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No Age Snares Like A Haircut

2018
Drag City


Barulho pop e punkadaria: durante muito tempo, foi esta a melhor forma de descrever os álbuns dos No Age, de Weirdo Rippers a An Object. Álbuns esses que os firmaram como novas estrelas da mítica Sub Pop, figuras de proa do rock n' roll mais sujo do século XXI. Agora na Drag City, os No Age editam Snares Like A Haircut, disco que assinala um ponto de viragem na banda; sim, ainda há barulho pop, ainda há punkadaria, mas o tapete sonoro da dupla mostra-se agora melhor cosido. Há mais ideias e menos propensão para o caos - o que nem sempre é algo bom.

"Cruise Control" e "Stuck In The Changer" bem podem manter essa toada mais slacker que se sentia nos álbuns anteriores dos No Age, mas são mero fogo de vista; "Drippy", com as suas guitarras a pingar e cabeça enfiada no shoegaze, soa estranhamente adulta para uma banda como esta - não como se se tivessem cansado de ser felizes na sua adolescência, mas como se tivessem entrado numa nova fase das suas vidas. O que faz absoluto sentido: Randy Randall e Dean Allen Spunt, os dois membros que compõem os No Age, foram pais há pouco tempo.

Talvez por isso até haja momentos em que as guitarras são colocadas de lado, como o tema-título, quase kösmische, ou em que surgem mais polidas, como "Soft Collar Fad" ou "Popper". Infelizmente, nem essas servem para achar que Snares Like A Haircut merece muito do nosso tempo; basta uma mão cheia de escutas para perceber que, embora louvável, a progressão dos No Age parece ser um glorioso tiro ao lado. Ou talvez sejamos nós que estamos velhos.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
12/02/2018