DISCOS
Karma
Latenight Daydreaming
· 23 Nov 2006 · 08:00 ·
Karma
Latenight Daydreaming
2006
Compost


Sítios oficiais:
- Compost
Karma
Latenight Daydreaming
2006
Compost


Sítios oficiais:
- Compost
Nem todas as mudanças são necessariamente boas. E sete anos de silêncio não trouxeram boas novas. Talvez uma segunda vida mais difícil.
Ao longo da história, a música – e a arte no geral – provou por várias vezes que ou um artista muda e evolui ou então acaba condenado à desgraça por um sistema que corrói tudo o que é novidade e que se adapta a tudo o que seja pragmatismo cego e corrupto. E mesmo quando a novidade não parece trazer nada de verdadeiramente significante para a humanidade, a simples tentativa de correr algum risco pode ser meritório. A mudança faz parte do processo da vida. Em vários momentos, todos nós já sentimos a necessidade de alterar o percurso de forma a evitar a rotina maçadora. Todas as transformações, mutações e metamorfoses na música devem sempre ser alvo de alguma reflexão. Por várias vezes elas foram benéficas na revitalização de determinados projectos, noutras foram o passo decisivo para o abismo da vulgaridade e para o fim de um sonho nascido em dias de sol.

Depois de um período de recolhimento e, perante significativas transformações no seio familiar, os alemães Karma decidiram regressar á produção de música depois de sete anos de inesperado silêncio. E o reflexo das mudanças nas suas vidas está bem patente na música que agora trouxeram ao mundo. Primeiro poderá ficar o espanto e depois algum amargo de boca. Latenight Daydreaming é tudo o que não esperávamos de Lars Dorsch e Tom Dams: um álbum de electrónicas light, pop-folk fantasiosa e, mais importante, com poucas sensações de proeminência. É certo que os Karma sempre demonstraram algum fascínio pelos mecanismos da pop. Thrill Seekers de 1999, apesar do sampler ser ferramenta para a costura de várias memórias jazz, reflectia alguma luminosidade pop enquanto as restantes tipologias acrescentavam envergadura estética á obra. Mas nunca, mesmo nesses momentos de aproximação, davam a entender que o seu futuro passaria por uma investida tão clara pelo formato de canção que agora encontramos em Latenight Daydreaming.

A transformação podia exigir-se. Mas exigir-se-ia também uma noção de que o reportório anterior - Pad Sounds (1997) e Thrill Seekers (1997) - teria uma imagem, um som e um carácter marcado por uma determinada postura aventureira. Uma postura que se deveria manter. Ou seja, mudar mas manter a identidade que tantos momentos de felicidade proporcionaram no passado. E nesta situação será caso para dizer que a evolução foi precipitada, desmesurada e o fim de um projecto que tinha como motivação desbravar o jazz perante uma óptica modernista. Agora, para que não haja dúvidas, é vez da pop dominar.

Os Karma sempre demonstraram talento e sensibilidade na produção. Apesar do sampler ter sido guardado sem margem para um regresso nos próximos tempos, a dupla demonstra que além das capacidades de organizar os sons, também são compositores de canções fantasiosas. Em vez da colecção jazz em vinil para base de inspiração, o virtuosismo da canção clássica de 60 e 70 aliada á folk e a alguma neo-soul, transformam os Karma em viajantes recatados e sentimentalistas. Os Zero 7, os Air, Brian Wilson ou Terry Callier parecem ser algumas das actuais referências estéticas e, esperando-se mais de quem sabe, que essas referências não fossem tão obvias. Alem da descaracterização de um projecto, fundamental na implementação de novas ideias em torno do jazz, estamos também perante um regresso que nada trás de relevante ao cenário actual da pop. As canções são bonitas, talvez excessivamente polidas, mas raros são os momentos onde existe aceleração cardíaca ou emoções exasperadas. Os momentos são bem orquestrados, mas no fim acaba por haver uma sensação de inconsequência e de desilusão. Mudanças sim, mas assim tantas também não. Dispensava-se o desgosto.
Rafael Santos
r_b_santos_world@hotmail.com
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