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Galo Cant'ás Duas Cabo Da Boa Esperança

2019


Faz sentido que o primeiro som que escutamos em Cabo Da Boa Esperança seja o do apito de um barco, prestes a zarpar em direcção a mar e terra desconhecidos. Este é, afinal, um disco sobre descobertas, e não apenas no sentido poético da coisa. É que ao chamar-lhe Cabo Da Boa Esperança, os Galo Cant'ás Duas parecem ter deixado para trás quaisquer tormentas em relação à rota sonora a seguir, embarcando sem medos naquilo que querem fazer.

Da mesma forma que uns Memória de Peixe ou uns Galgo fazem rock melódico com um travozito de dança, os Galo Cant'ás Duas parecem seguir a mesma fórmula, quais corsários pilhando tudo aquilo que encontram, seja ele punk ou prog. Não há tesouros menores quando se é pirata. E se isto parece querer afirmar que a dupla peca por originalidade, nada mais errado: todos os miúdos de bem sonham ser piratas. A transgressão sabe muito melhor que o apoio de um monarca.

Cabo Da Boa Esperança não chega, no entanto, a ser viagem (com o toque aventureiro que se costuma dar a essa palavra): é mais o sopro do vento nas velas, o leme balançando de um lado a outro, a gaivota que assinala terra ou a alga flutuando no azul. É um disco feito dessas pequenas coisas que temperam a viagem em si, dotado de boas canções, como "Guia Do Fazer" e, particularmente, "Sobre Um Tanto Medo" (aquela guitarra, caraças). É um disco que nos conta, sobretudo, o quão a viagem poderá ser espectacular. Da próxima, zarparemos definitivamente com eles.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
23/01/2019