DiscoAnimal Collective Feels

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2005
Fat Cat / Flur

Sítios oficiais:
Fat Cat
Flur

Há crianças na capa de Feels, o sétimo disco dos Animal Collective em cinco anos. Deakin, Geologist, Panda Bear e Avey Tare devem sentir-se como crianças. Crianças que brincam no recreio, crianças rurais que deitam líquidos azuis da boca e dos olhos, crianças que perdem a cabeça (literalmente) com patos, pintainhos, cabras, pássaros e vegetação à volta. Este espectáculo grotesco é enganador, já que a capa esconde um dos melhores e mais importantes discos pop do ano 2005. “’Cause it’s messy / yes / this mess is mine” (com um prolongamento grande da vogal “i” de “mine”), de “Did you see the words” dá o tom para o disco. Esta confusão, para o bem (não há mal em Feels), é toda deles. São estas explosões, estas vogais prolongadas, os “oooh”, os “aaah”, aliados às guitarras hipnóticas e viciantes, que fazem de Feels o que ele é: um disco perfeito, de uma perfeição descuidada, sem momentos maus ou fracos. Isso e as canções, todas elas absolutamente enormes. “Did you see the words” tem vozes de crianças felizes a gritar, tem partes grotescas, como “The words cut open / your poor intestines / can’t deny / when the inky periods drip from your mailbox / and blood flies dip / and glide reach down / inside” (com o segundo “I” prolongado), mas também tem “whoa-whoa” catárticos.

“Grass”, o single de avanço, começa com uma guitarra preguiçosa, à qual se junta rapidamente uma percussão tribal e uma cadência épica com uma pequena muralha de som de guitarras. Tem uma ponte fortíssima com o grito de “We do the dance up on the plains / then I shake your shoulders” a entrar no refrão “You push me down into the grains / who rubs our noses in the night? / we do we do”, que culmina com gritos de pássaros ou hienas, “pow / now / pow” repetidos várias vezes. É uma canção com uma estrutura algo convencional, mas não menos eficaz por causa disso. “Flesh Canoe” vai-se desenrolando de forma preguiçosa, mas, mesmo antes de se tornar aborrecida, há a parte final que dá sentido a tudo: “’cause what this song’s about / is me singing / I’m just wondering what to do / with you, myself and me / naked in the mirror of the bathroom.” “The Purple Bottle” é para dançar na travessia de um rio no meio da floresta tropical, com um piano, guitarras, percussão e “de roo de roo roo oo”. “Sometimes I’m quiet and / sometimes you’re quiet / hallelujah! / sometimes I’m talkative / and sometimes you’re not talkative / I know” é uma cantada à volta da fogueira, com crianças a usar máscaras e a dançar com paus nas mãos ou assim. Há outras pérolas, como “Can I tell you that you are the purple in me?”, mas no fim a canção muda para um break à la Beach Boys circa Smile, com uivos. “Bees” tem aquilo que podia ser um qualquer instrumento de cordas tocado com facas (mas será, provavelmente, uma autoharpa).

“Banshee Beat” é provavelmente a melhor canção do ano, desde a guitarra do início para a catártica experiência que é quando a canção propriamente dita começa, com as percussões tribais e o grito em “I ducked out / go down to find the swimming pool” (mais uma vez, “pool” é prolongado, no melhor exemplo disso de todo o disco). Tem a melhor letra do disco, com partes altamente citáveis, tais como “I don’t think / that I like you anymore/ well I found new feelings / at the feeling store” ou “Confusion’s not a kidney stone / in my brain / but if we’re miscommunicating / do we feel the same?” Tudo aqui é perfeito, as melodias, a percussão, os gritos de “swimming pool”, os gritos de “swimming pool”, os gritos de “swimming pool”…”swimming pooOOOOOOOOOOOOOOOL”. Faz todo o sentido, todo o sentido. É como se nada tivesse feito tanto sentido como “Banshee Beat” até a este momento. “Daffy Duck” tem o riff de guitarra, a voz cantada e as desbundas melódicas da guitarra. “Loch Raven” tem um loop digital e uns cânticos de vozes, percussão tribal e é a canção mais exploratória do disco. “Turn into Something” fecha o disco em perfeição, com vozes “la la eh” e algo que parece vindo de uma quinta num qualquer espaço rural. “That should turn something / you should turn into something”. E tudo acaba, com o piano de Kristin Anna Valtysdottir (dos Múm) e um bocado de barulho sabe-se lá vindo de onde.

Feels é disco para ouvir todos os dias, a toda a hora. É disco para dar insónias quando se entranha dentro de nós e não conseguimos dormir a pensar em toda a beleza, em todas as melodias, em todas as canções. Mostra uns Animal Collective adultos e ao mesmo tempo eternamente jovens, eternamente crianças, como sempre foram. A diversão e a emoção tocante, o absurdo e a beleza, tudo ao mesmo tempo, em nove faixas que fazem todo o sentido juntas. Não encontraremos outro disco assim, nem hoje nem amanhã, nem nos próprios Animal Collective, talvez residindo aí a sua maior força. Os ácidos, os Beach Boys, o recreio, as melodias, a infância, o recreio, o amor. Feels é tudo isto e muito, muito mais. Onde Sung Tongs era desequilibrado, Feels é amor. Sim, é neo-hippie dizê-lo, mas Feels é amor.

Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net


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