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The Savage Morality Harbinger

2017


Para alguns, o noise não é apenas uma tábua de salvação. É também uma arma contra a opressão diária, feita pelo capital, pela autoridade, pela religião, pelos mass media, pela indústria pop. É uma enorme gosma na cara da sociedade, o vai-te foder! primordial, a única resposta possível a um mundo repleto ele mesmo de ruído; niilismo expresso em som. Será desse estado de espírito que provêm os Savage Morality, colectivo de "anarquistas industriais" de Bristol que se diz nascido das cinzas do underground.

Lamentavelmente, não é possível comprovar a veracidade do que dizem - a sua presença online limita-se a umas notas no Discogs e a uma página no Bandcamp. Por outro lado, essa ausência do "mundo real" - onde Facebooks, Twitters, Instagrams e quejandos dizem mais acerca da personalidade de uma pessoa do que um sorriso cara-a-cara - será certamente prova de que aquilo que dizem, e aquilo a que soam, é (a) verdade: a anarquia dá-se mal com carneiradas.

Em Harbinger, o noise chega-nos de uma forma electronicamente processada, não tão dura quando uns Whitehouse, por exemplo, mas com ritmo q.b. que nos permita designá-la por "industrial", e pontuada por alguns samples e/ou vozes não raras vezes incompreensíveis. A sua única falha é ser demasiadamente suave, i.e., elaborado, para que possa ser revolução. Essa quer-se caótica, estrondosa, sem poupar nada nem ninguém. Mas, como preparativo para a mudança, é mais que adequado.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
05/01/2018