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The Weatherman Jamboree Park at the Milky Way

2009
Poptones / Sublime Impulse


Elliott Smith não nos deixou a 21 de Outubro de 2003. Não. A pop mundial não perdeu um dos seus melhores trovadores das últimas décadas. Não. Elliott afinal está em Portugal, aliás, é portuguesíssimo da Silva. Ou Monteiro, de nome próprio Alexandre. A brincar, a brincar, esta podia ser uma boa maneira de apresentar um álbum muito sério. Quem tem muito de Elliott mas melhor ainda, tem muito mais. “Too much to mention” dirá Alexandre, como diz uma das suas músicas brilhantes. “I love you too much to mention except when you give me hope” canta. Exactamente. Ouvir e apaixonar-se por uma obra destas dá esperança e orgulho. Música portuguesa cantada em inglês com lugar nos ouvidos de qualquer pessoa no mundo que goste de boa pop.

A obra em questão chama-se Jamboree Park at the Milky Way e sucede a Cruisin’ at Alaska que em 2006 já tinha deixado bons indícios sobre este cantautor radicado no Porto. E se os portuenses são conhecidos por “tripeiros”, essa alcunha ganha outra dimensão com o revivalismo sonoro que vive na cabeça de Weatherman. “Tripeiros” são os que “tripam”. Jamboree Park at the Milky Way é isso mesmo, uma “trip”, das boas por sinal. Na companhia de músicos que Weatherman encontrou na Academia de Música de Espinho, onde gravou o próprio disco, soltam-se cordas, flautas e pianos atrás da voz cantada e da guitarra dedilhada com a mesma mestria dos grandes. Para viajar como o Elliott fez, entre ecos aqui e ali de Beatles, Beach Boys, Kinks, Zombies, Small Faces, Syd Barrett, ou dos eternamente esquecidos Big Star ou Stackridge. Ou dos igualmente maravilhosos e mais recentemente esquecidos XTC. Jamboree Park at the Milky Way contém uma miscelânia de mensagens e melodias que identicamente nos entram por um ouvido e nunca saem pelo outro. Ficam. A remoer todas as memórias boas que temos dentro. Como só os grandes conseguem.

Pena apenas que não tenha surgido em Portugal de 68-74. A música nacional merecia ter tido naquela época arte desta cosida a linhas psicadélicas como “Oh Strawberry Cash Machine” que alimenta o excelente “God’s Reply”. Os anos sessenta-setenta portugueses mereciam uma disco-fábula de final feliz “La Fontaine”, em francês de "salopes", genial surpresa final. Mas se calhar só agora “We Were Given Space” (outra deliciosa canção) e como mais vale tarde do que nunca, eis que surgiu à beira da segunda década do século XXI e está aí à mão de semear. Papoilas, margaridas, lírios, hortênsias, cravos. Flores. Muitas. “God Only Knows” quantas.


Nuno Leal
nunleal@gmail.com
20/04/2009