamente rock ao estilo Sonic Youth, riff de baixo dominante e regime semi-spoken word. E “Amor Combate” será sempre um tema emblemático e vencedor ao vivo. O concerto seguiu o alinhamento de Olhos de Mongol, mas no final o destaque foi para os temas do EP: “Lição de voo nº 1” trouxe uma apaixonada prestação vocal e uma longa jam; “Efémera” encerrou o concerto já em clima de descompressão.

Linda Martini © Tertúlia Castelense

Como balanço, só se pode dizer que o concerto correu muito bem à banda de Queluz: uma sala mais do que composta, boa recepção do público, uma performance cheia de garra e sem erros visíveis. Só as cãibras do baterista Hélio Morais (que obrigaram a uma pequena pausa já perto do fim do espectáculo) podem constituir razão de queixa numa autoavaliação que o grupo faça da sua performance.
· 11 Nov 2006 · 08:00 ·
João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net

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