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The Weatherman Cruisin' Alaska

2006
mono¨cromática


Cruisin’ Alaska é um disco esquisito. Não pela música que contém, essa é facilmente apreciável e atingível, manifestamente pop – e boa pop, devo adicionar -, mas pelo que o rodeia. Para já, é um tipo de Gaia – Alexandre Monteiro - com um corte de cabelo de gosto duvidoso (peço desculpa, mas, a julgar pelas fotografias no Y – suplemento do Público - e no 6ª – suplemento do Diário de Notícias -, é de gosto duvidoso), e, depois, é editado pela mono¨cromática, editora de música electrónica esquisita. Não estamos perante um disco de música electrónica esquisita, mesmo estando perante um disco com uma forte componente electrónica (pior expressão de sempre, mas não menos adequada por isso) mas sim de um disco de britpop revista por alguém do século XXI.

Para quê reviver a britpop, que já morreu há que tempos, ainda nos anos 90, quando o “movimento” original era, já de si, uma revisitação de sons do passado? Ainda para mais, as tentativas de reanimação da senhora não têm corrido muito bem (a geração pseudo-indie nova britânica tem apenas meia-dúzia de boas canções e milhares de grupos a quem nunca devia ter sido dado tempo de antena, quanto mais atenção nos media). Mas Cruisin’ Alaska tem algo de próprio, quanto mais não seja pela óptima produção e pelas canções fortes (que justificariam qualquer suposta falta de originalidade).

Se existisse justiça neste espaço vagamente rectangular a que chamamos Portugal, Weatherman seria uma estrela, como Gomo é vagamente. Ainda é cedo para avaliar os efeitos nocivos de uma exposição prolongada aos temas de Cruisin’ Alaska, mas até agora tudo tem corrido bem e ainda não existe nada tão irritante quanto a voz alterada para ser agudíssima de “Feeling Alive”. Claro que, nestas coisas, o sucesso às vezes demora muito tempo, e não se sabe se daqui a um ano algum dos temas de Cruisin’ Alaska aparecerá num anúncio de um banco ou algo parecido. Para já, o artista parece ter escolhido a estratégia de Gomo, tendo lançado como primeiro single do disco “People Get Lazy” (bonito dueto com voz feminina, as outras vozes que aparecem no disco, quase animadas, são todas de Alexandre Monteiro), uma canção menos apelativa do que qualquer outra do disco, só para chamar a atenção de alguns, para depois, quem sabe, tomar de assalto o mundo. Esperemos que sim, porque o disco merece-o, e que não, porque nós não merecemos que o tipo se torne irritante.

Para continuar a comparação com Gomo, Cruisin’ Alaska é de uma editora independente, Best Of é de uma major, Cruisin’ Alaska foi feito praticamente em casa, produzido por Pedro Chamorra, e soa muito mais humano, muito melhor, Best Of foi produzido por um dos produtores mais requisitados de Portugal – Mário Barreiros – e soa, francamente, muito pior, mais artificial, com teclados que deviam ter ficado nos anos 90.

O que é que os rapazes da mono¨cromática, então, viram em Alexandre Monteiro? Para já, há uma fixação pelos Beatles que não se traduz da mesma forma que a fixação pelos Beatles dos Oasis ou, mais recentemente, de Devendra Banhart, se traduzem. Seja pelo nome da décima faixa, “Down to the Bits”, tirado de “Happiness is a Warm Gun” dos Fab Four, ou pelo cravo (“japonês”, eufemismo para “o artista não tem dinheiro suficiente para usar um verdadeiro, pelo que é apenas emulado”) e a cítara indiana (também japonesa) em “Looking for Guarantees”, por certas melodias (óptimas) que aparecem aqui e ali ou pelo cuidado dado à escrita de canções suaves, gentis, doces, os Beatles estão cá. Tal como os Beach Boys, nas harmonias de voz. Mas Monteiro não está a copiar ninguém, está a pegar nos elementos que lhe foram dados pela História e a usá-los como quer. Não há mal nenhum nisso. Assim, temos um disco de pop solarenga fresca, mas sempre com desbundas cósmicas (electrónicas) aqui e ali (brincadeiras em quase todas as faixas, ouça-se a introdução de “People Get Lazy” ou virtualmente qualquer faixa do disco), para além das batidas sempre electrónicas. E Monteiro não tem medo de acabar as canções em modo a cappella ou de recorrer ao “lalala” ou “shalalala”. Louvemo-lo por isso.

Pretty girls make me cry”, o rapazinho confessa em “The Meaning of Soul”. Fazem isso a todos, Homem do Tempo, fazem isso a todos. “So why am I being denied?” Não sei. Só sei que tanto pode estar a voz e o respirar do homem como batida lá para o meio de “Keep Up the Good Vibes”, com a seguir pode vir uma bela guitarra acústica dedilhada em “One of Us is the Observer”, onde o rapaz canta “Every shadow has a name / every name has a shadow / one of us is the observer / one of us is real”, com piano vagamente honky-tonk no refrão e tudo, algo que não era suposto resultar mas até resulta. Bom.

Talvez o riff principal de “If You Only Have One Wish” (o que aparece antes do refrão é quase perfeito, e também muito beatlesco) soe datado, talvez o piano de “Intermission (Lead Me Out”) devesse ter ficado em Madchester, talvez a pronúncia do artista não seja sempre a melhor (nota-se, e muitas vezes., que o rapaz é português), mas Cruisin’ Alaska é um disco vencedor. Tal como “If You Only Have One Wish” epitomiza, “If you only have one wish, [better] make it big” (frase pedida emprestada a Timothy Leary). The Weatherman, aliás, Alexandre Monteiro, teve um desejo, gravou Cruisin’ Alaska e fê-lo em grande. Da música à embalagem. É preciso é que o sucesso, se chegar, não suba à cabeça do rapaz. Isso seria um desperdício de talento, e o que é que aconteceria se alguém mil vezes mais talentoso que o Sr. Gomo ganhasse um ego como o dele? Seria uma desgraça.


Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
13/02/2006