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Yves Tumor Safe In The Hands of Love

2018
Warp Records


O medo da realidade de extremos. Redes sociais. O pânico irracional. O terror do quotidiano. (Em "Noid" ouve-se Sister, mother, brother, father, Have you, have you looked outside? I'm scared for my life). Depois há o desconforto e o instinto em procurar aconchego, porto seguro – e chorar, aliviar as mágoas. Assomam-se as hesitações sobre pequenas grandes coisinhas. Problemas de confiança. As inseguranças em relação ao futuro. Apesar da panóplia tecnológica que muitos dominam na ponta dos dedos desde bebés, não controlam adversidades. O cinismo em relação às relações interpessoais. Obcessão pela imagem.

As letras e a música de Safe In The Hands of Love não podiam espelhar melhor uma era – a dos millennials; não, a era de nós todos. (Em "Economy of Freedom" ouve-se Baby, they're so tired next to me, They're so tired, Won't you lie next to me, Through the fire, We can call it something, It's so true, Won't you cry next to me? ). Nervosos. Tristes. Medo de não ter o emprego sonhado. Há tudo e o seu contrário. É ainda uma era de narcisistas. Ambiciosos. Uma era de mentiras. O realismo das mentiras. Sentimentos ambíguos. O absurdo dos politicamente correctos. De justiceiros sociais. Liberais?

Terror e beleza. (Em "Licking an Orchid" ouve-se Honestly, sometimes I get scared, Lost in my own mind, trying to find my self, In the middle of this contagious world). Há uma realidade. Complexa. Injusta. Abrasiva. Ela é inerente a Yves Tumor. Artista, regurgita-a. Nisto, uma batalha de géneros – r&b, rock, pop, hip-hop, bass, soul, industrial. É soturno. Nevoento. Mas também há melodias embaladoras. Sonhadoras. Mantos envolventes. Millennials também têm coisas felizes. Exigir um mundo melhor. Sociedade justa. As expressões são enviusadas. Safe In The Hands of Love é um bicho-de-sete-cabeças. Mas ambientados, percebemos, respeitamos e amamos. Isto é o hoje, nu, duro e cru. Com amor.


Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
20/11/2018