Puny / Old Jerusalem
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
29 Set 2006
Há algo de especialmente bonito nas canções de Francisco Silva e na forma como as interpreta. Em disco, há momentos realmente arrepiantes. Repare-se no caso de “Earlier the Lake Today”, de Twice the Humbling Sun. É uma canção belíssima, com uma letra sobre um quadro de dois amantes. Em disco, o falsete é utilizado para uma maximização do impacto emocional da mesma, sendo a guitarra acústica e a voz apenas vagamente acompanhada por efeitos sonoros futuristas de teclados - que não soam nada mal, surpreendentemente - que só se ouvem ao longe. Ao vivo, há algo que falha, não se sabe bem porquê.

Talvez seja o facto de haver baixo e bateria - nada, mas nada maus noutros casos -, há ali algo que tira a intimidade da canção, ou talvez seja impossível transpor aquilo para um concerto, não há maneira de saber. Isso acontece noutros casos, e não é mau de todo, mas falta sempre algo.

O concerto da Galeria Zé dos Bois servia de apresentação de Split, um EP conjunto de Old Jerusalem, Bruno Duarte e Puny. Mas Bruno Duarte foi cancelado. Assim, dois concertos curtos, tendo de um lado o indie rock dos anos 90 de Puny, já muito batido mas pontualmente interessante, com um baixo demasiado alto que estragava tudo e, em certos casos, com piscares de olhos à bossanova ou sonoridades parecidas, e do outro a folk de tradição americana de Old Jerusalem, com fingerpickin’ e uma das únicas pessoas portuguesas que escreve letras boas em inglês. Dois concertos curtos para uma sala mais ou menos composta mas acolhedora, com gente sentada no chão e uma temperatura amena.

Puny é o projecto do barbudo Ricardo Ramos, músico de Viseu que também edita música sob o nome de An Octopus in the Bathtub. É fã, a julgar pela sua música, de Sebadoh, Pavement e Dinosaur Jr., e quer voltar a esses tempos. Não há nada de errado ali, a não ser os problemas de som do baixo - que resvala algumas vezes para a Nova Iorque dos anos 80, dos brancos a descobrir a música dos negros -, a sua guitarra soa bem, a voz podia nem estar lá - não se percebem as letras -, mas há riffs interessantes, pontualmente, e desbundas mais livres, como no final. E é basicamente isso, num concerto curto de uma banda que ainda não soa assim tão bem junta - parecia, demasiadas vezes, uma simples banda de garagem -, mas que com o tempo talvez irá ao sítio.

Francisco Silva apresentou novas canções, só uma de Split e outras do novo álbum que será editado em 2007 pela Bor Land, com destaque para uma que acaba com linguagem algo baixa - “dick” e “tits” -, algo que o homem de cabelo comprido e óculos de massa, com ar frágil, consegue cantar sem soar reles. Tirando isso, as canções de Twice The Humbling Sun soam bem ao vivo, mas há sempre algo que falta, talvez seja a produção de estúdio ou algo que falta a Francisco Silva ao vivo. Não que haja problemas com a voz - tirando o facto de mudar uma ou outra melodia de voz de vez em quando -, ou que o baixista e o baterista sejam maus, mas há uma magia que não consegue estar lá. Ainda assim, as canções falam por si e não há maneira de serem estragadas. Parece, contudo, que ver Old Jerusalem ao vivo tem sido sempre, desde a edição de April, algo confuso: é bom mas podia ser melhor. E fica-se sempre com essa sensação.
· 29 Set 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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