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Cacique 97 Cacique 97

2009
Footmovin Records


É natural a curiosidade em torno do colectivo Cacique 97. Não só pela frontalidade de se assumirem como a primeira banda nacional a dedicar-se de corpo e alma ao afro-beat, mas também por serem um super-colectivo onde militam os mais diversos genes culturais. De Moçambique a Portugal, não ignorando a obrigatória passagem virtual por terras nigerianas, a multiculturalidade de todas as personagens envolvidas é vital para que a música respire com responsabilidade a liberdade necessária para abraçar as diversas identidades e canalizá-las - num esforço sincero - para uma única frente.

Não será apenas elogiá-los pela dinâmica que demonstram como banda, porque é mesmo necessário reconhecer que na sua música há idéias válidas inspiradas na tradição do afro-beat (e algo mais para além do óbvio). Fela Kuti e Tony Allen são referências incontornáveis nesta música mesmo quando se pressente a portugalidade e as suas heranças no mundo africano. Já se havia notado essa mestiçagem musical quando os Buraka Som Sistema se deram a conhecer pela primeira vez e os Cacique 97 prosseguem essa missiva permitindo que se expanda, agora para além de Angola, a tão desejada e premente reconciliação cultural entre Portugal e as suas ex-colónias e a união participativa de músicos com diversas raizes e orientações estéticas.

Presentemente é Portugal e Moçambique, e a mesma geração de pessoas, num intercâmbio musical que une a fina nata que ambas as culturas têm para oferecer. Uns proporcionam o ritmo singular que Fela e Allan promoveram há mais 30 anos, outros compõem acordes exóticos que apenas a música popular moçambicana poderia dar, outros exploram a linguagem intervencionista, enquanto os mais desusados vão desbravando as excentricidades narcóticas do dub com o objectivo de abrir a mente à exuberância espiritual apenas disponível para uns quantos privilegiados Iorubas.

Os Cacique 97 apresentam-se com uma natural proficiência, dando a conhecer uma música ainda ignorada ou incompreendida em terras lusas. Produzem uma música inteligente e acessível sem desvalorizarem a herança do melhor afro-beat, fazendo mesmo questão com «Come From Nigeria» de esclarecer as origens deste som e qual a sua verdadeira natureza. E porque gostam e sentem o que África lhe proporciona - as cadências, as harmonias, os cheiros e os rituais ancestrais - estes senhores dão a ouvir o que de melhor lhes vai na alma. E nós, sinceramente, agradecemos. Portugal já merecia um disco assim.


Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
30/07/2009