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Dead Combo Lusitânia Playboys

2008


Ao terceiro álbum de originais, Lusitânia Playboys, os Dead Combo mantêm a sua matriz, o que não quer dizer que se mantenham estilisticamente parados. Explicando melhor: a banda lisboeta perderia a sua identidade se deixasse, de um momento para o outro, de basear a sua música numa amálgama de fado, jazz, blues e world music, temperada com espírito western spaghetti. Porém, este disco é o mais complexo em termos de arranjos da sua carreira (para tal muito contribuíram as várias colaborações externas), juntando também novas cores à já vasta paleta combiana. Ouça-se, por exemplo, “Like a Drug”, que transporta os ouvintes para uma atmosfera oriental e que caberia como uma luva na banda sonora de Kill Bill (estás a ler isto, não estás, Tarantino?).

O espírito de Lusitânia Playboys pode ser definido pelo conservador chavão da “evolução na continuidade”. Os Dead Combo continuam a conseguir oscilar entre a melancolia e a euforia no espaço de uma faixa, os mariachi ainda espreitam pelo buraco da fechadura (em Manobras de Maio 06, que tem o piano de Howe Gelb como “extra”), as referências mais directas ao fado (por exemplo, em Estendal na Afurada) mantêm-se como uma das receitas favoritas. Depois, há aquela aparência de que tudo foi gravado numa jam session, mas neste álbum, mais do que nunca, as canções são coesas e não deixam pontas soltas. De resto, a homogeneidade é favorecida pelo forte sentimento visual que impregna cada uma das composições, e que nos faz “ver” as músicas (é um cliché, é certo, mas Desert Diamonds – com o auxílio de alguma narração – prova-o à saciedade).

Aqui há cordas, acordeões, muitos metais. Há convidados como Kid Congo Powers, em Cuba 1970, tema já baptizado de fado habanero, e que constitui o melhor momento do disco. Há Carlos Bica, em Lisbon / Berlin Flight, última faixa, já em regime de descompressão, em ambiente jazzy. O melhor será deixar a poeira assentar, mas não será um grande risco dizer que em Lusitânia Playboys estão as melhores composições de sempre de Tó Trips e Pedro Gonçalves. Já a presença da alma portuguesa no disco, tão melancólica mas tão contemporânea, essa está cientificamente provada.


João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net
27/06/2008