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Leblanc / Vicente / Antunes / Ferreira Lopes A Square Meal

2017
Atrito-Afeito


Karoline Leblanc é uma pianista canadiana (n. 1975) que começou a sua ligação à música através da música clássica mas nos últimos anos tem desenvolvido o seu percurso nos terrenos da improvisação livre. Em 2016 editou o disco a solo “Velvet Oddities” e tem trabalhado em parceria com Paulo J. Ferreira Lopes (n. 1962), baterista português radicado no Quebec, que foi membro dos Ocaso Épico. A dupla é responsável pela editora Atrito-Afeito, que vem editando material - sobretudo CD-Rs em edições limitadas - desde o ano de 2013.

Recentemente, Leblanc vem alimentando uma especial ligação à cena improvisada portuguesa: participou no festival MIA (Atouguia da Baleia) e editou na Creative Sources um disco em parceria com o Lisbon String Trio (Ernesto Rodrigues, Miguel Mira e Alvaro Rosso). Esta ligação foi reforçada com a edição deste novo disco “A Square Meal” (Atrito-Afeito, 2017), com a dupla luso-canadiana a juntar-se a dois músicos portugueses de créditos firmados: o contrabaixista Hugo Antunes e o trompetista Luís Vicente.

Se Antunes e Vicente habitualmente navegam entre o jazz e a música livremente improvisada, neste caso a música assenta no mais puro free improv sem rede. O jazz também está lá, na forma como os temas são desenvolvidos, na interação entre os vários instrumentistas, vários elementos musicais utilizados, na herança Cecil Taylor. O disco arranca com o piano a lançar ideias, logo acompanhado pelo contrabaixo e percussão, de seguida a intervenção do trompete contribui para a combustão colectiva.

A música do grupo não se deixa apanhar, vive nesse permanente jogo de procura-encontro-desencontro. O principal destaque é o piano de Leblanc, quase sempre intempestivo, torrencial. Logo a seguir salienta-se o trompete de Vicente, muito interventivo, versátil e incendiário. Ainda que menos fulgurantes que piano e trompete, o contrabaixo de Antunes e a percussão de Ferreira Lopes não se deixam esconder. A dupla ocupa os espaços com inteligência, contribui para uma massa sonora equilibrada. O contrabaixo faz-se notar, contribuindo para a estrutura, por vezes servindo-se do arco sabiamente.

Ao longo de cinco temas, o quarteto luso-canadiano desenvolve uma música que, sem ter referências prévias, vai encontrado pontos de contacto, construindo a sua estrutura que denota solidez - apesar de maleável, em constante evolução. Entre encontros e fugas, crescendos enérgicos e fragmentos de puro lirismo, o quarteto Leblanc / Vicente / Antunes / Ferreira Lopes apresenta uma música viva.


Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com
12/09/2017