Richard Youngs + The Hototogisu
Teatro Passos Manuel, Porto
25 Fev 2005

Há músicas que escapam às coordenadas que habitualmente lhes imputamos. Dizemos que queremos ser surpreendidos, mas quase sempre a música serve para confirmar expectativas, validar estilos de vida e estéticas predefinidas. Quando nos falta a melodia, o hook e a estrutura (seja ela a da canção pop ou a do free jazz) reagimos com estranheza. E, contudo, há um mundo enorme de artistas que desafiam estas normas com a naturalidade própria dos convictos. Richard Youngs, Matthew Bower e Marcia Bassett (aka The Hototogisu) fazem parte desse mundo.

Richard Youngs © Carlos Oliveira

Youngs, um dos maiores nomes da freeform inglesa, é um daqueles artistas solitários que desafia as gavetas estilísticas. Ora folk, ora noise, ora psicadélico, sempre minimalista, Youngs vem traçando um percurso feito de gravações caseiras, recorrendo a instrumentos como um kazoo, um pequeno órgão, uma guitarra, um espanta-espíritos ou sons de outras origens. Pela primeira vez desde uma actuação na nova-iorquina Knitting Factory em meados dos anos 90, Youngs apresentou Advent, considerado por Alan Litch um dos 10 melhores discos minimalistas de sempre.. A voz de Youngs é esta estranha impossibilidade de calor e obliquidade numa só – melódica por natureza, mas a fugir à melodia como qualidade estética. Como um ancião, grave e amigo ao mesmo tempo.
A voz ocupa o centro das atenções. Num tema, um acorde em guitarra eléctrica prolongado até ao infinito através de um e-bow serve de fundo à solidão de Youngs. Em “Garden of stones II” (tema incluído na edição limitada Garden of Stones, exclusiva para os concertos em Portugal), um Youngs acapella assume o papel de um velho cantor folk, numa declamação de longos minutos, circular, repetitiva, adicionando novos elementos subrepticiamente.

The Hototogisu © Carlos Oliveira

Torna-se complicado descrever o concerto dos The Hototogisu sem recorrer a metáforas. Explico: a música que o duo composto por Matthew Bower (lenda da música livre inglesa à frente de projectos como Total, Skullflower e Sunroof!) e Marcia Bassett dos nova-iorquinos Double Leopards é um bloco contínuo de ruído, pleno de texturas, acção, mundos em rodopio. Durante mais de meia hora (a noção do tempo não se coaduna com os The Hototogisu), sem interrupções. É o centro da terra em ebulição, massas de fogo em autofagia, um vórtice com todos os sons subterrâneos e estelares em conflito. Um buraco negro e um túnel sem fim.
Matthew, artífice do ruído, arrancava sons ao ar, com movimentos bruscos do microfone e moldava-os através de efeitos ou aproveitando o feedback dos amplificadores. De joelhos perante vários efeitos e uma guitarra deitada, Marcia, deusa das tempestades, explorava o manancial de brinquedos, usando a voz, uma campânula ou uma ventoinha como inputs de som.

Seja nas melodias circulares e oblíquas de Youngs, ou no barulho total e com múltiplas texturas dos Hototogisu, a música livre teve mais uma vez espaço em Portugal. É deixá-la ficar.

· 25 Fev 2005 · 08:00 ·
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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