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The Vicious Five Sounds Like Trouble

2008


John Holmes sabia bem que bagagem levava consigo quando fugiu de casa. Cansado de levar porrada do padrasto, aventurou-se sozinho pelas ruas durante alguns dias. A emancipação sucedeu-se algum tempo depois, quando Holmes se alistou no Exército dos Estados Unidos da América e abandonou em definitivo o seu lar. Fez-se homem rijo. Só um pouco mais tarde surgiu a numerosa reputação na indústria de cinema para adultos, as declarações mitológicas sobre a sua própria capacidade sexual, a vida louca envolta em poeirada e crime, tudo aquilo que fez de John Holmes a Lenda maior do hardcore de 1º escalão. Em relação ao Elvis do porno, os Vicious Five contaram, durante a sua afirmação, com duas vantagens: tinham entranhada toda a escola hardcore quando planearam tentar um rock mais maduro e, tanto quase se sabe, não foi necessário qualquer feliz acidente num urinol para que a banda lisboeta se formasse (John Holmes, por coincidência, conheceu, nesse mesmo espaço reservado a cavalheiros, quem o alertasse para o seu dom). Os Vicious Five confiaram na rigidez de um arcaboiço colectivo, decidiram-se em relação a como haveriam de levá-lo avante (e ao Avante) e vindimam todas essas decisões de autonomia num Sounds Like Trouble que, a nível logístico, nem sequer precisa de quebrar quaisquer regras porque foi fundado a partir das que definiu para si.

A liberdade concedida pelo par de tomates DIY / faça você mesmo, que carrega consigo Sounds Like Trouble, é aproveitada em todo o tipo de frentes por uns Vicious Five cada vez mais incansáveis no chocalhar festivo dos seus próprios money makers (guitarras, baixo, bateria e voz), no grosseiro arredondamento do zero em comportamento, no desafio imposto ao domínio dos dinossauros estafados vampirizando o sangue dos dinossauros rock que prevaleciam no topo das tabelas nos tempos remotos de 1986 (quando os Europe eram enormes e a rádio comercial ainda admitia riffs na sua dieta). Sem calculismos de maior e toda a convicção possível por parte de uma banda situada no seu terceiro capítulo discográfico (um EP e dois longos), Sounds Like Trouble é essencialmente o cumprimento da promessa de farra – desde há uns anos apregoada pelos V5 - paga em rock platinado - ateu face às mais intelectualizadas tendências actuais, mas escancaradamente ciente do delírio, pirotecnia sónica e carácter gratuito que se anexaram ao código genético do género a cada que vez que esse se evade de uma seriedade que, de outra forma, o tornaria estático.

Os mais ofendidos com este tipo de crescimento nem sequer se podem queixar de falta de aviso. Eram várias (e assumidas) as pistas que vinham indiciando os Vicious Five como vilões capazes de armar um álbum preparado para se debater com as suas próprias armas entre o campeonato de cock rock que o VH-1 Rocks regista nas noites de sexta-feira. Quem mais arriscaria incluir no alinhamento dos seus concertos uma versão de “Fight For Your Right” dos Beastie Boys, quando os últimos já assumiram que o propósito único dessa faixa era parodiar músicas como "I Wanna Rock" dos Twister Sister? A história ditou que o tiro saísse pela culatra e o tema - “pimpado” pelo produtor Rick Rubin - tornou-se num hino de direito à paródia. Ou quem mais faria de uma secção de fotografias (Gin Tonic), aglomeradas para consulta no My Space da banda, um baú cheio de postais ilustrativos da glória e malefícios que pode encontrar quem - assumir tom dramático VH-1 - confia o seu corpo a um circo rock que, durante vários meses, não conhece paramento - desactivar tom dramático VH-1. Será absolutamente necessário reavivar as memórias obtidas com Up On the Walls e enumerar o número de vezes em que o porta-voz Joaquim Albergaria (em inglês, diz-se Iggy Pop) lançou suspeitas sobre o tamanho justíssimo das calças que usava enquanto alongava os falsetes até um limite quase Judas Priest?

Enquanto perpetuador lógico de tudo isso, Sounds Like Trouble convence por nunca encostar realmente a ponta da língua ao interior da bochecha ou penitenciar-se ironicamente pela culpa da sua grandiosidade talhada para estádios, dos seus refrães XXXL, dos seus heróicos solos de guitarra ou do seu gosto pelo fácil e pragmático, quando a falta de cerimónias assim o reclama. Falta-lhe só mesmo o fatal tema de esquema rítmico boom-boom-chop (próximo de algo como “We Will Rock You” dos Queen), porque já vem equipado com uma “Lisbon Calling” que, num refrão aberto a todos, soletra as letras da capital, enquanto convoca até Lisboa as cidades do restante globo e até bem alto os punhos de quem ainda os tenha escondidos na vergonha dos seus bolsos. Bem merece o esforço uma Lisboa que – com algum bairrismo e sobejo brio – continua a ser proclamada como residência dos putos febris, dos mais intensos beijoqueiros do mundo, das ruas apertadas e de uns Vicious Five que, se quiserem manter limpo o seu cadastro clínico, devem recusar quaisquer propostas para espectáculos organizados pelos Super-Dragões.

À saída de um concerto de V5, é, a partir de agora, mais viável confrontar alguém evidentemente pudico ou de semblante “enjoadinho” com a questão:Então? Doeu muito?. Pode até ser que sim (It Only Heals if it Hurts). O atrevimento mais debochado de Sounds Like Trouble amplia as possibilidades de ser feito humor com os Vicious Five, com o seu público (no qual me incluo), com os episódios sobrantes de uma noite geralmente bem preenchida. Até porque é sabido que trocadilhos geram mais trocadilhos e Sounds Like Trouble consegue ser ainda mais convincente que o seu antecessor no enriquecimento de uma polpa lírica que, mesmo assim, parece ter sido transcrita a partir do caderno escolar do aluno que, nos seus dias áureos, mais destemidamente contestou a proibição de tempo livre. Sounds Like the Trouble entoa em surdina Let the boys be boys / Let the girls be girls.. É garrafão cheio de elixir da juventude servido em shots agitados com água tónica fabricada por impulso certeiro.

A melhor medida de Sounds Like Trouble é a sua total falta de medidas – de Up on the Walls passou-se a Down to the Knees. Se a embriaguez, provocado pelo tal elixir, se alastrar à vizinha Espanha, é possível que o slogan para acompanhar uma campanha publicitária de dimensão ibérica venha a ser:Los Vicious Five me ponen las pilas.. Independentemente da dicção, a frase serve para frisar o conteúdo energético e revitalizante da coisa. E não será a noção de uma mera lenda do porno que irá sabotar a euforia gerada pela primeira vez em que os países “hermanos” concordam em relação a um dos talentos desta casinha peninsular.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
20/03/2008