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The Twilight Sad It Won/t Be Like This All The Time

2018
Rock Action


Ao longo dos últimos anos de crítica musical, associar a sonoridade de uma determinada banda aos Cocteau Twins (em sentido elogioso ou pejorativo) tem sido quase lugar-comum. Há reverb? É Cocteau Twins. Há a sensação de estarmos a flutuar no éter? É Cocteau Twins. Não se percebe a ponta de um corno daquilo que o/a vocalista canta? É claramente Cocteau Twins, e assim sucessivamente. Acrescente-se isso tudo aos Twilight Sad, que até têm outra coisa em comum com a banda de Elizabeth Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde: também são escoceses.

No entanto, ao passo que os Cocteau Twins eram ligeiramente mais... celestiais, os Twilight Sad assentam os pés no chão. A sua música provém do lugar romântico ocupado por tantos e tantos góticos, cabeça encostada ao coração e guitarras atiradas não em direcção à atmosfera, mas aos nossos rostos - porque é difícil dar uma bofetada a alguém se se estiver a flutuar. Isso, e cortar os pulsos devido à dor sentida nesse mesmo coração, a mesma que James Graham entoa repetidamente no final de "Let's Get Lost".

Mantendo a mesma toada nublada dos seus trabalhos anteriores, os Twilight Sad regressam aos álbuns com uma obra onde, às guitarras, aliam ainda o ruído quase hipnótico dos sintetizadores, criando peças que não deixam antever qualquer espécie de luz, não no mundo, mas perto de nós - quase como se explicassem a melancolia em canção. O que não quer dizer que essa luz não exista; apenas aparenta ser menos apetecível que o isolamento e a lágrima. Não é um local agradável onde se estar, mas é um local onde às vezes é preciso estar.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
11/01/2019