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Joćo Lencastre's Communion 3 Movements In Freedom

2018


No seu quinto disco como líder, e com aquela que é a terceira encarnação do grupo Communion, o baterista João Lencastre foca-se no formato simples de trio de piano. Se no passado Lencastre se fez acompanhar por músicos como David Binney, Thomas Morgan, Bill Carrothers e Phil Grenadier, desta vez volta a contar com a companhia de músicos de luxo: Jacob Sacks no piano e Eivind Opsvik no contrabaixo.

Quando este novo disco Movements In Freedom arranca somos logo invadidos por uma melodia que soa familiar: é a “Street Woman” de Ornette Coleman, numa pianada vertiginosa que dá um safanão. De seguida entra um tema mais lento, espécie de balada que se transforma, a primeira de uma sequência de três composições originais de Lencastre. E depois segue-se um leque improvisações, temas abertos onde os três músicos partem sem rede para entrelaçarem ideias num caminho comum.

Músico com um percurso sólido, nos últimos anos João Lencastre tem feito uma notória aproximação ao jazz mais aberto, à improvisação pura, com o baterista a colaborar com projectos e músicos como No Project (trio com João Paulo Esteves da Silva e Nélson Cascais), Eel Slap! (duo com Pedro Branco), Nau Quartet (de José Lencastre) e Rodrigo Amado, entre outros. Esta progressiva abertura está agora a reflectir-se na sua própria música, que ganhou em liberdade e exploração.

Neste novo disco o piano de Sacks assume o papel de principal condutor, definindo a música com a sua refinada elegância e sensibilidade. O contrabaixo de Opsvik fica na sombra, na marcação rítmica precisa, juntando-lhe uns pozinhos de lirismo e imaginação. E a bateria de Lencastre, além da impecável marcação, lança ideias, provoca de forma subtil, levando a música a seguir para diferentes direcções.

O trio Sacks/Opsvik/Lencastre desenvolve uma articulada comunicação a três, criando uma música que, nascendo sem rede, vai crescendo com as sugestões individuais, evoluindo para uma massa sonora una. Ao contrário do que muitas vezes acontece na improvisação livre, onde as vozes se atropelam num caos, aqui a música resulta sempre clara, cristalina, que evita caminhos óbvios mas encontra soluções, e seduz pela fluidez. Com uma sofisticação rara, este trio explora a beleza do jazz mais livre.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
10/09/2018